Poucas vezes li um livro que descrevesse com tanta clareza a dinâmica de relações falidas quanto Ressurreição, de Machado de Assis.
O que parece ser uma história de amor comum e agradável vai se revelando como uma oscilação contínua e corrosiva, feita de idas e vindas, impulsionadas pelas “formas antitéticas” da saudade e do ciúme.
Enquanto o ciúme afasta, a saudade aproxima — mas a mácula do primeiro não é totalmente desfeita pelo movimento seguinte de reconciliação. Pelo contrário: essa dinâmica tende a agravar a situação, como se feridas antigas fossem reabertas no mesmo lugar onde já começavam a cicatrizar.
O Capítulo IX (“Luta”) descreve de maneira impressionante a origem desse ciúme.
Félix, o protagonista que ama Lívia, começa a sentir ciúmes de Luís Batista, um homem casado e libertino que passa a cortejá-la sutilmente.
Batista deseja envenenar o relacionamento entre os dois por meio da sugestão de uma aproximação íntima com Lívia — uma aproximação calculada, que não deveria ser explícita nem declarada, para não suscitar uma revolta direta ou uma guerra aberta; mas também não deveria ser imperceptível — antes, sutil, diabolicamente sutil.
Essa sutileza da sugestão é a mais nociva, pois é também a mais difícil de identificar — ou mesmo de descrever.
Na ausência de uma forma definida, algo que se possa medir, o ciúme assume proporções titânicas.
A mais antiga das capacidades humanas é a criação de mundos por meio da prosa; a mais sensível, a interpretação poética — essa rara habilidade de ler o dito no não dito.
A meu ver, essa combinação se torna reflexo daquilo que temos de melhor e de pior. Transforma-se em pendor para a ambiguidade, e essa ambiguidade, por sua vez, converte-se em sofrimento — um sofrimento que transborda nos gestos contidos e nas mais delicadas expressões dos rostos dos personagens.
Lívia, com o tempo, aprendeu a soletrar no rosto de Félix as tempestades do coração:
“Às vezes, no meio de uma conversa indiferente, alegre e pueril, os olhos de Lívia se obscureciam e a palavra lhe morria nos lábios. A razão da mudança estava numa ruga quase imperceptível que ela descobria no rosto do médico (Félix), ou num gesto mal contido, ou olhar mal disfarçado.”
Félix dizia-lhe, pelos gestos mais sutis, sua insatisfação; e ela compreendia, pelo não dito de suas rugas — que talvez nem existissem —, algo tão quimérico quanto verdadeiro.
Não havia como exigir explicações, nem buscar objetividade que definisse com clareza aquele mal-estar.
Lívia era vítima inocente das intenções de Batista. Não correspondia a elas — o que, para Félix, era irrelevante. Aliás, ao não ver nada, ele acabava vendo demais: criou mundos onde Lívia e Batista se encontravam às escondidas e se amavam em segredo.
Se Lívia se entregasse a Batista, o crime estaria exposto; se o repelisse, seria por dissimulação.
O fim desse relacionamento é inevitável.
Eis a definição completa do ciúme — e de um relacionamento fadado ao fracasso.
