O Peso da Graça

A decadência, para René Guénon, consiste no afastamento progressivo dos princípios espirituais, que ele associa a uma suposta perfeição do incorpóreo e do imaterial.

Segundo sua visão, a humanidade decaiu do espírito à matéria.

Em um primeiro momento, teríamos vivido na era hiperbórea — correspondente, na cosmologia hindu, ao Satya Yuga ou Idade do Ouro (também presente em outras tradições) — uma humanidade primordial, polar, essencialmente espiritual, ainda não materializada.

Posteriormente, a humanidade teria experimentado uma crescente materialização durante os períodos pré-atlantes ou lemurianos, associados à Idade do Bronze (ou, no hinduísmo, ao Treta Yuga).

Em seguida, surgiria a civilização da Atlântida — correspondente ao Dvapara Yuga, já fortemente materializada, embora ainda depositária de uma grande tradição espiritual.

Essa humanidade teria sido varrida (biblicamente, pelo dilúvio). E, após ela, surgiria uma era ainda mais decaída: a nossa, correspondente à Idade do Ferro ou Kali Yuga — marcada por um estado de extrema dissolução espiritual.

O que Guénon propõe não é exatamente uma novidade dentro da própria noção de religião. A própria etimologia do termo — re-ligare — sugere que a experiência religiosa parte do princípio de uma desconexão, de um afastamento de algo superior que, em algum momento, esteve mais próximo.

O problema da visão guenoniana, no entanto, está em sua concepção onde a decadência implica também em uma densificação literal — um “peso” crescente. A espiritualidade se degradaria no tangível e, sem nenhuma sutileza, seria puxado pela gravidade.

Nenhuma doutrina, talvez, subverta tanto essa lógica quanto o Cristianismo.

Cristo rompe com a ideia de que a perfeição divina está necessariamente vinculada ao etéreo, ao inalcançável, ao intocável. O símbolo central do Cristianismo é, paradoxalmente, um símbolo de peso: a cruz. E a matéria — o corpo de Cristo, seu sangue, sua presença física — é elevada ao estatuto de manifestação plena de Deus.

O ventre da mulher, símbolo ctônico por excelência, é santificado no ventre de Maria (Theotokos), que se torna a projeção perfeita do Templo. A encarnação não é um tropeço ou uma queda — é o próprio mistério da salvação.

Como bem observado no excelente artigo O Sentido Espiritual da Modernidade:

“O Cristianismo, muito se diz, jamais negou a matéria. Pelo contrário: abraça a matéria até o ponto de elevá-la a uma nova realidade — nova, mas ainda fundamentalmente material, como é o caso do corpo glorioso com que Cristo, após seu período na Terra, ascende aos Céus.”

O Cristianismo também desfaz as fronteiras tradicionais entre o exotérico e o esotérico. Em vez de separá-los, os unifica sem diluí-los. Essa unificação, que Jean Borella associa ao “rasgar do véu”, aparece também na concepção trinitária de Deus: uma divindade que não é simplesmente uma nem múltipla, mas una e trina, rompendo com categorias simples de monoteísmo ou politeísmo.

Em suma, René Guénon nos oferece uma narrativa poderosa e sedutora sobre a queda espiritual da humanidade — um mito necessário para entender muitos aspectos das tradições esotéricas. No entanto, o Cristianismo apresenta uma resposta ousada a essa narrativa: não a fuga da matéria, mas sua redenção.

O peso da carne, longe de ser um sinal de corrupção, torna-se o meio pelo qual Deus se manifesta. A cruz, pesada e terrestre, torna-se ponte para o celeste. Na lógica cristã, não é preciso retornar ao imaterial para encontrar o divino — é preciso apenas reconhecer que o sagrado se fez corpo, e que o corpo pode, também, tornar-se sagrado.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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