O grande folclorista brasileiro Luís da Câmara Cascudo, em sua obra Aves e Pássaros no Folclore Brasileiro, registrou diversas crenças populares envolvendo o bacurau, uma ave noturna e insetívora bastante conhecida no Nordeste brasileiro.
De hábitos discretos e aparência misteriosa, o bacurau ocupa um lugar peculiar no imaginário popular. Seus hábitos noturnos, seus olhos que brilham sob a luz e sua presença em estradas desertas alimentaram superstições relacionadas à verdade, à cura e à proteção dos viajantes.
Uma expressão popular associada a essas crenças diz: “É dizendo e bacurau escrevendo”.
Quando alguém faz uma afirmação e acrescenta essa frase, é como se convocasse o bacurau para registrar suas palavras. A ave atua como uma testemunha que anota o que foi dito e confirma sua veracidade, tornando a declaração incontestável.
Segundo Cascudo, a expressão remete a uma antiga lenda indígena ou cabocla, da qual restaram poucos detalhes. A tradição popular, porém, preservou a imagem central dessa narrativa: o bacurau como uma espécie de tabelião místico, encarregado de registrar as palavras dos homens e levá-las ao céu.
O que se diz, a ave escreve. E aquilo que ela escreve não pode mais ser desfeito.
Essa autoridade sobrenatural talvez encontre sua explicação na própria natureza do animal. Senhor da noite, capaz de se orientar na escuridão e habituado a percorrer caminhos desertos, o bacurau foi associado a poderes que escapam à compreensão ordinária. No universo das crenças populares, não era apenas uma ave que aparecia depois do anoitecer, mas uma criatura capaz de transitar entre o mundo visível e o oculto.
Essa reputação também se manifestava nas propriedades mágicas atribuídas às suas penas. No interior do Brasil, acreditava-se que colocar algumas penas da asa do bacurau entre a sela e a manta de um cavalo garantia uma viagem segura. O amuleto protegeria o animal contra quedas e tropeços, dando-lhe a agilidade necessária para atravessar terrenos acidentados, desviar de buracos e enfrentar caminhos difíceis. Também impediria que a montaria se assustasse ou refugasse diante de rios cheios e passagens perigosas durante a noite.
As penas do bacurau possuíam ainda outra serventia no repertório das simpatias populares: a cura da dor. Guardar uma pena ou encostá-la diretamente na bochecha era uma prática utilizada para aliviar a dor de dente e outros sofrimentos agudos. A ave, que dominava a escuridão e se movia silenciosa e quase invisivelmente pela noite, emprestava às suas penas a capacidade simbólica de silenciar aquilo que afligia o corpo.
O bacurau aparece, assim, como uma espécie de guardião daquilo que escapa à visão humana (cegada pela “noite”), mas cuja presença se faz sentir: a palavra empenhada, os perigos da estrada e as ameaças à integridade do corpo.