Uns Braços, de Machado de Assis

Uns Braços é um conto de Machado de Assis publicado originalmente em 1885, na Gazeta de Notícias, e posteriormente incluído no livro Várias Histórias, de 1896.

A crítica costuma situar a obra na fase realista do autor, classificação que se tornou convencional em sua trajetória literária, embora eu discorde dessa divisão.

O tema central do conto é o despertar do desejo sexual na adolescência e os conflitos psicológicos que acompanham essa descoberta.

A história se passa no Rio de Janeiro, na Rua da Lapa, por volta de 1870. Acompanhamos Inácio, um jovem de 15 anos, tímido e sonhador, que trabalha como copista para Borges, um solicitador.

Longe da família e vivendo sob a autoridade do patrão, o rapaz encontra refúgio em uma paixão platônica por Dona Severina.

Dona Severina é companheira de Borges. Aos 27 anos, sente-se solitária e pouco amada pelo marido. Ela percebe o interesse de Inácio e se sente lisonjeada por sua admiração, embora procure reprimir as demonstrações mais visíveis de contentamento e preservar as aparências.

Severina é a dona dos braços que dão título ao conto. Eles são o principal objeto de fascínio do adolescente, que os observa sempre que pode e passa a sonhar com eles.

O hábito da mulher de andar pela casa com os braços nus, usando mangas curtas, cria uma atmosfera sensual de intimidade.

A atração de Inácio por Severina é tão intensa que ele aceita suportar Borges, seu patrão autoritário e severo, apenas para permanecer próximo dela (e seus braços).

Borges, companheiro de Severina, por sua vez, permanece alheio às tensões e aos desejos que se desenvolvem dentro de sua própria casa.

O conto é narrado em terceira pessoa, por um narrador onisciente que revela os sentimentos, as fantasias e os desejos reprimidos dos personagens.

Há uma dimensão francamente fetichista na narrativa. Emprego o termo no sentido de atribuir potência erótica a partes do corpo ou a objetos que não são necessariamente considerados zonas erógenas. No caso de Inácio, os braços de Severina tornam-se o foco de uma atração que ele ainda não sabe compreender ou expressar.

Essa obsessão também se manifesta nos sonhos do rapaz, especialmente em um deles, no qual Severina se aproxima e o beija na boca.

Nesse caso, porém, o que Inácio imagina durante o sono acaba se concretizando na realidade: tomada pela curiosidade e pelo desejo, Severina se aproxima e beija o adolescente enquanto ele dorme.

Depois do beijo, a mulher é tomada pelo remorso e muda radicalmente de comportamento. Passa a cobrir os braços com um xale, como se procurasse ocultar aquilo que havia despertado a atenção do rapaz, e começa a tratar Inácio com extrema rispidez. O gesto sugere que ela reconhece, ainda que implicitamente, a carga erótica que aqueles braços adquiriram na relação entre os dois.

Pouco tempo depois, Borges dispensa o rapaz e o manda de volta para a casa do pai, sem jamais desconfiar do que aconteceu.

Inácio parte convencido de que o beijo foi apenas um sonho. A experiência, entretanto, permanece em sua memória. O conto termina revelando que, mesmo depois de adulto e de conhecer outros amores, ele nunca esqueceu aquela experiência ambígua da adolescência.

Machado constrói, assim, uma narrativa sobre o despertar do desejo, a força da imaginação e a maneira como uma experiência breve, vivida entre o sonho e a realidade, pode permanecer na memória por toda a vida.

No entanto, acredito que a grande joia deste conto se encontra na personagem Severina.

Severina, que rompe as comportas do próprio recato e se entrega a uma volúpia secreta, ainda que por um breve instante, é amada e temida.

Amada como mulher, temida como companheira de outro homem, que também é seu patrão.

Sua personagem, entretanto, sugere uma vida interior muito mais complexa e, sobretudo, ambígua.

É no momento do beijo que essa ambiguidade transborda. Severina contempla Inácio enquanto ele dorme e chega a considerá-lo uma criança. Ainda assim, beija-o como se fosse um amante.

Severina vive maritalmente com o solicitador, mas não é formalmente casada com ele. Não tem filhos, e a relação sem descendentes a coloca em uma posição peculiar: a de uma mulher cuja existência parece restrita ao governo doméstico e à satisfação dos prazeres do companheiro.

Essa condição a coloca em uma espécie de limbo. Ela não é mãe, mas também não ocupa a posição de uma mulher solteira. Não encontra realização na maternidade nem parece encontrar no relacionamento conjugal uma vida afetiva plena.

Por isso, ao beijar Inácio, Severina parece beijá-lo simultaneamente como mãe e como amante.

A ambiguidade se estende ao próprio ato. Até mesmo as circunstâncias do beijo são ambíguas.

Parece particularmente importante que ele aconteça numa fusão instantânea entre sonho e realidade. Machado de Assis faz com que os dois personagens, a dona dos braços, desperta, e o dono do buço, adormecido, se encontrem em uma espécie de interseção entre seus respectivos estados de consciência.

Tanto a dona quanto o moço se amam, momentaneamente, através da parede translúcida da vigília que os separa.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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