Pessoalmente, vejo Born Again não apenas como um ponto alto dentro da discografia do Black Sabbath (para mim, o melhor disco da banda desde Sabotage), mas também como uma das obras mais singulares da história da música pesada.
O álbum reúne a formação instrumental clássica do Sabbath, com Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward, e apresenta a voz de Ian Gillan, conhecido pelo trabalho no Deep Purple.
O que parecia uma combinação improvável revelou-se, na verdade, uma química que nunca mais se repetiu e provavelmente nunca mais se repetirá. O Sabbath combinou, de forma quase alquímica, o peso sombrio e a densidade características de seu som com a teatralidade, a energia e a potência de Gillan. Se algum disco pode, sem exageros, ser chamado de “obra-prima” no sentido mais rigoroso do termo, esse disco é Born Again.
Mesmo sendo singular e querido pelos fãs, o álbum ainda não tem o reconhecimento que merece. Persistem duas trincheiras críticas: a produção e a capa.
Não sou técnico de som nem ilustrador, e não me considero apto a discutir aspectos estritamente técnicos de mixagem ou composição gráfica. Mas tenho um bom entendimento de estética, história da arte e design, e é com base nisso que quero mostrar por que, no fundo, você não gostaria que Born Again soasse mais “limpo” ou tivesse uma capa diferente. Mesmo sem perceber, você sabe que não quer que ele seja outro disco.
A crítica mais recorrente a Born Again, feita tanto por fãs quanto pelos próprios membros do Black Sabbath, recai sobre a mixagem. O álbum é frequentemente descrito como abafado, desequilibrado, quase tosco em certos momentos. Tony Iommi revelou mais tarde a causa do problema: um dos alto-falantes do estúdio queimou durante as gravações, e ninguém percebeu a tempo de corrigir o erro antes da versão final.
Curiosamente, esse defeito acabou se tornando um dos traços mais marcantes do disco. É como se a força da banda excedesse a capacidade dos equipamentos. O som de Born Again parece lutar contra as paredes do estúdio, forçando os limites do registro analógico. É uma música que não cabe no espaço físico que tenta contê-la. Essa imperfeição técnica, em vez de diluir a potência do álbum, a intensifica: Born Again soa como combustão sonora, uma energia que não pode ser domesticada. O ruído, o excesso e o desequilíbrio tornam-se parte da expressão.
Não é desleixo, é acidente. E o “glitch” — o erro, a falha, o ruído — tornou-se um princípio estético, não apenas no Heavy Metal, mas em várias outras linguagens artísticas.
O glitch, entendido como falha no sistema (seja técnico, estético ou simbólico), fascina porque revela a estrutura oculta das coisas. Ele mostra o que normalmente fica escondido sob a superfície do funcionamento perfeito.
Na arte, o erro é interessante porque interrompe o fluxo do previsível. Quando uma imagem falha, quando o som distorce, quando algo sai do controle, o espectador é forçado a olhar de novo. O glitch expõe o mecanismo: o ruído digital mostra os pixels, a gravação saturada mostra o excesso, a pintura mal recortada mostra a matéria. O erro denuncia a ilusão da perfeição técnica e, por isso, se torna uma forma de verdade.
Do ponto de vista simbólico, o glitch representa a perda momentânea do controle, o instante em que o sistema não obedece à intenção do criador. E é justamente aí que algo vivo acontece. Quando um software falha, quando uma fita magnética distorce, quando a cor “vaza”, abre-se uma brecha de imprevisibilidade, uma zona de acaso criativo.
Na arte, isso é precioso, porque o controle total tende à esterilidade. A falha devolve mistério e risco à obra.
Você gosta de Born Again porque ele é falho. E o entende como verdadeiro.
Outra crítica recorrente recai sobre a capa, que mostra um bebê demoníaco estilizado pelo designer Steve Joule.
Na imagem, vemos um bebê de pele vermelha, com garras amarelas e presas afiadas, sobre um fundo azul intenso.
O contraste entre as cores é extremo e quase agressivo: o vermelho saturado parece irradiar calor e desconforto, enquanto o azul cria uma oposição fria e artificial, intensificando o choque visual.
Essa capa é tida, injustamente, como uma das piores da história do Rock e do Metal. O próprio Ian Gillan brincou dizendo que vomitou ao vê-la pela primeira vez.
Mas, mais uma vez, eu discordo e defendo.
Diferente da capa de Dance of Death, do Iron Maiden, marcada por desleixo evidente, a de Born Again é maravilhosa. Para mim, uma das melhores capas da história do Heavy Metal.
Steve Joule, que mais tarde disse ter criado a arte “para não ser aprovada” (algo em que, como designer, não acredito nem um pouco), dialoga com várias escolas estéticas ao mesmo tempo.
Há nela a estética da colagem punk amalgamada à pop art, tanto na construção visual quanto na lógica de choque e ironia que a sustenta.
A imagem central do bebê demoníaco foi baseada em uma fotocópia em preto e branco de uma fotografia publicada em uma revista de 1968. Curiosamente, a mesma foto de arquivo foi usada em 1981 na capa do single New Life, do Depeche Mode.
Born Again evoca tanto Jamie Reid, artista dos Sex Pistols, quanto Andy Warhol, na ideia de apropriação, subversão e ressignificação da imagem.
A manipulação exagerada das cores primárias (vermelho, azul e amarelo) e sua aplicação sem transições tonais ev0cam uma estranheza proposital. A falta de sutileza é deliberada, mesmo que inconsciente. A imagem parece mal recortada, mal colorida, quase artesanal, como se fosse um cartaz colado às pressas em um muro. Esse aspecto tosco e direto expressa a “recusa punk” à sofisticação visual.
O vermelho do bebê e o azul do fundo são anticomplementares e produzem um choque retiniano que impede qualquer leitura naturalista. O olhar é agredido, forçado a encarar o artifício da imagem.
O bebê de Born Again segue exatamente essa lógica. Sua origem é banal, uma fotografia promocional de um bebê, mas ela é deformada e repintada até se tornar um símbolo de aspecto demoníaco.
O processo de Joule repete o gesto pop de transformar o ordinário em espetáculo, mas invertendo seu valor: o que antes era ídolo publicitário torna-se um ídolo profano, estampando um disco de Heavy Metal.
Em suma, sempre achei que Born Again merecia uma defesa estética. Fiz aqui a minha parte. Missão cumprida.
