Missa do Galo, de Machado de Assis

Missa do Galo é um conto de Machado de Assis publicado originalmente na revista A Semana, em 1894, e incluído no livro Páginas Recolhidas, de 1899.

Como observa Ariel Engel Pesso em sua análise do conto, Missa do Galo segue a fórmula do conto moderno, inaugurada por Edgar Allan Poe, na qual se destacam a brevidade e a presença de algo que permanece nas entrelinhas. Em Machado, esse elemento oculto ganha especial importância: o que não é dito, o que não se esclarece e, sobretudo, o que quase acontece são fundamentais para a construção da narrativa.

O conto aborda temas recorrentes na obra machadiana, como a ambiguidade, a dissimulação e os desejos ocultos. Essas características costumam ser associadas à fase realista do autor, embora a classificação de Machado de Assis como escritor estritamente realista seja controversa.

A história se passa no Rio de Janeiro, na véspera de Natal de 1861 ou 1862. O narrador, Nogueira, relembra um episódio de sua juventude, quando tinha 17 anos e estava hospedado na casa de Meneses, um escrivão que traía abertamente a esposa, Conceição, de 30 anos. Para encontrar a amante, Meneses costumava alegar que iria ao teatro.

Naquela noite, enquanto aguardava o horário da Missa do Galo, Nogueira decide ficar acordado na sala, lendo o romance Os Três Mosqueteiros. Perto da meia-noite, Conceição aparece vestindo um roupão branco e começa a conversar com o rapaz. O diálogo, inicialmente banal, passa por assuntos como livros, lembranças do passado e pinturas.

Aos poucos, a conversa adquire um caráter mais íntimo. Conceição alterna olhares prolongados, tons de voz baixos e gestos que fascinam Nogueira, criando uma atmosfera de sedução velada. O jovem, porém, não compreende inteiramente o significado daquela aproximação, ou pelo menos é assim que se recorda do episódio anos mais tarde.

O encontro é interrompido quando um amigo de Nogueira bate à janela para chamá-lo à Missa do Galo. O rapaz segue para a igreja, mas continua pensando em Conceição durante a cerimônia. Na manhã seguinte, ela se comporta com naturalidade e distância, como se nada de especial tivesse acontecido. Tempos depois, Meneses morre, e Conceição se casa com o escrevente do falecido marido.

É importante considerar que Nogueira narra esses acontecimentos muitos anos depois, já adulto e supostamente mais capaz de compreender os sinais que, na juventude, não soube interpretar. Ainda assim, estamos diante de um narrador cuja versão dos fatos merece cautela, como acontece com frequência na obra machadiana. Toda a história depende de suas lembranças, de sua interpretação dos gestos de Conceição e da maneira como escolhe reconstruir aquela noite. Não temos acesso direto aos pensamentos da personagem, o que torna impossível determinar com certeza suas intenções.

Retomando a análise de Ariel Engel Pesso, tão importante quanto aquilo que acontece no conto é aquilo que não acontece. Ou, mais precisamente, aquilo que poderia ter acontecido. Machado de Assis constrói a narrativa em torno dessa possibilidade, mantendo o leitor suspenso entre a suspeita de uma sedução e a impossibilidade de confirmá-la. O desejo não precisa se consumar para adquirir força. Pelo contrário, é justamente a ausência de uma conclusão que permite à imaginação preencher as lacunas.

É nesse sentido que o quase se torna central. A conversa entre Nogueira e Conceição não se transforma em uma declaração amorosa, em um beijo ou em qualquer gesto inequívoco de intimidade. Nada disso acontece. Há apenas olhares, aproximações, silêncios e palavras cujo significado permanece em aberto. O conto se sustenta nesse intervalo entre a intenção e o ato, entre o desejo e sua realização. A tensão nasce daquilo que parece prestes a acontecer, mas não chega a se concretizar.

Essa suspensão ganha uma dimensão particular por causa do contexto religioso. Toda a cena se desenrola na véspera de Natal, às portas da celebração do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. A santidade não funciona apenas como pano de fundo ou contraponto moral ao desejo dos personagens. Ela invade o ambiente e interfere diretamente no encontro. A Missa do Galo, que deveria representar uma celebração distante, irrompe na intimidade dos dois por meio do chamado feito à janela.

Há algo de especialmente significativo nessa imagem. A janela, que separa o espaço doméstico do mundo exterior, torna-se o ponto de entrada de uma convocação religiosa que interrompe a conversa e obriga Nogueira a abandonar aquele ambiente de intimidade. O chamado à missa traz consigo a presença do sagrado, constrangendo aquilo que poderia estar se formando entre os personagens. É como se a santidade, até então mantida fora da sala, atravessasse a fronteira entre o público e o privado para interromper a aproximação.

Nesse cenário, a tensão não se resume à oposição entre pecado e virtude. Ela também se manifesta no conflito entre diferentes impulsos. De um lado, há a ingenuidade de Nogueira, sua curiosidade e seu crescente fascínio por Conceição. De outro, há uma mulher cuja posição é ambígua: ela é apresentada como religiosa, mas vive em um casamento marcado pela infidelidade do marido. Sua aproximação do rapaz pode sugerir desejo, carência, ressentimento ou até uma tentativa inconsciente de recuperar a atenção que lhe é negada. A possibilidade de vingança contra o marido traidor também paira sobre a cena, embora o texto não permita afirmar que essa seja sua intenção.

A santidade que bate à janela, portanto, não interrompe apenas uma conversa. Ela interrompe uma possibilidade, impedindo que o encontro avance a ponto de revelar sua verdadeira natureza. Se havia desejo, ele permanece sem confirmação. Se havia intenção de transgressão, ela não chega a se manifestar plenamente. O chamado religioso preserva a ambiguidade, deixando os personagens, e o leitor, diante daquilo que poderia ter sido.

Enquanto o mundo cristão se prepara para celebrar o nascimento de Jesus Cristo, dois personagens permanecem à margem de uma possível transgressão moral. Mas Machado não precisa mostrar a consumação do desejo, nem sequer esclarecer se ele existiu da maneira como Nogueira o recorda. Basta construir a expectativa e interrompê-la no momento oportuno.

Em Missa do Galo, o sagrado e o profano se encontram na soleira de uma porta, e o que há de mais perturbador não é o pecado cometido, mas aquele que talvez pudesse ter sido cometido. A força do conto está nesse espaço indefinido entre o acontecimento e sua possibilidade. Machado de Assis transforma o quase em matéria literária e demonstra que, às vezes, aquilo que não acontece pode dizer muito mais sobre os personagens do que qualquer gesto consumado.

Abaixo: A Missa do Galo de Nelson Pereiria dos Santos (1982)
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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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