Um terror independente que transforma desenhos infantis em manifestações do sobrenatural, explorando os limites da representação visual e o medo daquilo que não conseguimos compreender.
Os filmes de terror mais interessantes que vi este ano foram realizados por cineastas independentes, muitos deles conhecidos pelo YouTube, que exploram formas pouco convencionais de contar histórias.
É o caso de projetos como The Mandela Catalogue, de Alex Kister, Obelisk, de Lizardmeninc, e Livescream, de Michelle Iannantuono. São obras que experimentam com linguagens e recursos pouco associados ao cinema tradicional.
The Children Under the House segue esse mesmo caminho.
Criado pelo cineasta independente Paul Catalanotto, o projeto surgiu como uma série viral em seu canal do YouTube, Vintage Eight, e posteriormente se expandiu para outros formatos, incluindo um longa-metragem e uma graphic novel.
Imagine um filme construído inteiramente a partir de desenhos infantis feitos à mão com giz de cera.
Em vez de cenas convencionais com atores em movimento, a narrativa se desenvolve por meio de narração em voz, textos escritos em folhas de caderno e desenhos infantis estáticos.
A trama começa quando um comprador anônimo adquire um depósito abandonado e encontra um computador antigo, além de fitas VHS escondidas no fundo falso de uma gaveta.
As gravações registram sessões de terapia realizadas em 2015 pela Dra. Julia Luu (Mary Nguyen Catalanotto), uma terapeuta infantil que atendia Jess, uma menina de sete anos que deixou de falar e passou a se comunicar exclusivamente por meio de textos escritos e desenhos feitos com giz de cera.
Após se mudar com a família de Houston para a Louisiana, Jess começou a relatar a presença de crianças invisíveis que habitavam o espaço sob sua nova casa. A princípio, Julia interpreta os relatos como manifestações da imaginação infantil, possivelmente associadas ao trauma. A terapeuta também considera escrever um livro sobre o caso.
A origem do silêncio de Jess está ligada a um episódio traumático envolvendo seu pai, que a levou à força para o porão para provar que não havia nada ali. Assustada, a menina gritou até perder a voz. Desde então, passou a enxergar e a se comunicar com as entidades que, segundo ela, habitavam aquele lugar.
Por meio de seus desenhos perturbadores, Jess apresenta à terapeuta algumas dessas crianças, incluindo Mia, sua suposta melhor amiga, que teria morrido de forma violenta. Algumas entidades parecem amigáveis, enquanto outras ameaçam machucá-la e exigem que ela permaneça com elas sob a casa.
O que inicialmente parece um caso de amigos imaginários começa a assumir contornos sobrenaturais. À medida que as sessões avançam, Julia descobre que os relatos de Jess correspondem a acontecimentos reais envolvendo crianças desaparecidas ou mortas. A terapeuta passa, então, a considerar seriamente a possibilidade de que a menina esteja descrevendo algo que não consegue explicar pelos meios convencionais.
O espaço sob a casa parece funcionar como uma espécie de limbo, onde as crianças permanecem presas, confusas e incapazes de compreender plenamente o próprio destino. Algumas já não se lembram de quem são ou de como morreram. Jess, por sua vez, teme acabar presa ali também.
A situação se agrava quando a menina anuncia que não pretende deixar a casa com a família. Julia descobre que as entidades não são apenas presenças assustadoras: elas estão ligadas a crimes cometidos contra crianças, cujas circunstâncias começam a ser reveladas ao longo da investigação.
A estética do giz de cera e os traços desajeitados dos desenhos infantis são particularmente eficientes na representação de impressões que dificilmente poderiam ser traduzidas em palavras ou imagens convencionais. Há algo na imprecisão dos contornos, nas proporções distorcidas e na maneira como as figuras ocupam o espaço que torna o horror mais sugestivo e perturbador.
A representação de Mia é um bom exemplo disso. Sua figura é tenebrosa e antinatural, como se desafiasse a própria lógica do espaço. Sua anatomia não é inteiramente reconhecível, e seus contornos parecem obedecer a regras que não conseguimos compreender.
Sabemos, pelos desenhos de Jess, que parte do corpo de Mia foi desmembrada. Ainda assim, ela aparece ereta, quase flutuando, enquanto seus braços se alongam e ondulam até preencher o ambiente. É como se a personagem deixasse de ser uma figura delimitada e passasse a se confundir com o próprio quarto, dissolvendo as fronteiras entre o corpo e o espaço ao redor.
Os desenhos me passam uma espécie de impressão de impressionismo lovecraftiano. Não porque reproduzam necessariamente a estética associada a Lovecraft, mas porque parecem tentativas precárias de representar algo que escapa à compreensão humana. Jess desenha aquilo que vê, mas seus traços não parecem capazes de apreender inteiramente a natureza dessas entidades. O resultado é um horror que nasce justamente da insuficiência da representação, da sensação de que há algo diante de nós que não conseguimos compreender por completo.
Essa é, para mim, a principal virtude estética do filme. Ao adotar o desenho infantil como linguagem visual, ele encontra uma maneira de sugerir o sobrenatural sem precisar recorrer constantemente aos recursos convencionais do cinema de terror. A precariedade do traço torna-se parte fundamental da experiência. O que vemos parece menos uma representação objetiva dos acontecimentos do que uma tentativa de dar forma a algo incompreensível.
Apesar de alguns problemas, como a atuação da terapeuta, que me parece carecer de inflexão emocional e frequentemente soa artificial, quase robótica, fiquei genuinamente tenso e intrigado durante a exibição. Em alguns momentos, confesso que me perdi um pouco no desenvolvimento da história, mas isso não diminuiu meu interesse pelo que estava acontecendo.
Percebi que tentava examinar cada centímetro da imagem em busca de pistas, atento aos detalhes dos desenhos e à possibilidade de encontrar neles alguma informação que ainda não havia compreendido. O filme conseguiu despertar em mim uma curiosidade genuína, tanto pela narrativa quanto pela maneira como escolhe apresentar seus horrores.
Para completar, The Children Under the House ainda consegue produzir alguns jump scares surpreendentemente eficazes. Eu não imaginava que isso fosse possível dentro de uma proposta narrativa tão restritiva, baseada essencialmente em desenhos estáticos, textos e narração em voz. O filme demonstra, porém, que a ausência de movimento convencional não elimina as possibilidades de susto. Basta saber manipular o que o espectador vê, o que deixa de perceber e aquilo que teme encontrar na imagem seguinte.
