Um filme independente que transforma uma transmissão de videogame em pesadelo e encontra, na linguagem das lives e dos chats, uma reflexão melancólica sobre pertencimento, mortalidade e os vínculos fantasmagóricos da vida digital.
Quando assisti a Backrooms e The Oldest View, de Kane Parsons, pela primeira vez, eu já vinha consumindo um tipo de conteúdo que dialoga diretamente com o universo apresentado nessas duas obras.
Esqueçam um pouco toda aquela discussão intelectual sobre espaços liminares e os não-lugares de Marc Augé. Backrooms e The Oldest View também são, em boa medida, obras de terror influenciadas por um nicho bastante popular de vídeos no YouTube: o Urbex (ou Urban Exploration). Trata-se da exploração de espaços abandonados ou vazios, geralmente filmada em primeira pessoa (POV), com uma preferência especial por ambientes corporativos, edifícios desertos e dead malls, aqueles shopping centers que perderam boa parte de suas atividades ou foram completamente abandonados.
Tanto Backrooms quanto The Oldest View exploram elementos muito característicos desse tipo de vídeo: a caminhada lenta, o ato de testar portas, a curiosidade de olhar por trás de pilastras e a sensação de que pode haver alguma coisa escondida logo adiante. O próprio ato de explorar esses ambientes, de invadir propriedade privada (mesmo que abandonada), sem que necessariamente aconteça alguma coisa, já é capaz de produzir uma atmosfera de estranhamento e inquietação.
É por isso que o formato found footage, tão comum nesse tipo de terror, costuma funcionar tão bem. A atmosfera não depende apenas daquilo que aparece na tela, mas também da respiração pesada de quem opera a câmera, dos movimentos hesitantes e da impressão de que estamos acompanhando algo real.
Uma coisa que comecei a perceber nesse tipo de terror associado à Geração Z é justamente a importância da forma. Durante algum tempo, achei que essa onda de estética analógica fosse apenas uma espécie de maneirismo, um recurso visual usado para conferir uma aparência mais “sinistra” às imagens.
Hoje, porém, tendo a considerá-la quase indispensável. Eles estão certos, eu que era arrogante.
Por falar em formato, gostaria de indicar um filme independente chamado Livescream, lançado em 2018.
Escrito e dirigido por uma garota chamada Michelle Iannantuono, o filme também faz da própria forma uma parte fundamental do conteúdo e do tema.
Neste caso, toda a narrativa se desenvolve como uma transmissão ao vivo (livestream) de um gamer jogando e interagindo com o chat.
Livescream não é, particularmente, um filme perfeito. Não o achei tenso ou tenebroso. No entanto, acredito que seus méritos superam, e muito, qualquer crítica que eu possa fazer a respeito.
Aqui, vou me concentrar nos aspectos positivos.
Em Livescream, acompanhamos Scott Atkinson (interpretado por Gunner Willis), um streamer de videogames relativamente popular que costuma transmitir jogos de terror para seus seguidores. Durante uma de suas transmissões, ele decide jogar um título misterioso chamado Livescream, enviado anonimamente por um fã.
O que parecia ser apenas um jogo indie de baixa qualidade rapidamente se transforma em um pesadelo: Scott percebe que, sempre que falha ou avança no jogo, seus espectadores e moderadores começam a morrer um por um na vida real.
Ele é forçado a continuar jogando e vencendo os níveis na tentativa de salvar a vida de sua comunidade e a própria vida.
A interface, os comentários dos espectadores e a dinâmica da livestream ganham, na minha opinião, uma função dramática bastante interessante.
Diferentemente do cinema tradicional, em que a câmera pode cortar para um plano aberto para nos situar no espaço, no formato de livestream estamos confinados ao layout da tela. Temos apenas uma janela de webcam, que mostra as reações e expressões do jogador, e, muito importante, um fluxo constante de mensagens do chat subindo pela lateral.
Acredito que, para quem não está muito acostumado com esse formato e com as interfaces de uma livestream, pode ser bastante difícil acompanhar o filme. Por outro lado, essa linguagem é muito mais acessível para as gerações mais novas, que cresceram interagindo em chats e acompanhando transmissões on-line.
É interessante perceber que a perspectiva do espectador é exatamente a mesma de quem está assistindo à transmissão de Scott, incluindo a interface da plataforma de streaming e o chat dinâmico, que reage aos acontecimentos em tempo real.
Outra coisa de que gostei bastante é a maneira como o filme aborda temas pesados com sensibilidade, como o sentimento de inadequação dos jovens, a sensação de fracasso e a fobia social, que podem levá-los a buscar refúgio em comunidades virtuais.
Para jovens isolados em seus quartos, o chat de um streamer querido pode ser o único lugar onde sentem que pertencem a alguma coisa, onde suas vozes, ou seus avatares, são notados. Existe um acolhimento real ali, embora imperfeito.
Inclusive, as pessoas que “morrem” no filme simplesmente saem do chat e deixam de interagir. Eu nem posso dizer, de fato, se elas morreram.
É quase todo um universo virtualizado, no qual tudo é sugerido e hiperdimensionado. Boa parte das “mortes” é representada apenas pela saída de uma pessoa do chat. Eu, sinceramente, achei isso brilhante.
Michelle Iannantuono conseguiu traduzir muito bem a “mortalidade” para a linguagem digital.
Existe uma melancolia profunda no fato de que o streamer sofre genuinamente pela morte de pessoas das quais sequer conhece o nome real, o rosto ou o lugar onde moram.
O sucesso do projeto original levou a diretora a produzir uma sequência chamada Livescreamers, lançada em 2023. O filme expande o mesmo universo, mas desta vez acompanha um grupo de criadores de conteúdo jogando juntos em um ambiente cooperativo.
Assista aqui:
