O álbum de estreia do Exxúl, Sealed In to None, lançado em janeiro de 2026, mal foi lançado e já está sendo aclamado como provável melhor disco de Heavy Metal do ano. E, reforçando, estamos em janeiro.

Acabei de ouvir e, de fato, trata-se de um trabalho ambicioso, tecnicamente sofisticado e, sobretudo, surpreendente na maneira como articula opostos.

Misturar Doom Metal, com sua lentidão arrastada e atmosfera densa, ao ímpeto veloz e luminoso do Power Metal é, em tese, uma contradição estética. De um lado, a contemplação sombria; de outro, a adrenalina melódica. No entanto, o Exxúl não apenas sustenta essa tensão como a transforma no eixo criativo do álbum.

As faixas, todas estruturadas como longas suítes com mais de oito minutos, percorrem diferentes andamentos e climas. O que poderia soar como colagem estilística se revela uma escrita composicional madura. As transições são orgânicas: a banda desacelera para mergulhar em atmosferas densas e opressivas, acelera em passagens de energia quase épica, retorna a cadências pesadas e meditativas. Há coesão. Há direção.

Boa parte dessa unidade, na minha opinião, se deve à produção assinada por Andrew Lee. O disco soa deliberadamente retrô. Nada de compressão excessiva, nada de camadas artificiais sobrepostas até a exaustão. Nada de orquestração artificial. Tudo aqui soa cru. A estética remete diretamente ao metal da metade dos anos 80, evocando a sobriedade sonora de álbuns clássicos do Fates Warning e do Queensrÿche em sua fase inicial.

O resultado é um som orgânico e respirável, que valoriza execução e arranjos, e menos os artifícios.

O grande trunfo do disco é, sem dúvida, o vocalista Stargazer, pseudônimo de Thomas Karam. Sua performance é impressionante. O alcance é amplo, a projeção é firme, e há um controle técnico que permite transitar entre registros dramáticos e momentos de intensidade quase teatral. Sua voz e sua performance lembram muito as de Geoff Tate, do Queensrÿche. Stargazer compartilha com Geoff a clareza aguda, a precisão das notas mais altas, sem perder densidade emocional.

Em um álbum tão dinâmico, sua voz funciona como elemento de amarração, conferindo identidade às constantes mudanças de andamento.

No campo instrumental, o guitarrista Defender, alter ego de Phil Tougas, demonstra uma versatilidade notável. Ele se move com naturalidade entre riffs arrastados típicos do Doom, galopes clássicos de Heavy Metal tradicional e sequências aceleradas que dialogam com o Power Metal mais virtuoso. Em vários momentos, a combinação de riffs pesados e solos shred (evocando ecos de Yngwie Malmsteen e Marty Friedman) cria um contraste instigante. Ainda assim, não se trata de mera referência: há personalidade na construção melódica dos solos, que parecem sempre servir à arquitetura maior das composições.

Outro elemento essencial para a identidade do álbum é o trabalho de Spectre nos teclados e sintetizadores. Longe de assumir um papel meramente ornamental, os teclados ajudam a construir uma atmosfera que tangencia o Dungeon Synth. Há uma aura quase medieval, soturna e evocativa, que se infiltra nas passagens mais lentas, ampliando a sensação de clausura sugerida pelo próprio título do disco.

Essa dimensão atmosférica aprofunda o diálogo com o Doom, ao mesmo tempo em que cria um pano de fundo textural para as explosões mais velozes.

Se é cedo para cravá-lo como um dos discos do ano, é igualmente difícil ignorar a força desse debut.

Clique aqui para escutar.

Gostou do conteúdo?

Ajude o Taverna do Lugar Nenhum com qualquer valor.

Newsletter

Recomendado

Podcast Recente

Rolar para cima