O Cristianismo condenou o milenarismo como herético, embora a crença de que Jesus Cristo voltaria à Terra para estabelecer um reino terreno tivesse, entre seus defensores, padres ilustres e até santos, como Justino Mártir, Irineu de Lyon e Tertuliano.
Toda a relação da Igreja com o mundo tornou-se uma mistura de pessimismo em relação à realidade terrena e de otimismo cósmico.
Não seria possível fazer deste mundo um paraíso.
A Igreja aceitara o mundo tal como era, esforçando-se para tornar a existência humana um pouco menos desditosa: alimentar os famintos, cuidar dos doentes, visitar os cativos, acolher viúvas e órfãos.
Isso significa que a Igreja atravessou toda a história fazendo aquilo que sempre fez.
Embora, em um ou outro momento histórico, tivesse sido uma voz ativa, durante quase toda a sua história ela permaneceu relativamente alheia ao que acontecia ao seu redor: escravismo atlântico, revoluções, golpes de Estado, quedas de regime, guerras.
A resposta da Igreja quase sempre aparentava ser apática, mansa e conciliadora, ao mesmo tempo que o milenarismo, em sua pressa de trazer o Paraíso à Terra, exigia velocidade, aceleração e ruptura. E, algumas vezes, não estava errado, é preciso admitir.
Banido da Igreja, o milenarismo passou a correr solto pelo mundo, procurando alguma ideia na qual pudesse se hospedar.
Mircea Eliade identifica esse pensamento nas ideologias políticas do século XX.
O tema mítico do fim do mundo serviu, sobretudo, para ressaltar as relações entre escatologia e cosmogonia. Eliade fala da quase universalidade do enredo mítico-ritual da regeneração anual do mundo, da ideia da “perfeição do princípio” e de como, a partir de determinado momento histórico, esse motivo se torna “móvel”: passa a significar tanto a perfeição original do passado mítico quanto a perfeição que se realizará no futuro, após a destruição deste mundo.
As escatologias, intimamente ligadas ao pensamento milenarista, são, no fundo, otimistas, pois não apontam para o fim, mas para um novo começo. Talvez por isso as revoluções sangrentas mobilizem, especialmente os jovens: elas inspiram, excitam, dão tesão, prometem reinício. Esse recomeço que anunciam funciona como uma réplica imanente da cosmogonia do mundo.
O que considero mais intrigante é que o pensamento milenarista tenha sido expurgado da Igreja justamente quando ela se tornava a religião oficial do Império Romano, isto é, quando passou a deter um poder quase absoluto. É como se tivesse recusado o pacto fáustico do poder mesmo no instante em que ele lhe era literalmente entregue às mãos.