Cure, de Kiyoshi Kurosawa, é, sem dúvida, um dos melhores filmes de terror psicológico que já vi na vida.
A história acompanha um detetive chamado Takabe, que investiga uma série de assassinatos misteriosos nos quais um “X” é sempre encontrado no pescoço das vítimas.
O que inicialmente parece indicar a atuação de um assassino em série logo se revela um falso indício, pois todos os crimes são cometidos por pessoas diferentes. O mais estranho é que esses assassinos são pessoas comuns, sem antecedentes criminais ou histórico de comportamento violento.
Elas mesmas confessam os crimes, horrorizadas, sem conseguir se lembrar dos motivos que as levaram a cometer tais atos.
Ao longo do filme, descobre-se que essas pessoas estão sendo manipuladas por um jovem chamado Mamiya — um sujeito franzino que aparenta sofrer de amnésia e dificuldades de comunicação.
Contudo, quando consegue ficar a sós com alguém, Mamiya revela-se um manipulador excepcional, quase um “hacker” de mentes. Por meio de hipnose e sugestões sutis, ele induz outras pessoas a cometerem os assassinatos.
O filme é intrigante nos detalhes. A tensão é constante; você assiste com atenção redobrada, quase paranoica, analisando cada movimento, suspeitando de todos os gestos como possíveis gatilhos de um terrorismo psíquico silencioso.
Os acontecimentos são genuinamente imprevisíveis. Os assassinatos ocorrem de forma inesperada e repentina, quase como se fossem banais. O impacto da violência é amplificado justamente por essa atmosfera de trivialidade.
As sugestões psíquicas do antagonista são ao mesmo tempo convincentes e assustadoras. Mesmo quando a técnica se repete e se torna previsível, isso não diminui sua força — ao contrário, passa a evocar em nós gatilhos inquietantes.
Tudo isso é conduzido com maestria pela direção precisa, pelo enquadramento sugestivo — que constantemente divide a atenção entre primeiro e segundo plano —, pelo uso inteligente de sombras e pelos diálogos, especialmente os do antagonista. Mamiya parece sempre simular amnésia para tomar o controle das conversas, sendo ele quem pergunta, conduz e, de forma maliciosa, insinua.
Kiyoshi Kurosawa (sem parentesco com Akira Kurosawa) é conhecido por thrillers e filmes de terror contidos, nos quais mantém uma distância emocional dos eventos enquanto intensifica seus efeitos. Ele usa recursos hipnóticos como câmeras estáticas que nos transformam de simples espectadores em observadores ocultos — como se estivéssemos ali, à espreita, presenciando tudo. Com isso, valoriza de forma magistral um senso fleumático e quase palpável de realidade. Uma verdadeira aula de como se faz suspense.
Além disso, o protagonista, Takabe, carrega um drama psicológico profundo e muito bem elaborado. Ele está constantemente à beira de um colapso mental, pressionado pelo estresse da profissão e pela responsabilidade de cuidar da esposa, que aparentemente sofre de demência.
Kurosawa utiliza elementos cênicos para reforçar esse estado mental. Um exemplo marcante é o som da máquina de lavar, que está sempre ligada — funcionando ininterruptamente, mas sem nenhuma roupa dentro. Um detalhe simples, mas carregado de simbolismo sobre o vazio, a repetição e a degradação mental.
O esgotamento psicológico de Takabe complementa o mesmerismo de Mamiya, fazendo do filme uma exposição sombria e impactante da inconsciência, das ações involuntárias, da manipulação psíquica e, em última instância, da relatividade do livre-arbítrio.
Para exemplificar como a violência é intensificada pelo contraste com a apatia dos personagens que a cometem, selecionei esta cena do filme. Assista e tire suas próprias conclusões: