O passado sempre é: Thomas Mann e o Resgate do Mito

Há escritores que envelhecem como quem lentamente se aproxima do silêncio. Outros, porém, parecem atingir na velhice uma espécie de radicalização.

Em vez de suavizarem suas tensões interiores, eles as aprofundam. Em vez de abandonarem as grandes questões da existência, retornam a elas com intensidade ainda maior, como se apenas o acúmulo dos anos lhes concedesse o direito de encará-las em toda a sua gravidade. Entre esses autores, poucos ocupam um lugar tão singular quanto Thomas Mann.

Em sua obra tardia, Mann desenvolve aquilo que a crítica chamou de Spätstil, o “estilo tardio”, marcado por uma espécie de “radicalismo de velhice”.

Já escrevi sobre esse horizonte da velhice em meu artigo sobre Escândalo, do escritor japonês Shusaku Endo. Diferentemente de Mann, em quem a velhice amplia a consciência histórica, em Endo ela intensifica a consciência corporal e moral. Suguro, protagonista de Escândalo, um católico japonês duplamente deslocado por sua condição, descobre que o fim da vida não representa o fim do desejo, nem tampouco o fim da possibilidade de queda.

Em ambos, a velhice não elimina o drama humano; ela o radicaliza.

Radicalismo de velhice

A expressão “radicalismo de velhice”, formulada pelo crítico Walter Jens, define um paradoxo essencial: Mann torna-se radical não por rejeitar o passado, mas justamente por se agarrar a ele.

No entanto, esse radicalismo da velhice diz menos respeito à condição biológica de envelhecer do que àquilo que se entende como “velho”: as tradições, os mitos, as lendas, tudo aquilo que ocupa cada vez menos espaço na modernidade.

Diferentemente do radicalismo revolucionário, o radicalismo de Thomas Mann não consiste em destruir tradições, mas em descer às suas raízes mais profundas para confrontar a barbárie do presente.

Enquanto muitos intelectuais de sua geração se calavam ou se adaptavam ao tom do pós-guerra, mais leve, mais irônico e mais conformado à fragmentação, Mann faz o oposto. Em obras como Doutor Fausto (1947), ele retorna ao mito fáustico, talvez o mais alemão dos mitos, não para celebrá-lo, mas para dissecá-lo como um diagnóstico civilizacional da catástrofe alemã e ocidental.

O romance é denso, estruturado quase musicalmente e, por vezes, cruel em sua ambição totalizante. É como se, diante da proximidade da morte, Mann sentisse a obrigação de prestar contas finais à história.

Radical e não revolucionário

Thomas Mann não é revolucionário no sentido moderno da palavra, isto é, alguém que pretende destruir o velho para erguer algo inteiramente novo. Seu radicalismo segue a direção contrária: é um radicalismo etimológico, ligado à ideia de retornar à raiz.

Ele mergulha em Johann Wolfgang von Goethe, em Friedrich Nietzsche, na Bíblia, na mitologia germânica e no humanismo burguês do século XIX não por nostalgia, mas porque apenas nessas camadas mais profundas encontra instrumentos suficientes para enfrentar aquilo que o presente tem de inominável.

Nesse sentido, o “velho” em Mann deixa de ser associado à decadência ou ao esgotamento. O velho converte-se em uma posição privilegiada diante do tempo.

A modernidade revolucionária acelera o esquecimento das raízes. Mann, ao envelhecer, torna-se cada vez mais um guardião incômodo delas.

Para ele, o passado não é algo que simplesmente desaparece. O passado sempre é.

A frase contém uma concepção quase metafísica da memória: aquilo que foi vivido não se dissolve, apenas se recobre por sucessivas camadas de atualidade.

Podemos dizer que o velho carrega consigo múltiplas camadas de tempo.

Ele vive cercado por fantasmas históricos, por vozes antigas e por sensibilidades que o presente considera extintas, mas que continuam a persistir dentro dele.

Essa condição confere ao velho, e à própria velhice, uma espécie de autoridade melancólica.

Thomas Mann passa a perceber a si mesmo como um sobrevivente do século XIX, alguém que ainda transporta a memória de um mundo que a história já destruiu.

Radicalismo e sofrimento

Esse papel de carregar a memória de um mundo que a história já destruiu carrega em si um fardo. Em seus diários, Thomas Mann frequentemente expressa a sensação de ser um “fóssil vivo”, alguém deslocado em relação ao próprio tempo.

Há momentos em que sugere estar “vivendo errado”, como se habitasse uma modernidade que já não reconhece sua tradição, ou talvez tradição alguma.

Ainda assim, essa melancolia não se transforma em uma nostalgia reativa diante do mundo moderno.

O que torna Mann singular é justamente sua recusa em abandonar aquilo que se convencionou chamar de “humanismo” (esse filho secular do Cristianismo), mesmo após a devastação provocada pelas ideologias totalitárias do século XX. Em certa medida, sua formação como escritor burguês talvez tenha contribuído para afastá-lo de um tradicionalismo vulgar ou meramente ressentido.

