O tema menos interessante em Dom Casmurro, de Machado de Assis, é o tema conjugal. Até porque esse tema está, na verdade, atrelado a outro muito maior e muito mais interessante: o tema do ato de narrar e de como esse ato é, na verdade, um campo de disputa entre memória, imaginação e autojustificação.

Costuma-se dizer que Dom Casmurro encerra a chamada “trilogia realista” do autor, iniciada em Memórias Póstumas de Brás Cubas e continuada em Quincas Borba.

Sou da tese de que Machado nunca foi realista, mas um antirrealista cervantino.

Machado, sim, veste a obra com a roupagem do realismo.

Em seu romance há dinheiro, casamento, ascensão social e até mesmo a sugestão de um adultério.

Entretanto, sob essa superfície reconhecível, o romance realiza algo bem mais radical: uma anatomia do pensamento. O verdadeiro drama não está nos fatos, que desconhecemos, mas no modo como eles são reconstruídos por uma memória que já nasce contaminada.

O realismo buscava oferecer ao leitor uma espécie de lente fotográfica da realidade.

Machado de Assis faz o exato oposto: não oferece um espelho, mas uma lente deformante, capaz de revelar não o mundo em si, mas um mundo filtrado pela consciência, muitas vezes paranoica, de seus narradores.

O que vemos em Dom Casmurro não é a realidade objetiva de um adultério possível, mas a arquitetura mental de um narrador empenhado em dar forma narrativa às próprias obsessões.

Nesse sentido, o romance se aproxima mais da tradição inaugurada por Miguel de Cervantes em Dom Quixote; por isso eu o chamo de cervantino.

Assim como o cavaleiro de La Mancha transforma moinhos de vento em gigantes, Bentinho transforma a ambiguidade de gestos no espectro de uma traição.

O moinho de vento contra o qual Bentinho luta é o suposto comportamento errático de Capitu. Contudo, essa figura monstruosa que ele descreve parece existir menos na realidade do que em sua própria narrativa. Mesmo quando lemos o relato através de seus olhos, já enviesados pelo ciúme e pela melancolia, é difícil encontrar um gesto inequívoco que autorize a condenação da personagem.

Bentinho se aproxima, assim, do cavaleiro da triste figura. Mas é um Quixote sem grandeza. Enquanto o herói cervantino luta para preservar uma idealização generosa do mundo, Bentinho luta para justificar a própria ruína. Sua batalha não visa salvar ninguém; ela serve apenas para dar sentido retrospectivo ao isolamento em que termina a vida.

Entre os narradores mais conhecidos da literatura brasileira, ele talvez seja o menos confiável. Pode-se ir além e dizer que é também o mais mentiroso. Não no sentido banal da mentira deliberada, mas em uma dimensão mais profunda: Bentinho mente para si mesmo até o ponto em que a mentira se torna convicção.

É inevitável, portanto, enfrentar a pergunta que atravessou gerações de leitores: Capitu traiu Bentinho?

Minha resposta é um lacônico não.

E esse não não nasce apenas da ausência de provas no interior da narrativa. Ele se apoia também no próprio percurso literário de Machado. Já em Ressurreição (1872), seu primeiro romance, encontramos uma descrição implacável da maneira como o ciúme pode corroer o amor. Ali, o personagem Félix destrói a possibilidade de felicidade com Lívia não por causa de qualquer falha dela, mas por sua incapacidade estrutural de confiar.

Félix é, de certo modo, o protótipo de Bentinho. Ambos transformam a suspeita em destino. Ambos preferem perder o amor a enfrentar a incerteza. Machado já sugeria, naquele romance inicial, que o problema raramente está no objeto observado, mas no olhar que observa.

Bentinho não quer apenas convencer o leitor de que houve traição. Ele precisa acreditar nisso. A suposta culpa de Capitu funciona como uma peça indispensável para que sua própria história adquira um tom trágico ou heroico. Sem essa traição, restaria apenas a imagem menos grandiosa de um homem incapaz de lidar com a dúvida.

Se Capitu tivesse realmente traído, Dom Casmurro seria apenas mais um romance realista sobre adultério, não muito diferente de tantos outros do século XIX. O gênio de Machado está justamente em evitar essa solução simples. O que sustenta o livro é a possibilidade inquietante de que estejamos assistindo, página após página, à construção de uma calúnia.

Capitu, então, deixa de ser a adúltera que a tradição escolar tantas vezes imaginou. Torna-se algo muito mais trágico: a vítima silenciosa de um delírio interpretativo. Como Lívia antes dela, é julgada não por seus atos, mas pela imaginação de um homem que prefere a destruição ao benefício da dúvida.

No fim, o verdadeiro drama de Dom Casmurro talvez não seja o adultério, mas a solidão que nasce quando alguém decide transformar suspeitas em verdades absolutas. E, nesse tribunal íntimo erguido por Bentinho, a sentença parece ter sido escrita antes mesmo que o julgamento começasse.

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