A pandemia de Covid-19 inegavelmente se tornou um ponto de referência em nossa história recente.

É sempre curioso, para mim, revisitar o que foi produzido em termos de arte durante aquela época traumática, marcada por tragédias pessoais, humanitárias e políticas.

Spirit Exit, da compositora Caterina Barbieri, é um dos produtos desse período.

O álbum foi totalmente composto, gravado e produzido de forma isolada ao longo de dois meses, durante o severo lockdown da pandemia de Covid-19, em 2020, na cidade de Milão.

Por causa disso, o disco é considerado um dos trabalhos mais pessoais, melancólicos e espirituais da carreira de Caterina Barbieri.

É bastante significativo que um trabalho surgido de um confinamento tenha sido batizado de Spirit Exit. A “saída”, o “estar lá fora”, nunca pareceu tão sagrado.

Por falar em sagrado, o trabalho une conceitualmente tecnologia e misticismo, inspirando-se em visões de santas e poetisas da literatura mística.

Segundo a própria Caterina, o disco foi inspirado pelo misticismo católico de O Castelo Interior, de Santa Teresa de Ávila, pelas teorias pós-humanistas de Rosi Braidotti e pela poesia metafísica de Emily Dickinson.

Musicalmente, o álbum transita, como de costume na obra da artista, entre a música eletrônica experimental, o ambient e o drone.

Além de seus característicos arpejos espiralados, tensos e hipnóticos, o álbum incorpora novos elementos ao vocabulário sonoro da artista, fundindo vozes, texturas de guitarra clássica e inteligência artificial.

Não vou falar de uma faixa específica, pois acredito que esse tipo de trabalho merece ser escutado continuamente como uma única peça.

É interessante notar que as influências intelectuais de Barbieri possuem textura e, de certa forma, estão presentes na própria matéria sonora do disco.

Nas moradas de O Castelo Interior, de Santa Teresa de Ávila, a alma humana é descrita como um castelo feito de diamante ou cristal puro, contendo sete moradas, ou câmaras, onde o objetivo do místico é viajar para o centro mais profundo de si mesmo para se unir ao divino.

Essa imagem evoca uma textura extremamente lisa, fria, rígida e vítrea. Caterina aproveita essa estrutura para reproduzir eletronicamente um belíssimo tinir, ressonante e prolongado.

As teorias pós-humanistas de Rosi Braidotti, também mencionadas como influência, propõem uma mudança radical na forma como entendemos a nós mesmos, o mundo e a tecnologia.

Quase como um contraponto, ou mesmo uma antítese, ao que é proposto pela orientação cristã de Santa Teresa, Braidotti defende que o homem não seja visto como o topo da criação, mas apenas como parte de uma teia interconectada e híbrida que inclui animais, plantas e máquinas. Trata-se de uma subjetividade nômade, trans-humanista e marcada por identidades fluidas.

Isso se reflete musicalmente nos aspectos simultaneamente tecnológicos e orgânicos de sua música. Suas composições misturam, sem nenhum constrangimento, ideias associadas à inteligência artificial, que funciona aqui como uma espécie de inteligência coletiva “algoritmizada”. Caterina realmente abraça essa ideia.

Por fim, a poesia metafísica de Emily Dickinson moldou a atmosfera mais sombria do disco.

Dickinson passou grande parte de sua vida adulta isolada em seu quarto, na casa da família, em Amherst, Massachusetts. Foi dessa reclusão física que ela extraiu poemas de escala cósmica, que lidavam com o infinito, a mortalidade, a divindade e a alma.

Caterina experimentou esse isolamento durante o lockdown e procurou se conectar tanto com ele quanto com essa projeção cósmica que parece ter surgido dele.

Apesar de serem autoras bastante diferentes, e até contraditórias entre si em muitos aspectos, Caterina tenta uni-las justamente por aquilo que possuem em comum.

Segundo uma entrevista concedida por ela à National Public Radio (NPR), “como essas mulheres não podiam se mover livremente no mundo exterior, elas ansiavam por liberdade em seus próprios mundos interiores. Elas redirecionaram sua energia para a cultivação de uma obra cósmica, quase de ficção científica”.

Em suma, talvez seja um dos melhores discos de Caterina Barbieri. É um trabalho densamente filosófico e refinado, sem precisar dizer uma única palavra.

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