Existe algo particularmente interessante na filosofia do humanitismo, criada pelo personagem Quincas Borba, de Machado de Assis.
Na interpretação crítica mais consolidada, o humanitismo constitui uma caricatura dos sistemas filosóficos predominantes no século XIX, em especial o darwinismo social e o positivismo.
Machado, atento às correntes intelectuais de sua época, não se limita a reproduzi-las, mas as tensiona, sublimando-as ou expondo seus aspectos mais risíveis.
Contudo, um traço frequentemente negligenciado nessa filosofia é o seu caráter quase religioso. No centro do humanitismo encontra-se o Humanitas, concebia como uma “entidade” ou princípio abstrato que atravessa e organiza todos os seres.
Cada indivíduo é concebido como um instrumento dessa “força universal”, desempenhando um papel necessário dentro de um “propósito maior”, no qual bem e mal, vida e morte, vitória e derrota se articulam em um mesmo plano.
Nesse horizonte, ganha sentido a célebre máxima de Quincas Borba: “ao vencedor, as batatas”.
À primeira vista, a frase pode parecer mera reprodução do determinismo darwinista. Contudo, no interior da filosofia formulada por Quincas Borba, ela adquire uma coloração mística. O derrotado não é simplesmente eliminado ou reduzido ao nada; ao contrário, é incorporado a uma ordem mais ampla, que legitima simultaneamente a vitória do outro. Vencedor e vencido, nesse esquema, não existem como opostos absolutos, mas como expressões complementares de um mesmo princípio: o Humanitas.
O próprio Quincas Borba define esse princípio nos seguintes termos:
“Humanitas é o princípio. Há nas coisas todas certa substância recôndita e idêntica, um princípio único, universal, eterno, comum, indivisível e indestrutível — ou, para usar a linguagem do grande Camões:
Uma verdade que nas cousas anda,
Que mora no visíbil e invisíbil.Pois essa substância ou verdade, esse princípio indestrutível, é que é Humanitas. Assim lhe chamo, porque resume o universo, e o universo é o homem.”
Essa formulação aproxima o humanitismo de tradições místicas e religiosas. A noção de um princípio que reconcilia contrários evoca a coincidentia oppositorum, conceito elaborado por Nicolau de Cusa no século XV, no qual Deus é compreendido como o ponto de convergência entre unidade e multiplicidade, finito e infinito. Analogamente, em tradições indianas, o samādhi é descrito como a dissolução da dualidade sujeito–objeto, retorno a uma plenitude anterior à cisão ontológica — experiência que ecoa o próprio sentido etimológico de religio, isto é, o ato de religar.
No humanitismo, algo análogo ocorre. Ao reconhecer que opostos aparentemente inconciliáveis cumprem uma mesma finalidade — a integração no Humanitas —, o discípulo se vê livre do peso da tragédia e da dor. O sofrimento é negado ou sublimado por uma espécie de otimismo cósmico, no qual mesmo os infortúnios mais brutais se tornam manifestações de uma ordem necessária.
O exemplo mais emblemático é o relato de Quincas Borba sobre a morte da avó, atropelada por mulas e uma sege. Em vez de interpretá-la como tragédia, ele a compreende como cumprimento de um desígnio do Humanitas: a colisão entre sege, mulas e avó não é acaso, mas tentativa de união primordial de sege-mulas-vó, uma recomposição de uma totalidade perdida.
Daí sua conclusão:
“Não há morte. O encontro de duas expansões, ou expansão de duas formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas rigorosamente, não há morte, há vida, porque a supressão de uma é a condição da sobrevivência de outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum.”
Com isso, Machado realiza uma crítica multifacetada. Ridiculariza o naturalismo religioso — herdeiro neopagão de perspectivas iluministas que buscavam conferir significado e propósito à natureza —, ironiza os pressupostos do darwinismo social e do positivismo. E, ao fazê-lo, mobiliza discretamente uma sensibilidade de matriz agostiniana, perceptível já em Memórias Póstumas de Brás Cubas, e aqui reforçada no sarcasmo dirigido a esse “paganismo acidental” do humanitismo.
Assim, a filosofia inventada por Quincas Borba, que nasce sob a aparência de sistema autônomo e totalizante, é simultaneamente desmontada e reduzida a objeto de chacota por meio de uma paródia que revela, no fundo, uma perspectiva catequética.
