Notas de leitura do Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luís da Câmara Cascudo
Estou lendo o Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luís da Câmara Cascudo, obra monumental que organiza, de A a Z, verbetes sobre superstições, crendices, mitos, danças, lendas e práticas mágicas incorporadas pelo povo brasileiro ao longo de sua história.
É um livro que ilumina aquilo que normalmente passa despercebido no cotidiano. Sob gestos banais e hábitos aparentemente simples, há lastros culturais riquíssimos, sedimentados por séculos de experiência coletiva. Pretendo registrar aqui algumas das passagens que considero mais interessantes.
Entre elas está o aboio.
Quem é do interior, especialmente da zona rural, provavelmente já ouviu, ao longe, um canto estranho que não se traduz em palavras. O silêncio do campo permite que se escute essa vocalização prolongada, marcada quase exclusivamente por vogais abertas, sustentadas no ar como um eco humano.
Esse é o aboio: o canto entoado pelos vaqueiros enquanto conduzem o gado.
Dentro de seus limites tradicionais, trata-se de uma forma de livre improvisação. Dificilmente se ouve um aboio idêntico a outro. Cada vaqueiro imprime ali seu timbre, sua respiração, seu temperamento. Ainda assim, há critérios internos. Os próprios vaqueiros distinguem aqueles que são “bons no aboio” daqueles que não são. Existe uma técnica, uma sensibilidade, um domínio que não é aleatório.
O canto costuma finalizar com uma frase de incitamento à boiada, como “ei boi”, “boi surubim” ou “ei lá”, às vezes acompanhada de um assovio. A função prática é clara: conduzir, acalmar, orientar o rebanho.
Para Luís da Câmara Cascudo, o canto dos vaqueiros, ao apaziguar o rebanho levado às pastagens ou ao curral, produz um efeito quase maravilhoso. Não se trata apenas de comunicação funcional, mas de uma interação sensível entre homem, animal e paisagem.
O aboio é reconhecido como canto popular em todas as regiões de pastorícia do Brasil. Ele integra um universo cultural mais amplo, no qual trabalho, música e natureza não se separam de maneira rígida.
O escritor José de Alencar descreveu o aboio como “ária tocante e maviosa”. Em sua visão, se alguém transcrevesse em partitura aqueles improvisos musicais soltos à brisa vespertina, teria composto o mais sublime dos hinos à saudade. A observação é reveladora: há no aboio uma dimensão lírica que transcende sua função utilitária.
No Nordeste brasileiro, identificam-se influências dos cantos da África muçulmana. Contudo, sua matriz mais remota remeteria também às práticas pastorais da Grécia antiga.
A cantinela dos vaqueiros apresenta características associadas às melodias da flauta de Pã. As notas se organizam em conjuntos próximos à escala diatônica, como faziam antigos pastores europeus em seus campos. Essa possível continuidade histórica sugere que o aboio não é apenas uma prática regional, mas parte de uma tradição pastoril que atravessa civilizações.
O aboio talvez seja um dos raros tipos de música genuinamente subjetiva. Ele se molda ao clima, à paisagem, à distância do horizonte, às vozes e ao barulho do gado sendo conduzido. Toda a composição sonora e sensorial faz parte da experiência.
Não é uma música pensada para o palco, para o estúdio ou para a camisa rígida de um compasso fixo. Certas canções, quando aprisionadas a uma métrica formal, ficam contrafeitas. O aboio, ao contrário, vive da elasticidade, do tempo dilatado, da respiração livre.
Ele é inseparável do espaço aberto e do vento. É canto que não se escreve facilmente, que não se repete da mesma forma, que existe no instante.
E talvez resida aí sua força.
