O vazio-intervalo do Ma

O conceito de Ma (間) é um elemento fundamental da estética, da arte e da cultura japonesa, e foi uma ideia que demorei bastante para compreender.

Esse conceito costuma ser traduzido como “vazio” ou “intervalo”. No entanto, nenhuma dessas definições, isoladamente, consegue apreender aquilo que o Ma realmente representa.

Talvez a melhor forma de descrevê-lo seja como um vazio-intervalo. Trata-se de uma expressão imperfeita, mas que ao menos preserva a tensão existente entre os dois termos.

A palavra “vazio” é adequada em certo sentido, pois visualmente o Ma frequentemente se manifesta como um espaço desocupado, sem objetos ou acontecimentos aparentes. Contudo, essa definição se torna insuficiente quando associamos o vazio à ideia de ausência absoluta, ou o nada. O Ma não é o nada. Pelo contrário, trata-se de um espaço carregado de potência, expectativa e possibilidade.

Da mesma forma, a noção de “intervalo” também capta apenas parte do fenômeno. O termo sugere algo situado entre dois eventos, como o tempo silencioso que separa duas notas musicais em uma música ou dois instantes sucessivos.

Ainda assim, o Ma não pode ser reduzido a uma simples zona de passagem. O intervalo pressupõe que sua importância deriva dos elementos que ele conecta. O Ma, por outro lado, possui uma existência própria. Ele não é apenas aquilo que está entre duas coisas, mas algo que tem sua identidade própria.

Talvez seja mais correto dizer que o Ma corresponde a um espaço vazio preenchido de devir.

Uma obra que ajuda a compreender esse aspecto de maneira particularmente clara é a série Theaters (Teatros), do artista contemporâneo japonês Hiroshi Sugimoto.

Nessas fotografias, Sugimoto registra o interior de antigos cinemas mantendo o obturador da câmera aberto durante toda a duração da exibição de um filme. Como resultado dessa longa exposição, todas as imagens projetadas desaparecem, condensando-se em um único retângulo branco e luminoso no centro da fotografia.

À primeira vista, o espectador enxerga apenas um vazio. Entretanto, esse vazio é enganoso. A superfície branca não representa uma ausência de imagens, mas justamente o contrário: ela contém todas as imagens. Em vez do nada, temos uma concentração extrema de tempo e informação.

O retângulo brilhante presente nas fotografias pode conter mais de uma centena de milhares de fotogramas comprimidos em uma única superfície luminosa. É o excesso que produz a aparência de vazio.

Pra mima obra de Sugimoto constitui uma excelente metáfora para o Ma. Essa obra nos mostra que o espaço aparentemente vazio muitas vezes não é uma lacuna, mas uma plenitude silenciosa. O observador é convidado a contemplar algo que não se mostra diretamente, mas cuja presença continua atuando de forma invisível.

Posso ir além. Pra mim toda tela de cinema pode ser entendida como uma manifestação do Ma. Antes de o filme começar, ela existe como pura potencialidade. Não possui ainda uma identidade específica, mas já contém a possibilidade de todas as narrativas que poderão surgir sobre ela. O Ma é precisamente essa condição anterior à forma definitiva, a matriz silenciosa que acolhe a criação.

Talvez nós, ocidentais, possamos compreender melhor essa ideia por meio da semiótica de Charles Sanders Peirce.

Ao desenvolver a categoria da Primeiridade, Peirce descreve um domínio da experiência caracterizado pela pura possibilidade, pelo sentimento imediato e pelo potencial ainda não realizado. Trata-se de uma esfera anterior aos fatos concretos da Secundidade e às estruturas estáveis da Terceiridade.

O Ma parece habitar justamente essa região.

Ele corresponde ao momento em que algo ainda não se tornou plenamente determinado, mas já existe como possibilidade real. É o espaço onde múltiplos futuros permanecem abertos.

Essa aproximação torna-se ainda mais interessante quando consideramos o conceito peirceano de “quase-signo” (quasi-sign). O quase-signo ocupa uma zona intermediária na qual a significação ainda não se cristalizou em um significado definitivo. Ele permanece aberto, disponível para múltiplas interpretações.

Quando observamos o Ma sob essa perspectiva, percebemos que o vazio-intervalo não representa uma ausência de significação. Pelo contrário, ele é a própria condição que torna a significação possível.

Sem esse espaço de articulação, os signos se chocariam uns contra os outros de maneira contínua. Não haveria respiro, interpretação ou reflexão. O pensamento exige vazios para existir.

Em termos peirceanos, a tela branca de Sugimoto poderia ser entendida como uma espécie de qualisigno absoluto: uma qualidade pura de luz que concentra em si uma infinidade de sentidos possíveis.

