Myuthafoo é um disco de Caterina Barbieri, lançado em meados de junho de 2023.
O álbum é considerado uma espécie de irmão de Ecstatic Computation, lançado em 2019, pois suas faixas foram originalmente compostas no mesmo período.
Trata-se de uma obra luminosa e minimalista, construída a partir de arpejos rápidos, sequências programadas, efeitos, delays e camadas sonoras que se sobrepõem, criando um efeito hipnótico e meditativo.
É um disco inteiramente instrumental, feito com sintetizadores analógicos e que utiliza especialmente o sequenciador modular Orthogonal ER-101. A música dispensa completamente a percussão e os vocais, concentrando-se nas possibilidades sonoras dos próprios sintetizadores.
Em seu site oficial, Barbieri descreve a obra como uma proposta interseccional entre tecnologia e biologia. Segundo ela, por meio de uma abordagem psicodélica e futurista, o disco procura explorar questões relacionadas ao tempo, ao espaço, à memória e à emoção. Como de costume, a descrição que a própria artista faz de sua obra é bastante abrangente e abstrata. No entanto, quando ouço o disco, consigo entender, pelo menos em parte, o que ela quer dizer, embora seja incapaz de explicar isso com a mesma clareza.
Quase sempre que ouço Caterina Barbieri, imagino estrelas. Como explicar isso numa crítica musical? Durante muito tempo, preocupei-me em não fazer uma crítica meramente impressionista ou fenomenológica. Hoje, porém, parei de me preocupar tanto com isso. Afinal, como descrever uma experiência musical sem recorrer às imagens, às sensações e às associações que ela provoca em nós?
Os timbres agudos e limpos dos sintetizadores simulam, para mim, um efeito visual de cintilação. A repetição obsessiva das notas cria uma espécie de mapa de pontos luminosos na minha cabeça. É como se cada sequência desenhasse pequenas constelações, que se reorganizam continuamente.
A ausência de bateria e de percussão pesada, somada às notas longas dos sintetizadores, retira da música boa parte de seu aspecto telúrico. As notas perdem a gravidade, deixam de parecer presas ao chão e passam a flutuar. A composição me leva, quase inevitavelmente, a imaginar esses pontos luminosos como estrelas.
Também tenho a impressão de que a música não apenas flutua, mas assume uma forma vaporosa, como se fosse uma nebulosa. Há algo de atmosférico nessas composições, como se o som tivesse temperatura, densidade e pressão. Não consigo explicar exatamente de onde vêm essas sensações, mas elas fazem parte da minha experiência ao ouvir o disco.
Talvez seja justamente essa a força de Myuthafoo (e da obra de Caterina Barbieri como um todo): a capacidade de produzir imagens mentais sem precisar representá-las diretamente. Não há nada na música que remeta literalmente ao espaço sideral, mas seus timbres, suas repetições e suas camadas sonoras me fazem pensar em estrelas, constelações e nebulosas. É uma música que parece existir em algum lugar entre o som e a imagem, entre a abstração e a experiência sensorial.