Um tributo a Santo Agostinho e sua obra “Confissões”

“Certos homens odeiam a verdade, por amor daquilo que eles tomaram por verdadeiro!”
Santo Agostinho

 

Santo Agostinho, amplamente conhecido como Agostinho de Hipona, figura como um dos mais proeminentes teólogos e filósofos dos primeiros séculos do cristianismo, exercendo uma influência duradoura e universal.

Sua notoriedade se estende por toda a cristandade, encontrando reverência não apenas entre os católicos e ortodoxos, mas também entre os protestantes, os quais concedem a Agostinho uma posição de destaque em virtude de suas reflexões profundas e contribuições significativas.

Para além de suas distinções teológicas, Santo Agostinho desponta como um notável pensador filosófico. Seu nome transcende os limites dos círculos estritamente ligados à fé cristã, sendo reconhecido como um intelectual de estatura imponente, cujo legado intelectual ressoa em diversas esferas.

Os escritos por ele produzidos instigaram o surgimento de indagações profundas que abrangem a natureza, o conceito de tempo, a dimensão do livre-arbítrio e os fundamentos éticos da existência humana.

Destacam-se entre suas influências filosóficas nomes ilustres como Edmund Husserl, Martin Heidegger e Wittgenstein, os quais, moldados pela riqueza de pensamento agostiniano, incorporaram e ampliaram sua herança intelectual, legando assim um enriquecimento valioso ao panorama filosófico.

Sua abordagem teológica e filosófica se entrelaçou de maneira notável, lançando pontes entre a compreensão da e a exploração do conhecimento racional. Agostinho mergulhou nas profundezas das questões metafísicas, examinando a relação entre Deus e a humanidade, a natureza da alma e a busca pela verdade.

Em sua magnum opus “Confissões”, ele empreendeu uma jornada introspectiva, narrando sua própria busca espiritual e suas lutas internas, oferecendo uma visão única das complexidades da experiência humana. Seus escritos não apenas delinearam uma base teológica para o cristianismo, mas também estabeleceram fundamentos sólidos para a filosofia, explorando temas como a epistemologia, a ontologia e a ética.

Santo Agostinho defendeu a noção de que a razão e a fé não são mutuamente excludentes, mas podem ser aliadas em busca da compreensão mais completa da verdade e da existência humana. Sua influência ressoa através dos séculos, ecoando em pensadores posteriores que se inspiraram em sua abordagem integrativa e profunda.

Além disso, seu conceito de “tempo interior” e sua reflexão sobre a natureza do tempo como uma experiência subjetiva moldaram as discussões filosóficas subsequentes sobre o tema, deixando uma marca indelével na filosofia da mente e na filosofia da linguagem.

A figura de Santo Agostinho permanece como um farol intelectual que ilumina as interseções complexas entre a teologia e a filosofia, a fé e a razão, continuando a inspirar mentes inquisitivas e a influenciar o curso do pensamento humano.

“Confissões” para além da fé

“Confissões”, a obra de maior renome de Santo Agostinho, teve sua gênese distante de ser concebida como um tratado de filosofia. Entretanto, graças às suas qualidades tangenciais, ergue-se como um dos ensaios filosóficos de maior relevância na história.

Escrita no início dos anos 400, a obra de Santo Agostinho traz um relato contínuo da evolução de seu pensamento, configurando-se como o registro mais abrangente de uma única personalidade nos séculos IV e V.

Trata-se de um livro autobiográfico no qual Agostinho delineia sua jornada antes de sua conversão ao cristianismo.

A composição atual da obra engloba 13 livros.

Incialmente, ela compreendia somente os primeiros 9 livros, que narram sua própria trajetória autobiográfica.

Mais adiante, foram acrescidos alguns livros suplementares, nos quais Agostinho promove análises psicológicas de seu estado mental durante o ato da escrita, além de incursões analíticas e comentários acerca dos primeiros versículos do Livro do Gênesis.

É justamente dessas seções que podemos extrair suas digressões mais profundamente filosóficas, delineando um panorama de suas explorações intelectuais e sua busca incansável por compreensão e significado.

Sob uma perspectiva religiosa, pode ser entendido como um hino de exaltação a Deus, visto que a confissão se configura igualmente como um gesto de reverência ao Altíssimo. Do ponto de vista histórico, “Confissões” é amplamente reconhecido como pioneiro ocidental no subgênero da autobiografia, e sua influência modelar permeou vastamente a literatura, abarcando as esferas da teologia, filosofia e psicologia.

