A Espera (Keum Suk Gendry-Kim): Capítulo 2 – Duas Amigas

O segundo capítulo aborda temas como a memória, a passagem do tempo e a fragilidade da velhice. Nele, conhecemos um pouco mais da rotina de Gwija, uma mulher idosa que sofre com dores na lombar, dificuldades para caminhar, mãos trêmulas e ferimentos que parecem surgir sem motivo aparente.

Apesar das limitações físicas, Gwija mantém viva a esperança de reencontrar o filho, desaparecido durante a Guerra da Coreia. É interessante observar como Keum Suk representa a debilidade da personagem por meio da lentidão de seus movimentos e dos pequenos gestos cotidianos. Seu corpo parece carregar as marcas de uma vida inteira, mas sua memória continua presa à ausência daquele que espera reencontrar.

O título do capítulo, “Duas Amigas”, faz referência a um breve encontro entre Gwija e uma velha amiga, quando sai de casa para levar comida à filha. Durante a conversa, a amiga faz uma pergunta aparentemente simples, mas profundamente dolorosa: será que Gwija ainda seria capaz de reconhecer o próprio filho caso tivesse a oportunidade de encontrá-lo novamente?

A pergunta a deixa furiosa, e as duas acabam se desentendendo. Gwija consegue suportar as dores e limitações impostas pela idade, mas não aceita sequer considerar a possibilidade de que o tempo tenha apagado de sua memória o rosto do filho. Reconhecê-lo parece ser uma certeza à qual ela se agarra, talvez porque admitir o contrário significasse confrontar a possibilidade de que a espera tenha se prolongado por tanto tempo que até mesmo as lembranças poderiam desaparecer.

É um capítulo particularmente bonito pela maneira como trabalha aquilo que não é dito. Keum Suk não precisa recorrer a grandes diálogos ou situações dramáticas para transmitir a angústia da personagem. Com poucos elementos e uma narrativa econômica, consegue revelar a dimensão de uma espera que atravessa décadas e que, aos poucos, parece consumir também o corpo de quem espera.


Série A Espera (Keum Suk Gendry-Kim)

← Capítulo anterior: Saindo da Cidade | Próximo capítulo: Minha Terra ao Norte →

Comente aqui

Gostou do conteúdo?

Ajude o Taverna do Lugar Nenhum com qualquer valor.

Newsletter Semanal

Categorias

Asssuntos

Posts

Último Episódio

Quem faz

O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

O Papel e a Influência dos Anjos em Neon Genesis Evangelion: Design, Trama e Recepção
Os Anjos (使徒, shito, traduzido como "apóstolos") são entidades fictícias...
O drama do galanteador
Uma das coisas que mais me admira no personagem Félix,...
Você entendeu Bowie ao contrário: a androginia é masculinidade aristocrática, o Thin White Duke não é fascista e Ziggy Stardust é
A estética andrógina de Bowie é um resgate aristocrático, o...
Das aldeias neolíticas às dinastias sagradas: a formação espiritual e política da China antiga
A formação da China antiga está intimamente ligada ao desenvolvimento...
Rolar para cima