Cantiga de Esponsais é um conto de Machado de Assis publicado originalmente na revista A Estação, em 15 de maio de 1883, e posteriormente integrado às coletâneas de contos do autor.
A história se inicia em 1813 e gira em torno de Mestre Romão Pires, um regente de orquestra e mestre de capela de cerca de 60 anos que vive no Rio de Janeiro.
Ele é um músico respeitado e de vasto conhecimento, mas carrega uma profunda melancolia. O maior drama de sua vida é a incapacidade de compor suas próprias músicas. Embora sinta a arte pulsar dentro de si, não consegue traduzir suas inspirações em notas musicais no cravo.
Na história, ele tenta concluir um canto esponsalício, uma composição para casamento, que começou a idealizar em 1779, três dias após se casar. Ou seja, há 34 anos.
Essa composição concentra toda a tragédia, a urgência e a necessidade de Romão. Sua esposa morreu jovem, e a melodia que começou a compor representa a lembrança de uma felicidade que não existe mais.
À beira da morte, seu desejo de terminar a música se torna desesperado.
Perto do fim da vida, Romão se senta diante de seu cravo e tenta, em um último esforço, dar forma musical aos seus sentimentos. Incapaz de concluir a composição, ele se desespera, desiste e rasga os papéis em que havia registrado suas ideias iniciais.
Pouco depois, pela janela, observa um casal recém-casado. A jovem noiva, de forma totalmente inconsciente, começa a cantarolar exatamente a melodia que ele buscou a vida inteira, mas nunca conseguiu criar. O mestre morre naquela mesma noite, confrontado com a ironia de que a inspiração que lhe faltava surgiu naturalmente em outra pessoa, de maneira espontânea e despretensiosa.
A obra aborda, com extrema melancolia, a frustração artística e a ironia do destino, desenvolvendo o conceito de “vocações sem língua”.
A expressão sintetiza a reflexão de Machado de Assis sobre o talento artístico e a capacidade de expressá-lo. O autor distingue as vocações que “têm língua”, capazes de se realizar por meio da arte, daquelas que “não têm língua”, cujos talentos não encontram uma forma de expressão. Romão é o exemplo trágico dessa segunda categoria.
Parece que há duas sortes de vocação, as que têm língua e as que a não têm. As primeiras realizam-se; as últimas representam uma luta constante e estéril entre o impulso interior e a ausência de um modo de comunicação com os homens. Romão era destas.
Percebam que Romão tem vocação. Ninguém nega isso. Ele possui o desejo de criar, mas não consegue encontrar os meios para materializar esse desejo.
Machado de Assis recorre a uma angustiante metáfora de um pássaro preso em uma gaiola:
Como um pássaro que acaba de ser preso, e forceja por transpor as paredes da gaiola, abaixo, acima, impaciente, aterrado, assim batia a inspiração do nosso músico, encerrada nele sem poder sair, sem achar uma porta, nada.
É possível que Machado de Assis estivesse atravessando uma crise criativa quando escreveu o conto, experimentando algo semelhante ao que sentia Romão. Paradoxalmente, teria encontrado na própria dificuldade de criar o impulso para escrever a obra. Tudo isso, porém, é suposição. Uma suposição que, creio eu, tem bons fundamentos.
Pelo que li de Machado, acredito que a angústia do criador, nesse conto, se traduza em uma espécie de autoficcionalização e metanarrativa, coisa comum em sua obra. Cantiga de Esponsais me parece um bom exemplo machadiano de arte revelando suas próprias entranhas.
Mestre Romão era infeliz por não conseguir fixar no papel a sensação de uma felicidade extinta. Machado, por sua vez, conseguiu transformar essa impossibilidade em literatura.
Em suma, Machado tinha a “língua” que faltava ao seu personagem.
