Fantas Variations foi um disco lançado por Caterina Barbieri em abril de 2021. Trata-se de um trabalho colaborativo composto por oito leituras radicalmente diferentes de “Fantas”, faixa originalmente apresentada no álbum Ecstatic Computation, de 2019.
“Fantas” é uma das obras-primas de Caterina Barbieri. Trata-se de uma extensa, melódica, onírica e matemática odisseia de sintetizadores, construída a partir da repetição, da sobreposição e da transformação gradual de estruturas sonoras.
Fantas Variations é uma expansão de ideias gestadas nesta única faixa.
O álbum entrega “Fantas” a diferentes músicos e compositores, permitindo que cada um deles encontre uma maneira própria de reconstruí-la.
O disco começa com “Fantas Variation for Voices”, uma versão coral a cappella construída a partir de camadas vocais sobrepostas. Participam da gravação Evelyn Saylor, Lyra Pramuk, Annie Garlid e Stine Janvin. A ausência dos sintetizadores transforma completamente a natureza da composição. Aquilo que originalmente parecia pertencer ao domínio da música eletrônica passa a adquirir uma dimensão quase litúrgica.
Em seguida, temos “Fantas for Saxophone and Voice”, uma interpretação que desloca a composição para o saxofone de Bendik Giske. O resultado é mais físico e expressivo, explorando a respiração, o timbre e as imperfeições próprias de um instrumento acústico.
Na terceira faixa, “Fantas for Two Organs”, Kali Malone apresenta uma abordagem solene e voltada ao ambient, utilizando dois órgãos de tubos. A sonoridade ganha peso e profundidade, aproximando a composição de uma experiência sacra. As estruturas matemáticas de Barbieri parecem perder sua aparência tecnológica e adquirir uma dimensão arquitetônica.
A quarta faixa, “Fantas for Electric Guitar”, é executada pelo guitarrista Walter Zanetti. A guitarra elétrica introduz uma nova textura à composição, fazendo com que suas estruturas melódicas e harmônicas pareçam menos abstratas e mais próximas de uma paisagem sonora.
Em seguida, temos “Singeli Fantas”, de Jay Mitta, que utiliza como ponto de partida o singeli, gênero de música eletrônica associado à Tanzânia e caracterizado por seus ritmos extremamente acelerados. A composição de Barbieri é submetida a uma espécie de aceleração radical, tornando-se quase vertiginosa.
Depois vem “Fantas Hardcore”, uma reinterpretação agressiva e caótica em chave de hardcore eletrônico, executada por Baseck. Aqui, a delicadeza e a contemplação da versão original dão lugar à saturação, à velocidade e à violência sonora.
Em seguida, “Fantas Resynthesized for 808 and 202”, de Carlo Maria, leva a composição para uma abordagem mais dançante, explorando as sonoridades características das máquinas Roland TR-808 e SH-202. A estrutura de “Fantas” passa, então, a funcionar dentro de uma linguagem mais próxima da música de pista, revelando uma dimensão rítmica que não necessariamente se apresenta de maneira tão evidente na gravação original.
Por fim, temos “Fantas Morbida”, de Kara-Lis Coverdale, que encerra o álbum de maneira minimalista e melancólica, utilizando essencialmente o piano solo. É talvez a transformação mais radical justamente por sua simplicidade: depois de todas as camadas, texturas, velocidades e distorções pelas quais “Fantas” passou, a composição termina reduzida a uma sonoridade íntima e despojada.
É importante não confundir a proposta de Fantas Variation com a ideia convencional de um álbum de remixes.
Embora todas as faixas partam da mesma composição, elas não parecem simplesmente versões alternativas de uma mesma música. A textura, o timbre, o ritmo e a instrumentação de cada abordagem alteram profundamente a experiência proporcionada pela obra. A estrutura musical permanece como uma espécie de esqueleto, mas cada artista constrói sobre ela um corpo completamente diferente.
O resultado é uma sequência que vai do angelical, na primeira faixa, ao desconcertante, na segunda; do opressivo, na terceira, ao onírico e pastoril, na quarta; do hipercinético, na quinta, ao techno-futurista, na sexta; do dançante, na sétima, ao sombrio e melancólico, na última.
Fantas Variation funciona quase como um experimento musical: quanto é possível modificar uma composição antes que ela deixe de ser reconhecida como a mesma composição?
Ao entregar “Fantas” a oito intérpretes diferentes, Caterina Barbieri demonstra que uma música não está necessariamente confinada à sua instrumentação, ao seu timbre ou mesmo à sua atmosfera original. Existe algo mais profundo em sua estrutura, algo que pode sobreviver mesmo quando praticamente todo o resto é substituído.
A experiência também revela algo sobre a própria música de Barbieri. “Fantas” parece possuir uma espécie de núcleo estrutural suficientemente forte para sobreviver a transformações extremas. Ela pode ser cantada por vozes humanas, tocada em órgãos, transposta para a guitarra, acelerada até o limite da vertigem, convertida em hardcore, transformada em música de pista ou reduzida a um piano solitário. Em cada uma dessas formas, continua existindo algum vestígio reconhecível da composição original.
Por isso, talvez Fantas Variation seja menos um álbum sobre oito versões de uma música e mais um álbum sobre o que permanece quando uma música muda completamente.
A composição de Caterina Barbieri funciona aqui como uma espécie de molde vazio, capaz de assumir formas inesperadas sem perder inteiramente sua identidade. O disco demonstra, assim, que uma obra musical pode ser menos aquilo que ouvimos em sua forma definitiva do que um conjunto de possibilidades escondidas dentro dela. “Fantas” é apenas uma dessas possibilidades. As outras oito estão neste disco.