Segue abaixo alguns dos pensamentos filosóficos abordados por Santo Agostinho em Cofissões:

O conceito de tempo e eternidade.

Uma das reflexões mais intrigantes de Santo Agostinho em Confissões diz respeito ao conceito de eternidade e sua relação com o tempo.

Para Santo Agostinho, a eternidade não guarda nenhuma relação com o tempo – ou seja, é equivocado afirmar que a eternidade equivale a um “tempo infinito”.

O tempo, para ser devidamente compreendido em sua essência, deve ser analisado em sua síntese de continuidade ou sucessão (ou seja, em sua estrutura que se define em termos de “antes” e “depois“).

Segundo Santo Agostinho, na eternidade não existe conceito de “antes e depois”. Por isso os eventos descritos na Bíblia, como os do Gênesis, parecem rimar com os eventos do Apocalipse: a queda de Lúcifer, por exemplo, citadas em ambos os livros, acontece no substrato da eternidadeisso significa que ela ocorreu, ocorrerá e ainda está ocorrendo.

A eternidade não é o tempo infinito, mas a negação do tempo.

Se formos conformar a eternidade no tempo, apenas um presente imutável subsistiria. Argumentar o contrário seria afirmar que existe um tempo coeterno com Deus, o que equivaleria a cometer o mesmo equívoco de filósofos muçulmanos como Averróis ou gregos como Aristóteles.

Agostinho se aprofunda na reflexão sobre a eternidade ao responder à antiga indagação: o que Deus fazia antes da Criação? De forma jocosa, ele inicia sua resposta com um toque de humor: “preparando o Inferno para quem fizer essa pergunta”

O privilégio cósmico da imaginação

Carl Sagan, ao verificar que a Terra seria um mero “pálido ponto azul”, introduziu (ou popularizou) a seguinte questão: qual seria a relevância de nossa realidade diante da constatação de que nosso universo conhecido é apenas um grão de poeira em meio a um vasto vazio cósmico? Qual seria a nossa importância, em vista do nosso planeta ser notavelmente um dos menores do sistema solar, e esse sistema, por sua vez, uma gota em um oceano de vácuo.

Embora Santo Agostinho não pudesse vislumbrar a perpsectiva da pequenez do nosso em sua época, é plausível que hoje não se surpreenderia com tal perplexidade.

Santo Agostinho, de fato, anteviu essa “baixa auto-estima cósmica”, ao escrever que os seres humanos que “admiram os cumes das montanhas, as ondas majestosas do mar, os amplos cursos dos rios, a vastidão do oceano e as órbitas das estrelas, mas deixam de admirar a si mesmos, criaturas tão fascinantes quanto esses outros elementos”.

Ele considera absurdo que as pessoas não se assombrem com os “palácios da memória” que contêm as montanhas, os oceanos e os astros, junto com todo um universo expansivo de imagens.

Para Santo Agostinho, o pensamento não apenas abrange todas essas coisas, mas também lhes confere significado.

Apologética

Confissões pode também ser vista como uma obra de apologética.

Quando jovem, Agostinho era Maniqueista, ou seja, membro da seita fundada por Maniqueu, que misturava doutrinas de Zoroastrismo e Cristianismo.

Sua mãe, Santa Mônica, apelou ao Bispo de Cartago (de nome desconhecido) a debater com Agostinho os equívocos do Maniqueismo.

Este se recusou, dizendo que a indocilidade da juventude deixava Agostinho enfatuado com a novidade, o que o tornava obtuso demais para se convencer de qualquer coisa.

Como o bispo sabia que Agostinho era estudioso, ele disse que o mesmo descobriria os erros sozinho, através das leituras. E essa postura do Bispo de Cartago foi providencial. 

Aos méritos do próprio intelecto e com a Graça de Deus, Santo Agostinho foi desvelando a verdade das coisas e reconsiderando a veracidade das críticas que ainda na época se faziam contra a Igreja, desencadeando seu processo de conversão através da construção gradual de uma apologética católica.

Todo esse processo, que envolve especialmente um convencimento intelectual e uma revisão filosófica, além de análises da própria biografia e o cercamento de todas os seus vícios, é o que define este livro.

Deus como um jogo barroco de paradoxos

Santo Agostinho tenta descrever Deus com um belíssimo jogo barroco de antíteses e paradoxos.

“Que sois, portanto, meu Deus? Aquele que está sempre em ação e sempre em repouso, cultiva sem estar obrigado a cultivar; enchendo e protegendo, criando, nutrindo e aperfeiçoando, buscando, ainda que nada Vos falte. Amais sem paixão, ardeis em zelo sem desassossego, arrependei-Vos sem ato doloroso, irai-Vos e estais calmo, mudais as obras, mas não mudais de resolução; recebeis o que encontrais, sem nunca o ter perdido.”

