O Sexo no Paraíso

Satanás observando os carinhos de Adão e Eva, William Blake

Uma das características mais curiosas das religiões é que elas não falam apenas sobre como viver, mas também sobre o que vale a pena desejar e como será nossa recompensa.

Quando uma tradição religiosa descreve o paraíso, ela não está apenas oferecendo uma resposta para a morte; está revelando sua compreensão mais profunda sobre a natureza humana, sobre aquilo que considera ser a plenitude da existência e sobre o destino último do corpo.

Talvez por isso as descrições do Céu e do Paraíso sejam tão reveladoras quanto as descrições de Deus. Elas expõem aquilo que cada civilização considera digno de ser preservado na eternidade. O que sobrevive à morte? O que é descartado? O que permanece do homem quando toda necessidade material desaparece? A individualidade? A memória? O corpo? O sexo?

A questão da sexualidade é particularmente interessante porque toca um ponto de tensão que atravessa toda a história religiosa: se o sexo é uma dimensão constitutiva da condição humana, ele possui algum lugar na eternidade? Ou seria apenas um mecanismo transitório destinado a desaparecer quando a alma alcançasse seu destino final?

Acho interessante a ideia de que o paraíso, tanto para cristãos quanto para islâmicos, não deva ser um estado de isolamento assexuado. Também considero interessante comparar a metafísica do sexo nas visões cristã e islâmica, que compartilham muitos elementos em comum, mas divergem em um ponto essencial.

São Tomás de Aquino, na Suma Teológica, afirma que os corpos ressuscitados manterão o seu sexo.

Para sustentar que a identidade masculina ou feminina permanecerá na eternidade, o santo filósofo utiliza três fundamentos principais: a ideia de perfeição da natureza, a autoridade de Santo Agostinho e a própria origem da criação.

O sexo não é um defeito acidental da anatomia, mas uma propriedade natural da identidade humana criada por Deus. Como a ressurreição restaura e aperfeiçoa a natureza humana em sua totalidade, eliminar o sexo significaria ressuscitar um corpo imperfeito ou mutilado.

São Tomás apoia-se diretamente nos escritos de Santo Agostinho, especialmente no Livro XXII de A Cidade de Deus, concordando que “ambos os sexos hão de ressuscitar”.

No texto do Gênesis, Deus deseja ativamente a dualidade sexual ao criar Eva a partir da costela de Adão.

Portanto, o cristianismo defende a permanência da dualidade sexual no paraíso, contrastando com a ideia de um estado pós-morte puramente incorpóreo e assexuado.

No entanto, São Tomás esclarece que não haverá funções reprodutivas nem atos sexuais após a ressurreição. Ele se baseia na resposta de Jesus aos saduceus nos Evangelhos: “Na ressurreição, os homens não terão mulheres, nem as mulheres, maridos; mas serão como os anjos de Deus no céu” (Mateus 22:30).

Assim, os órgãos e as características sexuais existirão no corpo glorificado, mas unicamente como expressão da integridade, da beleza e da diversidade da criação divina, e não para fins de procriação.

O foco central será a visão beatífica: o conhecimento direto e o amor de Deus, que satisfarão plenamente a alma, tornando os prazeres físicos dispensáveis diante da satisfação absoluta encontrada no Criador.

Há um contraste muito grande com o Islã nesse último ponto. A tradição islâmica assume explicitamente a possibilidade do congresso sexual com as houris (donzelas celestiais) ou entre os cônjuges, sendo o prazer sexual visto como uma forma nobre de recompensa e uma manifestação da servidão a Deus. No Islã, o gozo físico é purificado de qualquer cansaço, impureza ou culpa. Deus garantirá a gratificação plena de todos os aspectos do ser humano, incluindo o espiritual, o emocional e o físico, em um ambiente de eterna abundância.

Confesso que, às vezes, considero a visão islâmica metafisicamente superior à cristã, que, à primeira vista, parece reduzir os órgãos sexuais a apêndices decorativos da dualidade.

O cristianismo, no entanto, faz uma distinção entre utilidade funcional e perfeição ontológica. Para São Tomás, algo não precisa exercer uma função ativa para possuir uma razão de ser. O Islã, sob a ótica cristã, apenas projeta os desejos da carne terrena em uma escala eterna. Não que os prazeres carnais sejam proibidos, mas eles seriam adequados apenas ao contexto terreno.

João Paulo II, na Teologia do Corpo, vai além e explica que a dualidade macho-fêmea possui um significado esponsal.

O corpo masculino e o feminino expressam visual e eternamente a capacidade humana de amar, de se comunicar e de estar em comunhão com o outro. Os órgãos sexuais não são “apêndices decorativos inúteis”, como eu às vezes julguei, mas sinais históricos e glorificados da jornada de amor daquele indivíduo na Terra, da mesma forma que as chagas de Cristo ressuscitado permaneceram em Seu corpo glorioso como sinais de Sua vitória, e não como feridas inúteis.

Talvez possamos diferenciar o embate metafísico entre islã e cristianismo nos seguintes termos: a metafísica islâmica é uma metafísica imanente e inclusiva. O ápice da matéria é a sua potenciação. O corpo é glorificado ao experimentar prazeres físicos sem os limites ou as dores da Terra.

Já a metafísica cristã é transcendental e ascensional. O ápice da matéria é sua participação plena na vida espiritual. O corpo é glorificado ao tomar parte da própria vida de Deus.

Para o Islã, o sexo é uma atividade nobre e eterna de servidão e recompensa. Para o cristianismo, o sexo é um sinal sagrado e temporal de uma comunhão eterna que será plenamente realizada no Céu.

Talvez a divergência entre cristianismo e islã não esteja propriamente no valor atribuído ao corpo, mas naquilo que cada tradição entende como a sua realização definitiva. Ambas rejeitam a ideia de que a matéria seja um erro ou uma prisão. Ambas afirmam a ressurreição. Ambas sustentam que o ser humano permanecerá humano na eternidade. O desacordo surge quando se pergunta qual aspecto da experiência humana representa sua consumação última.

O islã responde que a perfeição consiste na plenitude integral de tudo aquilo que Deus criou, incluindo os prazeres do corpo. O cristianismo responde que a perfeição consiste em algo ainda maior que o prazer: a contemplação direta da fonte de todo prazer possível. Em uma visão, o desejo encontra sua realização. Na outra, ele encontra sua sublimação.

Talvez seja por isso que as duas escatologias provoquem fascínios tão diferentes. O paraíso islâmico parece mais próximo da imaginação humana porque promete a glorificação daquilo que já conhecemos. O paraíso cristão parece mais enigmático porque promete uma forma de felicidade que ultrapassa a própria experiência terrena do desejo.

No fundo, a questão não é apenas se haverá sexo no paraíso. A pergunta mais profunda é outra: o que exatamente o sexo anuncia? Para o islã, ele permanece como parte da própria recompensa eterna. Para o cristianismo, ele aponta para algo além de si mesmo. Em um caso, o símbolo permanece junto daquilo que simboliza. No outro, o símbolo cede lugar à realidade definitiva.

Imagem: Satanás observando os carinhos de Adão e Eva, William Blake

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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