Glitch Princess, segundo álbum de estúdio de Yeule, foi lançado em 4 de fevereiro de 2022 pela Bayonet Records.
Estilisticamente, é um disco múltiplo e mutante: combina cyber-pop futurista, estética neo-técnica, tons góticos e camadas de shoegaze industrial. Essa fusão cria uma paisagem sonora densa e etérea, onde o humano e o digital coexistem em permanente tensão.
Nas letras, Yeule constrói uma narrativa profundamente pessoal, mergulhando em temas como bulimia, ideação suicida, dismorfia corporal e depressão. É uma confissão que transforma vulnerabilidades em linguagem, explorando o próprio corpo e a mente como territórios instáveis.
Ao usar a tecnologia como meio estético, o álbum reflete sobre as fronteiras entre o físico e o virtual — esses espaços intermediários onde muitos vivem hoje, suspensos entre a presença e a desconexão.
Durante a audição, há a sensação de que humano e máquina disputam o mesmo corpo, cada um tentando impor sua lógica sobre o outro.
O resultado é um trabalho inventivo e perturbador, no qual glitches, falhas e distorções funcionam como metáforas de um eu fragmentado.
A exploração dessa “dimensão cibernética” serve tanto de pano de fundo quanto de espelho para o fraturamento emocional e psicológico expresso nas letras.
Ao expor suas fragilidades, Yeule tenta transformar a dor em um gesto de libertação — uma tentativa de existir em uma fantasia pós-humana, onde a expressão não depende mais de gênero ou identidade fixa, mas de afinidades mutáveis, tão instáveis quanto a própria realidade virtual, que se torna aqui o reflexo mais preciso do eu.
Nos próximos parágrafos, vou analisar o álbum faixa por faixa, tentando decifrar o labirinto interior que Yeule constrói nessa obra de vulnerabilidade e transcendência.
My Name Is Nat Ćmiel
O álbum abre com a faixa My Name is Nat Ćmiel, uma introdução enigmática que apresenta a própria artista por trás do nome Yeule: Nat Ćmiel.
A música é construída a partir de uma voz sintética e robótica, que recita uma lista de gostos, desgostos e desejos.
Desde o início, o tema da identidade e da dissociação se impõe e se apresenta musicalmente.
A voz mecânica, cheia de falhas (glitches), soa como uma tentativa de reafirmar a existência no mundo físico após longos períodos de isolamento digital — como se Yeule estivesse atravessado a tela e tivesse se reapresentando a si mesma, traçando um mapa fragmentado de sua própria identidade.
A faixa explora a dualidade entre o humano e a máquina, um dos eixos centrais do álbum. A voz processada e os glitches eletrônicos representam o modo como a identidade de Yeule foi moldada e fraturada pela tecnologia e pela vida online.
A letra também revela um pouco suas vulnerabilidades e traumas. Fala do uso de drogas como escape da depressão — “crushing up rocks and snorting them” — e dos distúrbios alimentares e da dismorfia corporal — “I like to eat, but I don’t like it when it lingers on my body. I like to take up as little space as possible.”
Electric
Esse tom confessional se estende em Electric.
A música transporta o ouvinte para o universo de Glitch Princess com sintetizadores e vocais operísticos e distorcidos, apresentando a desorientação de Yeule em relação a um outro.
O contraste entre doçura e aspereza se torna o eixo emocional da faixa. Yeule alterna vocais suaves e íntimos com efeitos eletrônicos ásperos e distorcidos, criando um espelho sonoro de suas emoções conflitantes. Os gritos agudos e distorcidos no refrão parecem expressar uma liberação dolorosa de frustração, enquanto os momentos de canto delicado revelam a fragilidade de se abrir ao outro.
A letra, crua e direta, aborda emoções sombrias e automutilação, com um verso que faz referência às “cicatrizes que vejo escorrendo do meu braço”. Essa imagem sugere que a sensação “elétrica” é também um mecanismo de enfrentamento — uma forma de confirmar a própria existência em meio ao tormento interior.
Como artista não binária que se descreve como uma “entidade ciborgue”, Yeule explora constantemente a interseção entre o digital e o físico. A produção sintética e distorcida de Electric (e de todo o disco) cria um espaço sonoro onde humano e máquina se confundem, representando essa dupla realidade. Nesse contexto, a conexão “elétrica” pode ser tanto com uma pessoa online quanto com um personagem digital ou um ser físico — todos reflexos de uma busca por contato enquanto se permanece distante do próprio corpo.
Flowers are Dead
A terceira faixa, Flowers are Dead, aborda o desconforto emocional e a sensação de perda que surgem ao testemunhar o amor dos outros enquanto se sente indigno de ser amado e emocionalmente ferido.
