A Perversão do Sacrifício em Le Dîner des bustes (de Gaston Leroux)

Como Gaston Leroux radicaliza seus temas clássicos ao transformar o ideal sacrificial em perversão dionisíaca e o corpo humano em objeto consumível

Le Dîner des bustes (O Jantar dos Bustos) é um conto de terror do escritor e jornalista francês Gaston Leroux, o mesmo autor de O Fantasma da Ópera, publicado originalmente em formato de folhetim em 1911.

A narrativa é conduzida por um homem que se reúne com frequência com um grupo de capitães de navio aposentados, todos aficionados por relatar histórias assustadoras vividas no mar. A única exceção é o Capitão Michel Alban, que participa silenciosamente dos encontros e chama atenção por ter apenas um braço.

Quando finalmente é pressionado a contar sua própria “história apavorante” e explicar como perdeu o braço, o Capitão Alban revela um episódio horripilante de seu passado.

Anos antes, após um naufrágio no Extremo Oriente, alguns sobreviventes ficaram à deriva em uma jangada improvisada, sem provisões. Com o avanço da fome, decidiram realizar um sorteio para determinar quem seria sacrificado e servido como alimento, garantindo a sobrevivência dos demais.

Um dos sobreviventes, um médico, propôs então um acordo. Em vez de matar e consumir uma pessoa inteira, eles amputariam um membro por vez do escolhido. O sorteio recaiu sobre a Srta. Madge, mas o capitão do navio, antigo amigo de Alban, ofereceu-se para ocupar seu lugar, tanto por cavalheirismo quanto por considerá-la excepcionalmente bela.

O médico revelou-se extremamente habilidoso, conseguindo retirar os membros sem causar a morte do paciente. Aos poucos, foram consumidos seus membros inferiores e superiores. Em seguida, o próprio capitão passou a oferecer os cotos restantes, até restar apenas um tronco: um busto.

Embora os sobreviventes tenham sido eventualmente resgatados, a experiência deixou marcas profundas. Eles desenvolveram um gosto duradouro por carne humana e passaram a se reunir anualmente para repetir o ritual, consumindo os próprios membros em um banquete organizado todos os anos.

Michel Alban relata como acabou descobrindo a existência dessa celebração. A Srta. Madge havia se mudado para perto de sua casa, despertando sua curiosidade tanto por sua beleza quanto pelo hábito de aparentar conversar sozinha. Foi então que Alban percebeu que seu antigo amigo vivia ali e recebia convidados para um banquete anual.

Intrigado por não ser convidado e por nunca ver o anfitrião em público, já que apenas “amigos excepcionais” participavam da reunião, Alban decide invadir a festa. Para sua surpresa, é recebido com entusiasmo.

Nesse momento, descobre a verdade: seus antigos companheiros vivem isolados em uma vila e são todos amputados, homens sem pernas ou braços, chamados entre si de “bustos”. Eles se reúnem anualmente para, tanto quanto possível, renovar seu banquete abominável.

Convidado a participar de um desses jantares, Alban sofre uma reviravolta final e aterradora. Sob efeito de clorofórmio, é atacado pelos convivas, que amputam seu outro braço para servi-lo como prato principal do banquete canibal daquela noite.

A obra dialoga diretamente com temas recorrentes em Gaston Leroux, como a desfiguração, o isolamento e a adoração pela beleza feminina. É possível afirmar que, nesse conto, é justamente a beleza que “salva” a Srta. Madge, preservando sua integridade corporal. Esses mesmos motivos atravessam também O Fantasma da Ópera.

No entanto, Le Dîner des bustes é consideravelmente mais brutal e muito menos poético ou romântico do que o romance mais conhecido de Leroux. Aqui, o estatuto de humanidade daqueles que consentem em ser consumidos se dissolve: ao se oferecerem como alimento, eles deixam de ser plenamente humanos e passam a ocupar uma zona abjeta, uma condição de ab-humanidade.

Tudo na narrativa se converte em perversão. Até mesmo o gesto sacrificial do capitão, que se oferece para ser consumido a fim de garantir a sobrevivência dos outros e preservar a beleza de Madge, carrega inicialmente um potencial simbólico forte, quase cristão, próximo da ideia de sacrifício redentor. Contudo, esse gesto é rapidamente esvaziado e invertido, transformando-se em obsessão, em uma forma de glutonaria macabra e repetitiva.

A dependência da carne humana sugere não apenas necessidade, mas compulsão, atravessada por um erotismo difuso e perturbador. Trata-se de um impulso dionisíaco em sua forma mais violenta e degradada, desvinculado de qualquer dimensão de comunhão ou transcendência.

Por fim, o corpo reduzido à condição de busto torna-se um símbolo extremo: algo inerte, decorativo, privado de agência e mobilidade, destinado unicamente ao consumo. É a imagem final da degradação completa do humano em objeto.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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