Publicado em 1986, Escândalo é um dos romances mais inquietantes de Shusaku Endo, escritor japonês cuja obra se distingue por articular, de forma quase única, o catolicismo a impasses profundamente enraizados na cultura japonesa.
Convertido ainda na infância, Endo construiu uma literatura marcada pela fricção constante entre fé, culpa, desejo e identidade.
Sua obra mais conhecida é Silêncio (1966), romance ambientado no Japão do século XVII, centrado na perseguição aos cristãos, e que foi adaptado para o cinema por Martin Scorsese em 2016.
Em Escândalo, Endo desloca essas questões da fé católica para um Japão moderno, urbano e secularizado. O foco deixa de ser o drama do missionário estrangeiro e passa a ser o do cristão japonês envelhecido, dividido e moralmente inquieto.
O romance acompanha Suguro, um escritor católico respeitado, já idoso, atormentado pela sensação persistente de nunca ter escrito sua obra definitiva.
Casado, pai de família e aparentemente irrepreensível em sua conduta moral, Suguro vive uma existência marcada por uma tranquilidade quase excessiva. Essa estabilidade começa a se fissurar quando surgem rumores de que alguém idêntico a ele estaria frequentando distritos de prostituição, peep shows e clubes sadomasoquistas de Tóquio.
Esse suposto impostor, ou doppelgänger, passa a ser visto por outras pessoas e associado a um universo de prostitutas e pervertidos, algo que ameaça diretamente sua imagem pública de “escritor cristão”.
Suguro, então, decide perseguir esse impostor, na tentativa de impedir que sua reputação seja manchada.
A partir desse ponto, Escândalo se organiza como uma investigação deliberadamente ambígua. Suguro estaria sendo vítima de uma armação externa ou estaria diante da materialização de uma parte de si mesmo que jamais teve coragem de reconhecer?
Shusaku Endo sustenta essa ambiguidade de forma consciente. O impostor ora aparece como uma projeção subjetiva de Suguro, ora parece possuir existência autônoma, reconhecida por terceiros, ora se confunde com o próprio Suguro.
Kobari, um jornalista literário que despreza Suguro, vê no escândalo a oportunidade perfeita para desmoralizá-lo publicamente. Sua obsessão passa a ser capturar provas fotográficas desse Suguro que frequenta os bairros da luz vermelha de Tóquio.
Esse jogo com o duplo aproxima o romance tanto da tradição gótica ocidental, como William Wilson, de Edgar Allan Poe, e O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, quanto de leituras psicológicas modernas.
O impostor funciona simultaneamente como sombra junguiana, sintoma de dissociação e espelho ético. Ele encarna tudo aquilo que Suguro reprimiu ao longo da vida: o desejo, a curiosidade sexual pervertida, a atração pelo mal, a excitação diante da transgressão e, sobretudo, a descoberta de uma vitalidade que parece ter sido sacrificada em nome de uma vida moralmente impecável.
No confronto com sua sombra, Suguro é forçado a reconhecer que a queda sempre esteve latente. O impostor, nesse sentido, não o corrompe; ele revela.
À medida que o romance avança, Suguro se aproxima de figuras femininas particularmente complexas, como Madame Naruse, voluntária em um hospital infantil durante o dia e frequentadora do submundo sadomasoquista à noite.
Há também Motoko, frequentadora assídua de clubes sadomasoquistas, cujo desejo explícito é morrer durante uma sessão de tortura sexual.
Não se trata de um livro moralista. O “escândalo”, aqui, não está no sexo, na pornografia ou na violência em si, mas no fato de que essas dimensões da experiência humana devolvem a Suguro algo que sua vida ordenada, envelhecida e moralmente estável havia neutralizado.
É nesse gesto que Escândalo atinge sua dimensão mais radical.
Shusaku Endo se recusa a oferecer ao personagem a imagem estereotipada da velhice como sabedoria pacificada, desapego sereno ou simples espera pela morte.
A velhice, em seu romance, permanece como um território de desejo, confusão moral, queda e perplexidade.
Mais ainda, é justamente na velhice que esses territórios se expandem na alma de Suguro, talvez porque o tempo, para ele, esteja se estreitando.
Ao permitir que Suguro enfrente sua própria obscuridade no fim da vida, Endo devolve à velhice aquilo que frequentemente lhe é negado: humanidade.
Uma humanidade imperfeita, escandalosa, atravessada por contradições insolúveis e sedenta por intensidade.
O romance, sobretudo em seu desfecho, também dialoga com o tema da redenção.
Em Escândalo, a redenção não se dá pela eliminação súbita do mal, mas pela disposição de reconhecê-lo como parte constitutiva do sujeito, de admiti-lo da forma mais crua e honesta possível.
Nesse sentido, o livro se inscreve numa tradição profundamente católica, próxima da confissão agostiniana, na qual a salvação não nasce da pureza, mas do confronto honesto com a própria miséria.
A velhice, para o personagem, e talvez para o próprio Endo, longe de representar o fim do drama humano, torna-se seu último e mais radical palco.
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