As “flores mortas” funcionam como símbolo de um amor passado, representando o esgotamento emocional de quem já não consegue florescer. Ainda assim, o verso “I can still smell the flowers, the flowers are there” sugere que a lembrança desse amor persiste — um fantasma afetivo que continua a assombrar o protagonista.
O tema central é a insegurança de se sentir incapaz de merecer amor, expressa na linha: “What makes you unworthy of love? Because I’ve been damaged so much, oh.” A confissão revela como traumas emocionais e marcas de automutilação deixaram a artista fragmentada, incapaz de dar ou receber afeto plenamente.
A música se inicia com uma troca de perguntas e respostas que define seu tom emocional:
“What makes you uncomfortable? Seeing people in love. Why does that make you so sad? Because I don’t have someone to hurt, oh.”
O diálogo evidencia um anseio por conexão e, ao mesmo tempo, uma autopercepção destrutiva que impede essa entrega. Há algo de cristão e comovente nessa sinceridade: Yeule não tenta esconder sentimentos como inveja ou amargura, transformando a canção em um confessionário íntimo onde o erro e a fragilidade ganham forma poética.
Eyes
Em seguida, na quarta faixa, Eyes, Yeule aprofunda ainda mais o mergulho interior, explorando a opressão dos próprios demônios, a crise de identidade e o desejo desesperado de escapar do próprio corpo.
Na letra, Yeule pergunta: “How can I burn out from my real body?” — uma confissão que revela profunda desconexão com a própria forma física, quase como um desconforto de natureza gnóstica, em que o corpo é visto como prisão da alma. A música traduz essa sensação de confinamento e alienação dentro da própria pele.
O pedido desesperado “Take me away from these demons” expressa o anseio por libertação da dor interna, uma súplica para escapar da escuridão e da energia maníaca que tomam conta da mente.
No contexto de Glitch Princess, Eyes não é apenas uma canção de desespero, mas um pedido de ajuda.
Perfect Blue
A próxima faixa, Perfect Blue, é inspirada no anime homônimo de 1997.
Embora não seja uma releitura direta do filme, a canção compartilha seus temas centrais — a busca por identidade, o conflito entre o eu virtual e o real e a autodestruição.
Assim como Mima Kirigoe, protagonista do longa, que enfrenta uma identidade fragmentada e um colapso entre imagem e essência, Yeule expressa na letra um sentimento semelhante de inadequação e exaustão interior. O verso “I’m sorry, I don’t feel so good” traduz essa autoconsciência dolorosa, marcada por tentativas de suportar o próprio vazio — inclusive por meio do uso de drogas, como a cocaína, mencionada de forma explícita.
Don’t Be So Hard on Your Own Beauty
A faixa seguinte, Don’t Be So Hard on Your Own Beauty, marca uma virada de tom em Glitch Princess: é a primeira canção com uma mensagem positiva em meio à escuridão emocional do álbum.
Musicalmente, é também uma das faixas mais convencionais, com violão acústico suave e vocais mais tradicionais, contrastando com o experimentalismo predominante do disco, repleto de efeitos eletrônicos e sintetizadores distorcidos. Longe de destoar, essa simplicidade reforça o caráter luminoso e esperançoso da canção.
A letra fala sobre autoaceitação e cura através do olhar de alguém que reconhece o valor do outro. Diferente do discurso comum da “autossuperação solitária”, a música enfatiza a importância da presença do outro como elemento de salvação — uma ideia que se aproxima de uma visão quase espiritual do amor ao próximo. Yeule explora a dor do auto-ódio e o poder transformador de ser amado.
A artista revelou que compôs a faixa como uma espécie de diário íntimo durante um período de intenso auto-ódio em relação à própria aparência. A letra traduz essa sensação como um “pesadelo”, uma jornada por um labirinto coberto de videiras espinhosas — metáfora para o sofrimento e a autocrítica destrutiva.
O ponto de virada ocorre com a entrada de uma outra pessoa, alguém que consegue ver além da “carne manchada” que Yeule acredita carregar. Essa aceitação externa se torna o catalisador para o autoperdão. Em um dos versos mais viscerais, Yeule expressa gratidão à figura que “gathers all my insides / spilled, bruised, and bloody” — alguém que acolhe seus fragmentos e, com isso, permite que ela volte a se enxergar com ternura.
A gentileza desse outro se transforma em um mantra de cura: “You tell me not to be so hard on myself about my own beauty.” A repetição da frase reforça a ideia de que a aceitação é um processo, não uma revelação instantânea.
Por fim, a imagem lírica de ser “acordada de um pesadelo” simboliza o renascimento emocional de Yeule — o momento em que o amor e a empatia a ajudam a escapar do labirinto de traumas e automutilação, abrindo espaço para uma nova percepção de si mesma.
