Sobre aquilo que escapa à pretensão de totalidade da antropologia
Estou lendo o livro Não-lugares: introdução a uma antropologia da sobremodernidade, de Marc Augé.
Na segunda parte do livro, intitulada “O Lugar Antropológico”, o autor desenvolve uma discussão interessante sobre a validade metodológica que etnólogos e antropólogos têm ao avaliar uma outra cultura.
Segundo ele, pelo que entendi, é muito difícil estudar qualquer cultura sem considerar o horizonte da perspectiva. É preciso reconhecer que um homem pertencente à sociedade estudada pode ser tão ou mais complexo quanto o homem da sociedade que a estuda. E, aqui, podemos entender “complexidade” como tudo aquilo que constitui a experiência humana: suas contradições, suas paranoias, suas interpretações do mundo, suas miopias, seus erros, suas confusões sobre os próprios símbolos e até suas possíveis aleatoriedades. Se temos tudo isso em nossa própria sociedade, o que garante que a outra também não tenha?
Augé critica a velha ilusão antropológica de que as sociedades primitivas ou tradicionais eram blocos homogêneos, nos quais cada indivíduo simplesmente repetia, de maneira mecânica, os mitos e as regras do grupo.
O autor defende que o “nativo” nunca foi uma peça simples de um quebra-cabeça. Ele possui individualidade, dúvidas, contradições e interpretações próprias sobre seus próprios símbolos.
A ideia de que é difícil considerar toda cultura como um todo coeso, monolítico e facilmente teorizável me parece bastante razoável.
Há, porém, uma coisa especialmente interessante que ele fala sobre o etnólogo, sobretudo sobre o etnólogo do mundo atual, um mundo marcado pela velocidade, pelo acúmulo de informações e pela sensação de impermanência.
Para fugir das agitações do presente, o etnólogo pode tentar interpretar uma ilusória estabilidade do passado ou do “outro”, quase como um refúgio ou um exercício de nostalgia que busca encontrar um lugar “puro”, intocado pela velocidade e pela impermanência.
Existe um termo utilizado no livro que se relaciona diretamente com isso: a “tentação da totalidade”, o impulso do pesquisador de enxergar uma cultura como um sistema perfeitamente redondo, no qual cada mito, ritual, casamento e superstição se encaixariam sem deixar sobras.
Ceder à tentação da totalidade é acreditar que essa ilusão local corresponde à realidade absoluta daquela sociedade, ignorando suas fraturas, as dúvidas individuais e as influências externas.
Tudo aquilo que é aleatório, contraditório ou “míope” acaba sendo descartado pelo pesquisador para que sua teoria final pareça elegante, total e explicativa. A totalidade, portanto, é uma ficção metodológica.
Filosoficamente, ceder à tentação da totalidade significa reduzir o “Outro” às categorias do “Mesmo”. Significa acreditar que a mente do antropólogo consegue englobar, classificar e esgotar toda a existência e toda a complexidade de uma outra cultura.
Augé argumenta contra isso ao mostrar que a supermodernidade estraçalha qualquer tentativa de totalidade. No mundo atual, o local está costurado ao global; um vilarejo isolado está conectado a uma rede de satélites, ao mercado financeiro, aos fluxos migratórios e a uma infinidade de outras estruturas que ultrapassam suas fronteiras. Tentar ler o mundo de hoje através de totalidades isoladas é um anacronismo.
Substantificar cada cultura é ignorar tanto seu caráter intrinsecamente problemático quanto a complexidade da trama social e das posições individuais, que jamais podem ser simplesmente deduzidas de um suposto “texto” cultural.
O que Augé está alertando nessa segunda parte do livro, pelo menos da maneira como estou entendendo sua argumentação, é que, se o etnólogo continuar tratando a cultura como um “substantivo”, algo fixo e acabado, e não como um “processo”, algo dinâmico e em permanente transformação, ele ficará completamente cego.
Eu acredito, porém, que, embora as críticas sejam válidas, não sei se existe realmente uma saída para esse problema.
Estudar qualquer coisa é necessariamente assumir uma perspectiva, que é a própria posição do observador. Aquilo que é estudado é sempre colocado na perspectiva do objeto. Por definição, o objeto não pode ser o sujeito. Além disso, o próprio Marc Augé se coloca sob o risco de não escapar das premissas que ele mesmo estabelece.
Existe o paradoxo da alteridade, o dilema da tradução e a inevitabilidade da violência epistêmica.
No momento em que transformo o “Outro” em meu objeto de estudo, já existe uma espécie de descaracterização de sua condição de sujeito autônomo. Eu o obrigo, ainda que involuntariamente, a caber na minha grade de leitura, na minha linguagem e nas minhas ferramentas conceituais.
Existe, portanto, um limite lógico da perspectiva: o objeto nunca será o sujeito.
A neutralidade absoluta é uma impossibilidade lógica. O observador não pode saltar para fora da própria mente para observar o mundo de um ponto de vista absolutamente exterior a si mesmo.
Se a objetividade pura é impossível e a total autonomia do sujeito estudado inevitavelmente se perde, em alguma medida, no texto produzido pelo pesquisador, talvez a antropologia contemporânea não possa buscar uma “solução” definitiva para esse problema. Talvez precise buscar apenas uma postura de danos minimizados.
A saída não seria fingir que não temos uma perspectiva, mas colocar a nossa própria perspectiva dentro do livro.
É assumir uma identidade polifônica. Tentar fazer com que o texto antropológico não seja um monólogo do cientista, mas um espaço no qual as vozes dos sujeitos apareçam em suas contradições brutas, sem que o autor precise harmonizá-las perfeitamente no final.
Talvez a questão não seja eliminar a perspectiva, algo que parece impossível, mas torná-la visível. Não fingir que o antropólogo desapareceu atrás de seu objeto, mas deixar claro onde ele está, de onde fala, quais categorias utiliza e quais são os limites de sua própria interpretação.
Nesse sentido, talvez a antropologia não precise abandonar a pretensão de compreender o Outro, mas abandonar a pretensão de esgotá-lo. O problema não está necessariamente em construir uma interpretação, mas em confundir a interpretação com aquilo que foi interpretado.