“Paperback Writer”, dos Beatles, é uma música surpreendentemente interessante.
Ela conta a história de um escritor que sonha em ser publicado.
Toda a canção é, na verdade, uma súplica dirigida a uma editora — ou talvez a um jornal.
O curioso é que o narrador não pede fama, dinheiro nem reconhecimento: ele quer apenas que publiquem seu livro.
Em um dos versos, chega a afirmar que não deseja sequer ficar com os direitos da obra. Para convencer o editor, oferece tudo: se o livro fizer sucesso, ele pode ficar com todo o lucro.
Esse escritor não busca prestígio literário, tampouco acredita que sua história tenha um valor excepcional.
Ele está disposto a ceder tudo — o nome, o título, até o conteúdo. Se o editor quiser mudar a história inteira, que mude. O importante é que o livro seja publicado.
Segundo a música, o manuscrito tem mil páginas — extenso demais para um livro de bolso. Ainda assim, o autor aceita qualquer corte: pela metade, em dois terços, o quanto for preciso. Ele só quer ver seu texto impresso.
Não é pela glória, nem pela mensagem, nem pelo ego. É apenas pelo ato da publicação.
O narrador de “Paperback Writer” renuncia a tudo o que tradicionalmente dá sentido à criação artística: autoria, controle, verdade, expressão pessoal.
Ele permite que sua obra seja distorcida, mutilada, reduzida — contanto que exista.
O que ele busca não é um lugar no mercado, mas no mundo — de alguma forma, ainda que imperfeita.
Seu pedido é menos econômico que metafísico: deixe-me ser percebido ainda que ninguém perceba.
Há, nesse gesto, uma melancolia niilista (ou talvez o contrário, sei lá).
O autor abre mão da integridade da própria criação em troca de uma forma mínima de existência.
Seu livro, sem identidade, transforma-se em algo indistinto dos demais — apenas mais um entre tantos — mas existe. E isso basta.
Paul McCartney, compositor da música, cria um personagem que não deseja ser ouvido, mas teme o silêncio absoluto.
Em última instância, o escritor de “Paperback Writer” encarna a condição humana diante da necessidade pura de existir — de simplesmente ser.
Isso aqui é quase um Upanishad.
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O niilista (ou nem tanto) em Paperback Writer, dos Beatles
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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.