Seu retorno ao passado não representa uma fuga da modernidade, mas uma tentativa desesperada de preservar alguma imagem da humanidade em meio às ruínas do mundo moderno.

Ele desce às camadas míticas, bíblicas, goethianas, wagnerianas não para restaurar um paraíso perdido, mas para entender como a cultura alemã (e ocidental) pôde gerar tanto brilho e tanta abominação ao mesmo tempo. Diferente de muitos intelectuais que, após Auschwitz, ou se renderam ao niilismo ou abraçaram utopias novas, Mann permanece no posto difícil: o de quem carrega a memória ferida da civilização europeia sem ilusões, mas também sem cinismo completo. Seu humanismo tardio é ferido, melancólico, consciente de sua própria precariedade e por isso mesmo mais digno.

Retirando o “mito” dos fascistas

É nesse contexto que se torna possível compreender a relação de Thomas Mann com o mito, o passado e a tradição.

Durante a ascensão do nacional-socialismo, Mann percebeu que o fascismo operava por meio daquilo que chamava de “envenenamento das narrativas míticas”.

O mito, arrancado de sua dimensão humana, transformava-se em instrumento de hipnose coletiva e dominação intelectual. O Terceiro Reich apropriava-se de símbolos antigos, genealogias heroicas e fantasias de origem para justificar a superioridade racial e a promessa delirante de um “Reich de mil anos”.

Contra essa mistificação totalitária, Mann realiza um movimento profundamente ambicioso em obras como José e Seus Irmãos (1943).

Em vez de abandonar o mito por considerá-lo perigoso, como defendiam muitos modernistas, ele tenta recuperá-lo das mãos do fascismo.

Num momento em que muitos intelectuais, especialmente à esquerda, viam o mito apenas como um resíduo reacionário a ser superado pela razão pura ou pela luta de classes, Mann insistia que abandonar esse terreno significaria entregá-lo de bandeja aos falsificadores fascistas.

A desumanização do mito e sua recuperação

O vazio produzido pela rejeição moderna ao mito tende a ser rapidamente ocupado por mitologias bárbaras, simplificadoras e politicamente destrutivas. Isso ocorre porque, como observou Mircea Eliade, nossa humanidade, nosso modo de pensar, nosso vocabulário e até nossa civilização permanecem profundamente marcados por estruturas religiosas.

O gesto de recuperar a humanidade do mito em Thomas Mann é, ao mesmo tempo, conservador e subversivo. Ele retorna às antigas narrativas não para sacralizá-las num dogmatismo secularizado, mas para devolvê-las à esfera humana, à carne (reconhecendo o espírito), ao tempo histórico (reconhecendo a eternidade), à ambiguidade psicológica e à fragilidade concreta dos indivíduos.

Assim, figuras bíblicas deixam de funcionar como arquétipos abstratos e tornam-se personagens psicologicamente densos. Por fim, se tornam pessoas reais.

Jacó sente medo, ressentimento e ciúme. José experimenta vaidade, ambição e sofrimento.

O mito é humanizado por meio de um rigor psicológico profundamente moderno. E aqui é importante fazer uma distinção: o problema, para Mann, não é a modernidade em si, mas a forma como ela frequentemente reduz a experiência humana a abstrações.

Não existe nisso nada propriamente heterodoxo, já que os próprios textos bíblicos insistem continuamente na precariedade emocional dos homens, mesmo quando tocados pelo divino. Em certo sentido, foi a própria modernidade que transformou essas figuras em arquétipos rígidos e desumanizados.

Mann compreende que a desumanização começa justamente quando o homem deixa de ser visto como pessoa e passa a ser reduzido a símbolo.

Em Thomas Mann, o divino não desaparece, mas passa a se manifestar através da própria opacidade da existência humana, exatamente como ocorre nos textos bíblicos, que jamais ocultaram a mistura de mesquinhez, medo e grandeza presente em seus eleitos. Abraão mente sobre Sara, Davi comete adultério e assassinato, Pedro nega Cristo.

Foi a modernidade, especialmente a romantização do mito no século XIX e, mais tarde, sua apropriação pelos regimes totalitários, que transformou essas narrativas em símbolos rígidos, em “forças arquetípicas” ou instrumentos de propaganda.

Mann realiza o movimento oposto. Ele retorna à concreção da experiência humana. Para ele, o mito só recupera sua vitalidade quando deixa de funcionar como símbolo abstrato e volta a existir como experiência vivida.

“Humanizar” o mito significa devolvê-lo à fragilidade concreta da condição humana. Significa torná-lo novamente real, crível, não apenas alegórico ou simbólico.

Em certo sentido, isso se aproxima da própria experiência religiosa. Como católico, eu diria que é semelhante ao gesto de olhar para a eucaristia e tentar reconhecer nela o corpo e o sangue de Cristo como presença real, e não apenas como símbolo, mesmo quando todas as evidências exteriores parecem apontar para o contrário.

 

 

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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