O Parlamento de El Salvador aprovou, em 31 de julho de 2025, uma reforma constitucional que elimina o limite de mandatos na Presidência da República, permitindo que Nayib Bukele possa se reeleger indefinidamente.
O que segue não é uma defesa nem um ataque, mas um esforço de diagnóstico. Não escrevo movido por indignação moral nem por entusiasmo político. Ao contrário, parto da constatação de que a ordem democrática liberal, tal como foi concebida no pós-guerra, encontra-se em acelerado processo de esgotamento. Muito provavelmente, serei uma das pessoas que olharão para essa forma de organização política com nostalgia e saudade.
Bukele, antes mesmo de Trump, simboliza no Ocidente um ponto de inflexão decisivo nesse processo. Ele parece representar a última pá de cal no sepultamento da democracia liberal como horizonte normativo dominante.
Ele já é um ditador? É possível que sim. Mas talvez a pergunta mais relevante não seja essa. O mais significativo é perceber que aqueles que tentam defendê-lo dessa alcunha recorrem, paradoxalmente, a argumentos oriundos da própria ordem liberal que ele contribuiu para deslegitimar. Falam em resultados, eficiência, vontade popular, segurança, todos conceitos que, deslocados de seus fundamentos institucionais, tornam-se meros instrumentos retóricos.
O chamado “iluminismo das trevas”, formulado por Nick Land, deixou de ser apenas uma provocação teórica. Para uma parcela expressiva da nova geração, seus pressupostos já são não apenas aceitáveis, mas desejáveis. Trata-se de um imaginário que projeta seu ideal simultaneamente no futuro tecnológico e em um passado mitificado de autoridade, ordem e decisão, um tipo de “tecnochauvinismo ilustrado” que abandona qualquer compromisso com a mediação democrática.
Após décadas de uso inflacionado, a palavra “fascista” perdeu quase todo o seu efeito moral. Ela já não assusta, não constrange e não esclarece. Soma-se a isso o fato de que muitos de seus usuários mais frequentes costumam relativizar ou mesmo justificar outras formas de autoritarismo, desde que alinhadas às suas preferências ideológicas.
Bukele também se insere em um traço histórico recorrente da cultura política latino-americana: o desejo por um líder forte, carismático e centralizador, frequentemente associado à promessa de redenção nacional. Esse papel foi ocupado, em diferentes momentos, por figuras como Getúlio Vargas, Juan Domingo Perón e, mais recentemente, Hugo Chávez, todos líderes que reivindicaram falar diretamente em nome do povo contra instituições vistas como oligárquicas ou disfuncionais.
Esse imaginário foi amplamente analisado por autores como Octavio Paz, que em O Labirinto da Solidão identifica a persistência de uma relação quase mítica com o poder pessoal, e por Mario Vargas Llosa, especialmente em A Tentação do Impossível e O Chamado da Tribo, onde descreve o caudilhismo como uma patologia política recorrente da região. Carlos Fuentes, por sua vez, observou que a América Latina frequentemente substitui instituições frágeis por figuras providenciais, numa tentativa de compensar a ausência de consensos duradouros.
Bukele dialoga diretamente com esse legado, ainda que o reconfigure. Ele combina a figura do líder forte com uma estética contemporânea, uma linguagem digital e uma lógica de gestão que se apresenta como técnica, pragmática e supostamente apolítica.
Seu governo enfraquece, de forma deliberada, instituições democráticas tradicionais como o Judiciário e o Legislativo. Essas instâncias passam a ser percebidas, no discurso público, ora como entraves burocráticos, ora como estruturas essencialmente corruptas, incapazes de responder às demandas de segurança e ordem.
A abordagem de Bukele aproxima-se do que vem sendo chamado de neo-cameralismo, uma corrente teórica associada a Curtis Yarvin, também conhecido pelo pseudônimo Mencius Moldbug. O neo-cameralismo propõe a substituição da democracia por uma forma de governança inspirada em modelos corporativos, nos quais o Estado funciona como uma empresa, orientada por eficiência, controle e resultados mensuráveis, e não por representação, deliberação ou pluralismo. Trata-se de uma visão que rejeita abertamente a democracia liberal, considerada lenta, disfuncional e incapaz de lidar com crises complexas.
É notável que Bukele raramente se defenda de críticas em termos ideológicos. Sua retórica é quase sempre ancorada em resultados concretos, apresentados de maneira abstrata, quase etérea. E, de fato, sob seu governo, El Salvador deixou de figurar entre os países mais violentos do mundo, transformando-se em um território consideravelmente mais seguro. Esse dado, por si só, exerce um poder argumentativo difícil de ser ignorado.
Esse sucesso o aproxima de outros modelos autocráticos contemporâneos que se apresentam como tecnicamente neutros e ideologicamente indefinidos. No discurso público, parecem escapar às categorias políticas tradicionais. Na prática, porém, reproduzem estruturas semelhantes, como reflexos em um espelho.
Se Dante escrevesse hoje, talvez substituísse sua advertência original por algo como: “Abandonai a Ideologia, vós que entrais aqui”.
Nesse sentido, a China não está tão distante do modelo bukelista. Seu sistema de partido único, com forte centralização política e prioridade absoluta à estabilidade e ao desenvolvimento, opera com a mesma lógica de eficiência autoritária. As liberdades individuais tornam-se secundárias frente à promessa de ordem, crescimento e previsibilidade.
A “foice e o martelo” há muito se tornaram souvenires estéticos, esvaziados de seu conteúdo revolucionário original. A China contemporânea também projeta uma forma de autocracia gerencial, orientada por métricas, tecnologia e controle. Assim como os Estados Unidos, investe pesadamente em vigilância, inteligência artificial e infraestrutura digital, disputando a liderança tecnológica global.
No fim das contas, a disputa política no mundo contemporâneo não se dá mais em torno de ideologias no sentido clássico, mas em termos de força, controle e capacidade de administração do caos. Talvez nunca tenha sido realmente diferente. A diferença é que, hoje, essa realidade se apresenta com menos pudor, menos verniz moral e menos promessas de redenção democrática.