Fragments
Na sétima faixa, “Fragments”, o álbum retorna a um tom mais sombrio. A letra explora o amor incondicional, mas destrutivo — um vínculo em que a cantora promete entrega total mesmo reconhecendo e sendo ferida por suas próprias falhas. A canção é marcada por vocais distorcidos e robóticos, ruídos mecânicos e texturas sombrias de sintetizador. Essa paisagem sonora cria a sensação de uma consciência frágil e despedaçada, como se a realidade da cantora estivesse se partindo ao seu redor, feito vidro fino.
A faixa marca uma outra virada no disco: o olhar que antes era autodepreciativo se torna mais cru e consciente. Yeule encara de frente “a escuridão dos meus próprios demônios”, aceitando-a como parte de si. A estrutura fragmentada da música reflete esse conflito — o descompasso entre identidade e emoção.
No fim, “Fragments” simboliza o estilhaçamento do eu e o caos emocional que surge quando a identidade se desintegra sob o peso da própria introspecção.
Too Dead Inside
A faixa “Too Dead Inside” aprofunda (ainda mais) o lado mais sombrio do álbum ao abordar o entorpecimento emocional — a sensação de estar distante, vazio e incapaz de reagir.
Paradoxalmente, Yeule utiliza uma batida animada e vibrante, inspirada no dancehall, para contrastar com a melancolia da letra.
A canção retrata esse estado de apatia como um mecanismo de defesa diante do trauma, fazendo com que a pessoa se perceba como um espectador da própria vida — quase um fantasma.
Em entrevista à The Fader, Yeule explicou: “Em alguns dias, percebo que tenho pouca ou nenhuma reação às coisas que acontecem, sejam boas ou ruins… Eu poderia muito bem ser um fantasma.”
Essa indiferença emocional também se reflete na estética da faixa. O ritmo pulsante e dançante contrasta deliberadamente com a letra triste, simbolizando como alguém pode parecer radiante por fora, enquanto se sente emocionalmente exaurido por dentro.
Segundo a própria artista, sua intenção era “trazer uma estética brilhante, nova e animada para um reino mais sombrio”, revelando a contradição entre aparência e vazio interior.
Bites on My Neck
A faixa “Bites on My Neck” aprofunda os temas de amor obsessivo, autodestruição e desejo por intensidade emocional, mesmo que essa intensidade venha acompanhada de dor.
A produção combina cordas etéreas com elementos de hyperpop e indie rock, criando uma atmosfera que oscila entre a ternura e o colapso — uma tensão constante entre intimidade e destruição.
Yeule descreve a canção como “uma ode a um amor que amei — e rapidamente matei — com minhas próprias mãos”. Essa linguagem violenta e possessiva revela uma relação tóxica, em que amor e destruição se confundem.
A confissão “Eu tive que entrar no fogo para saber como sentir” expressa o desespero do eu lírico por experiências intensas, mesmo que sejam dolorosas, como um modo de escapar da apatia.
O título “Bites on My Neck” (“Mordidas no Meu Pescoço”) evoca uma imagem ao mesmo tempo íntima e perturbadora. As marcas físicas do amor se tornam símbolos de um desejo masoquista, em que o toque que fere também é o que prova a existência do outro.
Como em outras faixas de Glitch Princess, a produção sonora reforça o contraste entre emoção e tecnologia. A letra intensa e visceral é envolta por uma estética eletrônica e por ruídos de glitch, refletindo a contradição de alguém profundamente ferido tentando manter uma aparência fria e “digital”.
I <3 U
“I <3 U” dá continuidade ao mergulho emocional do álbum, explorando um amor autodestrutivo com brutal honestidade. A música trata de ferir a si mesmo e aos outros, revelando um desejo desesperado de conserto e redenção.
A produção incorpora efeitos de falha digital e trechos de spoken word, que reforçam a impressão de uma mente fragmentada, vulnerável e à beira do colapso.
O verso recorrente — “Você sabe que eu me machuco / Mas eu te amo” — é o coração da canção. Essa justaposição mostra uma personagem que reconhece suas próprias tendências destrutivas, mas que ainda é movida por um amor incontrolável. O sentimento persiste apesar, e talvez por causa, de sua dor.
Ao longo da faixa, a narradora implora por reparação, com versos como “Costure-me, remende-me, me coloque de volta no lugar” e “Deixe-me entrar, deixe-me tentar”. Esses pedidos revelam a necessidade de cura e a esperança de que o amor possa servir como uma forma de restauração.
Contudo, a autodestruição não é unilateral. A cantora reconhece que o dano se estende também ao outro: “Você sabe que eu posso ser cruel / Não só comigo, mas com você.” O amor se torna, assim, uma força tanto de ligação quanto de ruína.