Deus soberano e próximo

Podemos observar em ‘Confissões’ como Santo Agostinho dialoga com Deus (e sobre Deus), demonstrando mais temor e reverência do que qualquer profeta do Antigo Testamento. Ao mesmo tempo, ele revela uma proximidade surpreendente, semelhante à de um confidente e um amigo íntimo, como se estivesse passeando por um jardim, apoiado no Altíssimo.

Agostinho sintetiza de forma perfeita a essência do Cristianismo: a união do contingente com o infinito. O distante e o próximo. O Verbo e a Carne. O Divino e o Humano.

A figura de Cristo, por si só, representa a expressão máxima desse paradoxo. Agostinho aborda isso apenas na sua tonalidade.

Felicidade não é alegria, tristeza não é infelicidade

Existe em Confissões excelentes discussões sobre felicidade, alegria, sofrimento e tristeza.

Nada ficou tão claro sobre a diferença brutal entre alegria e felicidade do que o esclarecedor relato de Santo Agostinho, quando este andava triste pelas ruas de Milão e encontrou em seu caminho um mendigo ébrio, humorístico e alegre.

Santo Agostinho, que andava “sob os ferrões da paixão” (que era a angústia da sua vocação, a saudade da mãe, a morte de um amigo, as lembranças de um amor, uma vontade frustrada de se casar e uma febre) se depara com o tal mendigo bêbado e percebe que ele possuía algo que a maioria das pessoas no mundo (inclusive ele) não possuía e buscava incessantemente: uma alegria segura.

O homem que folgava na embriaguez e transbordava na hilaridade possuía um simulacro de felicidade forte o bastante que tudo o fazia rir, até as pancadas que lhe davam.

No entanto, Agostinho, que viva com o coração cheio de inquietações,  percebeu que era verdadeiramente feliz.  

A complexidade do cristianismo é revelar que não existe a contradição de felicidade e sofrimento.

É uma questão de inteligência perceber o sentido da vida de um hedonista se completa verdadeiramente numa morte por overdose ou na triste figura de uma pessoa sorridente e suja na sarjeta. 

Diz Santo Agostinho:

“Se alguém me perguntasse, se preferia andar alegre ou perturbado, responderia: andar alegre. Se, porém, de novo, me interrogasse se antes queria ser como o ébrio ou como eu era, escolheria viver acabrunhado por cuidados e temores. (…) Afastem-se, pois, da minha alma, os que lhe brandam: o importa é que haja motivo para alegria.”

Em resumo, leia Santo Agostinho – sendo você católico ou não

A figura monumental de Santo Agostinho perdura como uma síntese viva da interseção entre teologia e filosofia, e razão. Sua influência transcende as fronteiras do tempo e das tradições religiosas, ecoando por séculos como um farol intelectual que ilumina a busca pela compreensão profunda da verdade e da existência humana.

Agostinho de Hipona, através de suas “Confissões”, não apenas proporcionou um vislumbre penetrante de sua própria jornada espiritual, mas também lançou sementes que germinaram nas mentes de pensadores subsequentes, enriquecendo o panorama filosófico e teológico.

Seu legado permanece como um convite à exploração das complexidades do ser humano, da relação entre tempo e eternidade, da conexão entre o finito e o infinito, e da interplay constante entre razão e fé. Em sua busca por Deus e pela verdade, Agostinho nos lembra que a jornada do conhecimento é uma busca contínua e infindável, uma jornada que continua a nos desafiar a mergulhar nas profundezas do pensamento e da espiritualidade.

Confissões - Santo Agostinho

Confissões de Santo Agostinho

Redigido no século IV, entre Antiguidade e Idade Média, as Confissões de Agostinho de Hipona são ainda hoje um livro surpreendente. Por um lado, pela densidade poética e pela originalidade da escrita, e por inaugurar o gênero da autobiografia como história da formação de uma personalidade, elas representam um marco único na história da literatura ocidental. Por outro, Agostinho elabora nelas uma nova maneira de fazer filosofia, estranha à tradição antiga, por ser baseada não apenas em conceitos abstratos e deduções, mas sobretudo na observação fina dos movimentos psicológicos, das motivações interiores e do significado de pequenos fatos e gestos cotidianos. O resultado é uma leitura incontornável para todos os que se interessam por filosofia, história ou religião.

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