The Mountain (estilizado em devanágari como पर्वत, parvat, “montanha” em hindi) é o nono álbum de estúdio do Gorillaz.

Em contraste com trabalhos recentes, como Cracker Island, marcado por uma abordagem mais solta, pop e, em certa medida, protocolar, centrada numa crítica social urbana voltada à alienação nas redes sociais e nas bolhas digitais, The Mountain organiza-se como uma articulação entre a experiência do luto e a busca espiritual.

Talvez seja o trabalho mais denso, emocional e ambicioso do Gorillaz.

A gênese do disco está profundamente ligada à circunstância trágica e inevitável da morte. Durante seu período de gravação, os pais de Damon Albarn e Jamie Hewlett faleceram, tornando o luto um elemento central da concepção do álbum.

A Índia surge aqui como um espaço simbólico da busca espiritual, quase como um “lugar mítico” capaz de transformar o luto numa experiência paradoxalmente luminosa e numa mensagem de continuidade.

Ainda assim, o respeito demonstrado pelo disco à Índia e ao Oriente não se traduz em um romantismo ingênuo, tampouco se perde em exotismos.

Mesmo atravessado pela experiência da morte e fascinado pela promessa de transcendência oferecida pela espiritualidade oriental, o Gorillaz preserva sua identidade crítica, seus temas recorrentes, sua ironia e seus tradicionais deboches. Isso pode ser percebido em faixas como Happy Dictator e Plastic Guru.

Em sua sonoridade, o disco articula música clássica indiana, dub, hip hop, synth-pop oitentista, soul melancólico e elementos da música árabe, sem que essas influências pareçam meramente decorativas.

As faixas mais acessíveis aproximam-se do electropop e da new wave, com refrões diretos e estruturas mais imediatas. Em contraste, há trechos em que o disco desacelera e mergulha em atmosferas mais místicas, com arranjos e texturas expansivas que ampliam a percepção do espaço sonoro.

Ao longo do álbum, drones de sitar e linhas de flauta bansuri constroem uma base modal que evoca transcendência e suspensão do tempo. Esses timbres estabelecem uma atmosfera contemplativa que reforça o caráter meditativo do disco e sua reflexão sobre finitude e transformação. Em contraponto, batidas eletrônicas modernas, linhas de baixo marcantes e programações rítmicas típicas da banda preservam seu caráter urbano e dinâmico, impedindo que a música se dissolva em abstração espiritual.

Dessa tensão entre elevação e aterramento nasce uma sensação permanente de deslocamento, como se o ouvinte transitasse continuamente entre o sagrado e o ordinário.

Nesse sentido, o sagrado e o artificial deixam de ser polos opostos para compartilhar o mesmo plano de existência. A espiritualidade não aparece como uma instância pura ou isolada, mas atravessada pela identidade do Gorillaz: urbana, crítica, irônica e profundamente contemporânea.

No conjunto, The Mountain alcança um equilíbrio raro entre introspecção e energia, melancolia e impulso vital. É um disco que não transforma a espiritualidade em fuga do mundo, mas em uma forma de permanecer nele, aceitando que a transcendência talvez não esteja em abandonar a realidade, e sim em aprender a habitá-la mesmo depois da perda.

Faixa favorita: The Mountain.

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