A pergunta central — “Diga-me por que eu / Pareço destruir tudo o que toco” — resume a angústia da faixa. Há vulnerabilidade em admitir a falha e desespero em perceber que o próprio toque, mesmo motivado por amor, carrega o peso da destruição.
Friendly Machine
A faixa “Friendly Machine” funciona como uma crítica à pressão social por produtividade e normalidade emocional, mostrando como muitas pessoas recorrem a mecanismos artificiais de enfrentamento para parecer bem, mesmo quando estão emocionalmente devastadas.
A “máquina amigável” mencionada na letra — que envolve o pescoço da narradora — é uma metáfora para uma solução falsa e autoenganosa, algo que promete apagar memórias e “fazer tudo desaparecer”, mas que apenas simula bem-estar. A imagem representa o uso de paliativos (como medicamentos, drogas ou distrações) para lidar com problemas mentais profundos, sem realmente enfrentá-los.
A letra inclui referências explícitas a pensamentos suicidas e ao abuso de medicamentos com o desejo de “ser atingida por um trem”. Esses versos revelam a dor por trás da aparência de estabilidade que a “máquina” tenta sustentar — uma crítica direta à superficialidade das soluções rápidas para o sofrimento psíquico.
Mandy
Em “Mandy”, o Yuele chega a um ponto de colapso emocional e psicológico. A faixa aprofunda temas de desconfiança, desilusão e libertação dolorosa, funcionando como um eco desesperado de “Friendly Machine”. Se antes o narrador tentava mascarar a dor com uma “solução falsa”, agora essa ilusão se desfaz completamente.
No final, há uma esperança frustrada — a expectativa de que “Mandy” faria “tudo desaparecer”, mas nada disso acontece. O resultado é apenas mais confusão e vazio.
Os versos iniciais já revelam o estado mental fragmentado do narrador:
“Eu nem consigo confiar em você, eu nem consigo confiar em mim mesmo.”
Essa linha sintetiza a paranoia e a autotraição, mostrando um sujeito em guerra consigo mesmo.
Algumas leituras sugerem que “Mandy” não é uma pessoa real, mas uma personificação dos impulsos autodestrutivos ou dos “pensamentos sabotadores” que o dominam. Assim, quando Yeule grita “Eu não te amo mais, Mandy!”, não está rompendo com alguém, mas tentando se libertar da parte de si que o consome.
A produção da faixa reforça essa atmosfera de colapso: percussões industriais, vocais distorcidos e sobreposições sonoras criam um ambiente claustrofóbico e caótico — uma tradução sonora do desespero interno da personagem.
Como última música antes da faixa longa e meditativa “The Things They Did for Me Out of Love”, “Mandy” atua como o clímax emocional do álbum — o momento em que toda a dor, alienação e autodestruição acumuladas chegam ao limite.
The Things They Did for Me Out of Love
Depois vem “The Things They Did for Me Out of Love”, a monumental faixa de quatro horas e quarenta e quatro minutos — sim, quase cinco horas de duração.
Essa composição representa a fase final da jornada emocional e psicológica narrada em Glitch Princess. Se as faixas anteriores tratavam do colapso, aqui encontramos o pós-colapso: um estado de descanso, contemplação e imersão meditativa no trauma.
Após a intensidade fragmentada das músicas anteriores — especialmente o desespero de “Mandy” —, esta peça ambiental e hipnótica traz uma sensação de calma e encerramento. É como juntar lentamente os cacos depois de uma ruptura emocional total.
Criada em colaboração com o produtor Danny L Harle, a faixa foi descrita por Yeule como uma viagem pela “Catedral da Mente” — uma experiência de morte do ego tão profunda que ultrapassou os limites do medo:
“Foi um vazio tão grande que me assustou além do que eu pensava que o medo poderia manifestar. E então houve silêncio.”
A música traduz esse mergulho em forma sonora. Suas camadas longas, estáticas e meditativas funcionam como um espaço de cura, onde artista e ouvinte podem respirar após o turbilhão emocional do álbum.
Mas essa calma não é apenas repouso — é também libertação.
Depois do caos e da dor, as harmonias etéreas e os sintetizadores serenos evocam a sensação de transcendência. A persona da Glitch Princess finalmente se desfaz das partes mais densas e doloridas de si, entregando-as ao éter num gesto de desapego e purificação.
Como faixa final e epílogo do álbum, essa obra conduz o ouvinte para fora das alturas e abismos emocionais explorados até aqui, permitindo uma reflexão sobre toda a jornada.
Sua longa duração é simbólica: Yeule transforma o tempo em metáfora da cura — um processo lento, paciente e contínuo. As quatro horas e quarenta e quatro minutos não são apenas uma faixa, mas um ritual de reconstrução interior.