“Cologne”, álbum de estreia de Kaoru Akimoto, lançado em 1986, é um daqueles discos que parecem existir à margem, circulando mais entre ouvintes atentos do que no repertório mais evidente da música pop japonesa.

Na primeira audição, o que mais me chamou atenção foi a qualidade da produção e a segurança das composições. É um trabalho muito marcado pela estética dos anos 1980, com tudo o que isso implica em termos de timbre e arranjo, mas que hoje carrega um apelo nostálgico que não soa forçado.

Ainda assim, o disco não se esgota nessa dimensão. Em alguns momentos, há passagens que sugerem aproximações com a música clássica e com elementos da tradição japonesa, inseridas de maneira discreta, sem quebrar a unidade do conjunto. Também não me parece um simples reflexo da música pop americana, embora a influência esteja ali, de forma evidente.

A presença de Kaoru Akimoto conduz o álbum com uma sobriedade que, em certos momentos, me lembra uma versão mais contida de Cyndi Lauper. Não há excesso; tudo parece mais controlado, mais interno.

O disco se estrutura sobre sintetizadores bem marcados, melodias diretas e um ritmo frequentemente dançante. Mesmo assim, o que mais me fica é uma sensação de melancolia contida, como se houvesse sempre algo não dito atravessando as músicas. Essa impressão, para mim, dialoga com um traço mais amplo da música popular japonesa do pós-guerra.

Há também uma questão que me ocorre ao ouvir o álbum: a centralidade das vozes femininas nesse contexto e a forma como certas performances parecem carregar uma tradição de contenção emocional, quase como um gesto herdado. Não é algo explícito, mas me parece sugerido ao longo do disco.

A capa reforça essa leitura. O close do rosto de Kaoru Akimoto, com maquiagem cuidadosa e expressão triste, sintetiza bem essa tensão entre aparência e interioridade.

No conjunto, é um disco que me parece coeso e, ao mesmo tempo, discreto. Entre as faixas, as que mais me marcaram foram “Narushisuto”, “Dress Down”, “Puzzle” — que considero o ponto mais forte — e “Wagamamana Haihīru”.

Gostou do conteúdo?

Ajude o Taverna do Lugar Nenhum com qualquer valor.

Newsletter

Recomendado

Jazz no Japão: A História das Jazz Kissa e o Legado do Shinjuku Pit Inn
Tokyo Idols

Podcast Recente

Rolar para cima