Ipu-Wer e os vilipêndios das Necrópolis

Cada região tem sua própria maneira de perceber sua decadência. As sociedades greco-romanas em seus tempos de declínio podem ser resumidas como “semen e sangue”, ou seja, eram caracterizadas pela libertinagem sexual e violência pública.

No Egito, a decadência foi percebida pelo profeta Ipu-Wer através do vilipêndio dos túmulos ancestrais.

Durante o período em que o país enfrentava uma guerra civil e se dividiu brevemente em dois reinos (Heracleópolis e Tebas), a decadência só foi notada quando os combates alcançaram as necrópoles.

Os egípcios podem tolerar tudo, exceto o desprezo pelos mortos.

A canção dos harpistas, um tipo de texto literário cantado em contextos funerários por harpistas cegos, adicionou versos que refletiam o estado desolador “dos deuses que repousam nas pirâmides, e também dos mortos beatificados, que não encontram mais suas casas”.

A destruição das necrópoles no Egito era a ruína de suas instituições. Apunhalar o faraó era menos grave do que violar seu túmulo.

Ipu-Wer

Ipu-Wer era conhecido como um profeta audacioso, heliopolitano e solar. Ele costumava censurar os faraós (chamava-os de fracos e indolentes) e desprezava a “decadência anúbica” da religião egípicia, que fez com que todo governante se sentisse também um grande sacerdote.

Os faraós, mesmo ofendidos, nunca atentaram contra sua vida. Eles o respeitavam pelo seu carisma e pelos ensinamentos diretos e sábios. Desde a “revolução anúbica” dentro da religião egípcia, isso nunca tinha acontecido antes.

Em seus papiros, há menções muito curiosas que rimam com o livro do Êxodo da Bíblia, especialmente a fuga dos escravos e as pragas.

O problema desses papiros é que, por questões que eu não sei explicar, não se sabe a datação exata destes paprios, que varia, ao longo de seis séculos.

O último espectro de datas, em seu limite, pode se alinhar com os eventos acontecidos no Êxodo – e podemos supor que Ipu-Wer e Moisés viveram na mesma época e até mesmo se conheceram.

Ipu-Wer e Moisés poderiam ter se encontrado numa taverna, tomado cerveja juntos, enquanto duelavam discussões teológicas e políticas sobre a decadência do Egito. Uma imagem maravilhosa que poderia ser ficcionalizada por Neil Gaiman.

Obs: essa imagem é onde ficava a grande taverna de Lagash, hoje no sul do Iraque. O lugar era equipado com bancos, mesas, fornos de barro, potes para guardar restos de comida e um zeer, antigo pote de barro equivalente a uma geladeira para manter os alimentos frescos.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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