Publicado em 1872, Ressurreição, primeiro romance de Machado de Assis, já anunciava o gênio literário que marcaria a história da literatura brasileira. Embora classificado como obra da fase romântica do autor, destaca-se por um romantismo contido, distante dos excessos sentimentais e das reviravoltas melodramáticas típicas do gênero. Como o próprio Machado explica na “Advertência da Primeira Edição”, sua intenção não era escrever um “romance de costumes”, mas um “esboço de uma situação e o contraste de dois caracteres”. O resultado é uma narrativa psicológica, rara para a época, que prioriza a complexidade interior dos personagens sobre os eventos externos. Inspirado no verso shakespeariano — “Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o bem que frequentemente poderíamos ganhar, ao termos medo de tentar” —, o livro explora as contradições humanas com uma profundidade que surpreendeu a crítica contemporânea, que vislumbrou nele o início de uma carreira brilhante.

O protagonista, Félix, é um médico galanteador, habituado a conquistas fáceis e relações superficiais. Seu “inferno interior”, no entanto, revela-se quando ele se vê genuinamente apaixonado por Lívia, uma viúva que, diferentemente de suas conquistas anteriores, exige dele não a performance do sedutor, mas a vulnerabilidade do amor verdadeiro. Acostumado a máscaras e estratégias de sedução, Félix se descobre incapaz de lidar com a simplicidade de um afeto recíproco. Sua crise existencial — a dúvida sobre sua própria capacidade de amar — transforma-se em autossabotagem: ele projeta em Lívia a mesma falsidade que o define, alimentando ciúmes infundados e desconfianças que corroem a relação. Machado descreve com maestria essa espiral de degradação, em que o medo da autenticidade leva Félix a preferir a ruína ao risco de se entregar.

A dinâmica entre Félix e Lívia é construída sobre antíteses — atração e repulsa, ciúme e saudade — que se alternam sem jamais se resolverem. Cada reconciliação é seguida por um novo conflito, mais amargo que o anterior, como feridas reabertas antes da cicatrização. O ciúme de Félix, em especial, é desencadeado por Luís Batista, um libertino que insinua, com sutileza diabólica, uma intimidade inexistente com Lívia. A ambiguidade dessas insinuações, nem explícitas nem negáveis, envenena a mente de Félix, que passa a ver traição em gestos insignificantes. Lívia, por sua vez, lê no rosto do amante rugas “quase imperceptíveis” que revelam sua desconfiança, num jogo de interpretações onde o não dito pesa mais que as palavras. A relação desmorona não por um evento concreto, mas pela impossibilidade de ambos escaparem de seus próprios fantasmas: ela, a culpa por um casamento passado frustrado; ele, a certeza de sua própria inautenticidade.

Machado antecipa em Ressurreição temas que marcariam sua fase realista, como a análise das misérias humanas e a ironia frente às convenções sociais. A obra, porém, vai além: é uma reflexão sobre o preço do pecado e da mentira. Félix, ao cultivar uma vida de falsos amores, torna-se incapaz de reconhecer o verdadeiro — e paga por isso com a solidão. Lívia, que outrora idealizou o amor romântico, enfrenta a desilusão de um novo fracasso. Nas palavras do narrador, “não há pecado sem o salário da morte”. A “ressurreição” prometida no título nunca se concretiza; resta apenas o lento definhar de dois corações que, por medo ou orgulho, escolhem a desesperança.

Em sua economia narrativa e profundidade psicológica, Ressurreição é mais que um romance de estreia: é um prenúncio da genialidade machadiana. Nele, o autor já demonstrava sua habilidade em dissectar a alma humana, expondo não apenas suas contradições, mas a tragédia silenciosa daqueles que, como Félix, preferem a segurança da máscara ao risco de serem verdadeiros. A crítica da época reconheceu seu valor — Joaquim Serra previu que marcaria época —, mas talvez nenhum elogio tenha captado tão bem sua essência quanto a observação de Luís Guimarães Júnior: Félix é “um tipo admiravelmente compreensível”. E é nessa compreensão da fragilidade humana que reside a força perene da obra.

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