No desenrolar do romance Quincas Borba, encontramos mais uma incursão de Machado de Assis no tema do adultério e da chamada “talaricagem”. Quando percebi que dois dos personagens centrais, Rubião e Sofia (esposa de outro), começavam a construir uma intimidade que ultrapassava a cortesia formal, confesso que não me surpreendi.
O espírito brasileiro, delineado com precisão por Machado, é profundamente ibérico. Não se trata de afirmar que o adultério seja fruto de uma herança cultural direta, mas sim de reconhecer que, em sua literatura, o autor mobiliza um imaginário carregado de símbolos.
Como já mencionei em outros artigos, Portugal e Espanha ocupam uma posição limítrofe: são territórios mediterrâneos situados entre a Europa e o “não-Europa”, marcados por conflitos de identidade e imagens opostas — entre terra e mar, entre ser e não ser europeu. Sérgio Buarque de Holanda observa que esse traço ibérico se caracteriza por tensões permanentes: estabilidade e aventura, estima pela ordem e desejo de anarquia.
Nesse imaginário, o casamento é simultaneamente venerado e visto como prisão — um contrato formal não muito distinto de uma apólice. É a partir desse ponto de tensão que Machado de Assis dialoga com autores como Camilo Castelo Branco, em Amor de Perdição, e Fernando de Rojas, em La Celestina.
Outros escritores ibéricos — Eça de Queirós, Calderón de la Barca, Benito Pérez Galdós e Leopoldo Alas “Clarín” — também exploraram essas ambiguidades. Importa destacar que não havia, entre eles, um impulso revolucionário: não se tratava de abolir o casamento, mas de conciliá-lo com o ideal da aventura. O espírito ibérico é, nesse sentido, contraditório: navegante e colonizador, movido tanto pelo ímpeto da conquista quanto pela necessidade de se fixar. Deseja ardentemente ambas as coisas, mas ignora que, no mundo real, elas raramente coexistem. Por isso, transgride normas sem desejar viver em um universo no qual elas simplesmente não existam.
No caso de Machado, a presença da herança agostiniana dá ao conflito contornos ainda mais interessantes, pois introduz a dimensão da confissão e da norma moral. Santo Agostinho descreve três estágios do pecado: a concupiscência da carne, a contemplação e o consentimento da vontade.
Os personagens odeiam o pecado, mas amam as condições que o favorecem, oscilando entre concupiscência e contemplação até que, finalmente — e fatalmente — acabam cedendo à transgressão. Em Quincas Borba, porém, não há consumação. Esse não desfecho, paradoxalmente, é ainda mais problemático, pois a ambiguidade de Sofia, com suas delicadezas insinuantes, alimentava as esperanças de Rubião — esperanças que se converteram em loucura.
Rubião passa a visitar com frequência a casa de Cristiano Palha, marido de Sofia, sob o pretexto da cortesia. Nessas ocasiões, busca olhares cúmplices, circula pelo espaço e tenta encontrar momentos de intimidade com a esposa do amigo. Sofia, por sua vez, não o repele. Aceita o flerte sob a desculpa de não ser indelicada, mas carrega em si mesma contradições: fidelidade e cálculo, afeto e conveniência. É nesse terreno intermediário, feito de ambiguidades e tensões, que o romance se edifica.
Em suma, Quincas Borba não narra apenas um triângulo amoroso mal resolvido, mas trata de uma condição mais ampla: a forma como a cultura ibérica concebe o desejo, o contrato social e a tensão entre norma e transgressão. Ao reelaborar esse imaginário, Machado não se limita a retratar um adultério frustrado; ele transforma a própria hesitação entre o flerte e a consumação em matéria literária. O que parece ausência de desfecho é, na verdade, a revelação de que o drama humano não reside no ato em si, mas na expectativa, no cálculo, na contradição íntima que move Rubião e Sofia. Assim, Machado oferece ao leitor não apenas um retrato psicológico, mas também um espelho da herança ibérica que molda o espírito brasileiro.