A mesma sensibilidade aparece na obra do escultor Yoshihiro Suda.

Suda tornou-se conhecido por criar pequenas esculturas botânicas extremamente realistas, frequentemente instaladas em locais discretos e quase invisíveis. Uma folha seca surge de uma rachadura no rodapé. Uma flor aparece solitária sobre uma viga. Um galho emerge de um duto de ventilação.

O aspecto mais interessante dessas obras não é apenas a delicadeza da escultura, mas a forma como ela reorganiza nossa percepção do espaço.

Nas galerias ocidentais tradicionais, espera-se que a obra ocupe o centro da atenção. Suda faz exatamente o oposto. Ele esconde seus trabalhos.

Ao procurar essas pequenas intervenções, o visitante passa a observar aquilo que normalmente ignoraria: paredes vazias, corredores silenciosos, cantos esquecidos e superfícies aparentemente desinteressantes.

O vazio da galeria deixa de funcionar como pano de fundo e assume o papel principal. O Ma emerge no espaço de atenção que a escultura produz ao redor de si.

Algo semelhante ocorre na fotografia de Masao Yamamoto.

Suas imagens frequentemente exploram a dissolução dos limites entre céu e mar, entre névoa e paisagem, entre presença e ausência. O uso de áreas brancas e de formas pouco definidas não reduz a riqueza visual da imagem. Pelo contrário, amplia-a.

Ao eliminar referências espaciais precisas, Yamamoto abre espaço para que a imaginação do observador participe ativamente da construção da cena.

Essa lógica dialoga profundamente com os tradicionais biombos (byōbu) do período Edo, nos quais as áreas não pintadas possuem importância equivalente, ou até superior, às áreas ocupadas pela representação figurativa.

Mais uma vez, o vazio não aparece como ausência, mas algo como ausência em relação com a presença. 

O Ma na Religião Japonesa

O Ma, também não se limita ao campo artístico. Ele também se manifesta e transborda de maneira profunda na experiência religiosa japonesa.

Nos templos xintoístas encontramos frequentemente áreas vazias delimitadas por cordas sagradas (shimenawa), pilastras ou outros marcadores simbólicos. Esses espaços são reservados para a presença do divino.

Há exemplos na religião japonesa onde a própria pessoa é convidada a ter a experiência do Ma.  Um exemplo particularmente interessante encontra-se no Grande Santuário de Ise, um lugar comum de peregrinação.

O aspecto mais significativo da visita não é necessariamente o edifício sagrado em si, mas o percurso que conduz até ele. O visitante atravessa sucessivas pontes, caminhos e portais (torii), realizando gradualmente uma transição entre o espaço cotidiano e o espaço sagrado.

Quando finalmente se aproxima do santuário principal, descobre que ele permanece parcialmente oculto. Muros e barreiras impedem uma visão completa da construção.

O visitante vê apenas fragmentos. Essa ocultação não é um obstáculo acidental. Ela constitui o próprio núcleo da experiência do Ma.

O objeto sagrado importa menos do que o processo de aproximação. Ao negar a visão plena, o santuário desloca a atenção para o espaço intermediário percorrido pelo visitante. O Ma aparece justamente nesse território de expectativa e preparação.

Sob essa perspectiva, o próprio torii pode ser entendido como uma expressão arquitetônica do Ma.

Ele funciona como um portal que separa o profano do sagrado, mas sem bloquear efetivamente a passagem. Não possui portas, fechaduras ou barreiras físicas. É um limite, mas um limite que não impede o trânsito.

Seu vão permanece completamente aberto ao vento, à luz, às folhas e aos animais. O torii não existe para controlar o fluxo ou controlar a impermanência, mas para enquadrá-lo simbolicamente.

Ele marca uma transição sem encerrá-la.

Talvez seja exatamente aí que resida a singularidade do Ma.

Em grande parte da tradição ocidental, costumamos atribuir valor às coisas, aos objetos, aos acontecimentos e às formas acabadas. O olhar busca aquilo que está presente. O Ma, ao contrário, nos ensina a perceber aquilo que normalmente permanece invisível: os intervalos, as pausas, as margens, os silêncios e os vazios.

Não porque esses espaços sejam desprovidos de significado, mas porque são justamente eles que tornam o significado possível.

O Ma nos lembra que a realidade não é constituída apenas por presenças, mas também pelas condições que permitem que essas presenças surjam. Ele é o espaço da expectativa antes do acontecimento, o silêncio antes da música, o branco antes da imagem e o caminho antes do encontro.

Por isso, talvez a melhor definição para o Ma não seja simplesmente “vazio” nem “intervalo”, mas a experiência da possibilidade em estado puro.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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