Não me canso de me impressionar com as inúmeras semelhanças entre os mitos cosmogônicos ao redor do mundo. Há uma fascinante convergência de símbolos e narrativas, que variam apenas em alguns poucos elementos.
Mircea Eliade, em seu livro História das Crenças e das Ideias Religiosas, no segundo volume, começa a tratar da religião na China desde o Neolítico. Em determinado trecho, ele menciona os mitos de origem e ordenação do mundo.
Segundo o autor, os deuses chineses foram evemerizados e secularizados ao longo dos séculos, e a religião chinesa passou a se caracterizar pela naturalização do sagrado. No entanto, em épocas muito anteriores — milenarmente anteriores — predominava uma narrativa composta por deuses, raças ancestrais, heróis, lugares sagrados e planos superiores, como em qualquer outra tradição religiosa.
Podemos deduzir que os mitos cosmogônicos chineses mais antigos foram, possivelmente, heranças de origens estrangeiras ou partilhavam de um entendimento comum.
Temos, por exemplo, o mito do gigante primordial que foi despedaçado: P’an-ku.
P’an-ku teria sido o primeiro ser vivo e a origem de toda existência distinta, segundo a versão mais conhecida do mito. A forma mais antiga registrada desse mito data do século III, no Sanwu Liji (“Registros Históricos das Três Divindades Soberanas e Cinco Deuses”), compilado por Xu Zheng — embora, evidentemente, se trate de uma sistematização tardia de tradições orais muito mais remotas.
Conforme essa versão, ao morrer, P’an-ku teve sua cabeça transformada em um pico sagrado; seus olhos, no Sol e na Lua; sua gordura, nos rios e mares; e seus pelos e cabelos, nas árvores e vegetação.
Há uma correspondência direta entre P’an-ku e outros mitos fundacionais, como o do gigante Purusha na Índia, Tiamat na Mesopotâmia, e Ymir na tradição nórdica. Todos esses mitos compartilham a estrutura narrativa do sacrifício de um ser primordial, cujo corpo despedaçado dá origem ao mundo material.
Outro tema cosmogônico chinês com paralelos em outras culturas é o da separação entre o Céu e a Terra. O ato criador coincidir com um ato de separação é algo que também aparece no Gênesis bíblico, com a divisão das águas superiores e inferiores, e em mitologias como a tupi-guarani (a criação do dia pela separação da noite) e a japonesa, nas lendas de Tsukuyomi e Amaterasu.
Na tradição chinesa, esse mito está associado a Huang-ti, o Imperador Amarelo — um dos Três Augustos, reis lendários que teriam governado a China antes da Dinastia Xia. Segundo a narrativa, Huang-ti incumbiu seu subordinado, Tch’ong-li, de cortar a comunicação entre o Céu e a Terra, com o objetivo de interromper tanto as descidas dos deuses quanto a ascensão dos humanos aos planos superiores. A partir de então, apenas indivíduos especiais — xamãs, místicos, heróis ou soberanos — seriam capazes de acessar o mundo celeste. Há, no entanto, discussões sobre essa ruptura ter sido intencional ou fruto de um “erro ritual”.
Esse mito expressa o tema recorrente de um plano superior acessível apenas por graça, santidade ou méritos heroicos, evocando a nostalgia de um paraíso perdido e a ideia de um estado original de unidade — a huen-tuen — do qual caímos e ao qual desejamos retornar.
O terceiro mito mencionado por Eliade é, para mim, o mais complexo: trata-se do mito de Fu-hui e Niu-kua, irmãos com corpos de dragão, frequentemente representados enlaçados pelas caudas. Por ocasião de um dilúvio — talvez o tema mais recorrente na história das religiões —, Niu-kua “reparou o Céu com pedras de cinco cores, cortou as patas de uma grande tartaruga para erguer os quatro pilares nos polos do mundo, matou o dragão negro Kong-kong para salvar a Terra e amontoou cinzas de junco para conter as águas transbordadas”.
Nessa narrativa, vemos elementos cosmogônicos misturados com a clássica estrutura de uma epopeia heroica, protagonizada por um demiurgo civilizador que combate monstros e estabiliza a ordem do mundo. Além disso, é Niu-kua quem cria os seres humanos: ela molda os nobres com terra amarela e os pobres com lama — uma distinção simbólica também presente em outras mitologias, como a grega e a judaico-cristã, embora nesta última a criação seja atribuída ao próprio Deus.
Há ainda um elemento cosmogônico na tradição historicizada de Yu, o Grande, outro herói civilizador. Durante seu reinado mítico, “o mundo ainda não estava em ordem; as vastas águas corriam desordenadamente e inundavam a Terra”. Ao contrário de seu pai, Yu “cavou a terra e conduziu as águas aos mares, perseguiu serpentes e dragões, confinando-os nos pântanos”.
Yu não apenas molda a geografia do mundo, como também afasta as forças do caos para os quatro cantos da Terra, estabelecendo-se em um centro sagrado. A China estaria localizada nesse centro do mundo; a capital, no centro do reino; o palácio imperial, no centro da capital — e no centro do palácio, o axis mundi, a ligação entre Céu e Terra. A partir desse eixo irradiariam as cidades e a própria civilização — uma concepção recorrente nas religiões paleolíticas em diferentes culturas.
Em suma, não desejo advogar por um perenialismo vulgar ou uma unidade essencial forçada entre as religiões — não quero incorrer nos equívocos teosóficos. Mas não consigo deixar de me fascinar com as rimas cósmicas dos mitos.