A primeira grande criação da religião não tenha sido um deus, mas o próprio homem capaz de reconhecer o sagrado no ordinário
Mircea Eliade, em um dos últimos capítulos de Mito e Realidade, diz que, nos níveis mais arcaicos da cultura, foi a religião que abriu o humano para o mundo “sobre-humano” e estabeleceu a noção dos valores absolutos e axiológicos, que se tornariam paradigmas de todas as atividades humanas relevantes.
Ao terminar essa leitura, é quase impossível não pensar que foi a religião que, em algum sentido fundamental, fez do homem um “ser”. Não apenas porque lhe ofereceu deuses, mitos e rituais, mas porque lhe ensinou a distinguir aquilo que simplesmente acontece daquilo que realmente existe. A partir desse momento, o mundo deixa de ser apenas uma sucessão de acontecimentos e passa a possuir uma estrutura, uma hierarquia, um centro.
Talvez exista aí um dos resíduos religiosos mais persistentes da nossa cultura. Filosofia, política, estética, comportamento, arte, poesia, música e direito podem ter se afastado enormemente das antigas formas religiosas, mas continuam carregando alguma coisa daquele primeiro gesto: a procura por valores que não sejam inteiramente arbitrários, por verdades capazes de orientar a existência e por alguma coisa que possa ser chamada de real.
Segundo Eliade, é no encontro com uma realidade transumana que nasce a ideia de que alguma coisa “existe realmente”. O homem não encontra apenas objetos diante de si. Ele começa a encontrar significados.
Essa articulação entre o transcendente e a realidade ordinária aparece de maneira particularmente evidente no mito. Seu valor apodíctico, isto é, sua pretensão de verdade certa e incontestável, é periodicamente confirmado pelo ritual. O acontecimento primordial não permanece perdido em um passado remoto. Ele é reencenado, lembrado, atualizado.
É como se o homem religioso se recusasse a aceitar que aquilo que foi pudesse simplesmente deixar de ser.
Através da repetição de um gesto paradigmático, alguma coisa se torna novamente presente. O que aconteceu in illo tempore retorna. O tempo profano, cronológico, é interrompido e, por alguns instantes, o homem volta a participar do Tempo sagrado.
Numa Missa, por exemplo, o homem não está simplesmente recordando um acontecimento ocorrido dois mil anos atrás. Ele é levado ao tempo histórico-eternizado de Cristo, da Santa Ceia, da Crucificação e da Ressurreição. O passado deixa de ser passado. A distância entre o acontecimento e aquele que o celebra é ritualmente suspensa.
Existe nisso uma espécie de revolta metafísica contra o próprio Tempo.
O homem não aceita completamente que tudo passe.
A revolta contra a irreversibilidade do Tempo ajuda o homem a construir a realidade e, ao mesmo tempo, liberta-o do peso do Tempo morto. Se o passado pode ser ritualmente recuperado, então talvez a existência não esteja condenada a uma sequência irreversível de perdas. É possível recomeçar. É possível abolir simbolicamente o que foi e reconstruir o mundo.
É por isso que a repetição religiosa nunca é apenas repetição.
Imitar os gestos paradigmáticos dos Deuses, dos Heróis e dos Ancestrais míticos não significa condenar o homem a uma eterna reprodução da mesma coisa. Ao contrário. Como observa Eliade, o homem conquista infatigavelmente o mundo, organiza-o e transforma a paisagem natural em meio cultural. O modelo mítico não paralisa a ação. Ele a torna possível.
Graças ao modelo exemplar revelado pelo mito cosmogônico, o homem se torna, por sua vez, criador.
Imagem e semelhança de Deus.
Por que hesitar diante de uma expedição marítima quando o Herói mítico já atravessou o oceano em um Tempo fabuloso? Basta seguir seu exemplo. Por que temer um território desconhecido e selvagem quando já se sabe, pelo mito, como transformar o Caos em Cosmo? Basta repetir o gesto cosmogônico. O espaço desconhecido deixa de ser apenas uma ameaça e pode finalmente tornar-se uma habitação, uma imago mundi.
O mito dá ao homem uma espécie de mapa para atravessar o desconhecido.
O homem das sociedades nas quais o mito ainda é uma coisa viva habita um mundo aberto, embora cifrado e misterioso. O Mundo fala ao homem. As coisas não são silenciosas.
Para compreendê-las, é preciso conhecer os mitos e decifrar os símbolos.
O sol, a lua, as plantas, os animais, os rios, as pedras, as montanhas, os minérios e as estações deixam de ser simplesmente coisas. Cada um deles possui uma história. Cada um pode carregar uma mensagem. O mundo deixa de ser uma massa opaca de objetos arbitrariamente reunidos e se transforma em um Cosmo articulado e significativo.
Em última análise, o Mundo se revela enquanto linguagem.
Ele fala através de suas estruturas, de seus ritmos, de seus ciclos e de suas aparições. E o homem religioso aprende a escutá-lo.
Mas essa linguagem nunca é completamente literal. O mito não é um manual de instruções sobre o funcionamento do universo. Sua verdade não cabe inteiramente naquilo que está escrito ou narrado. Existe sempre alguma coisa que escapa à formulação direta.
É por isso que a religião se torna mito-poética.
O homem religioso precisa aprender a ler uma poesia antes de aprender a ler o mundo.
Não há como ser místico sem, em alguma medida, ser poeta.
Se o Mundo lhe fala através das estrelas, das plantas, dos animais, dos rios, das pedras, das estações e das noites, o homem responde através dos sonhos, da música, dos versos, dos símbolos e da imaginação. Existe uma reciprocidade estranha nessa relação. Se o Mundo é transparente para o homem, o homem também sente que é visto pelo Mundo.
Talvez seja essa uma das experiências religiosas mais antigas: a sensação de que não estamos simplesmente diante das coisas, mas de que as coisas também estão diante de nós.
A história da religião pode ser lida, nesse sentido, como uma longa história de diálogos entre o homem e o Mundo.
Isso não significa, evidentemente, que esse diálogo tenha produzido necessariamente uma visão bucólica ou bondosa da existência. A religião também foi capaz de produzir horror. Massacres, sacrifícios, canibalismo, extermínios, orgias e rituais macabros foram muitas vezes legitimados pela tentativa de interpretar e ordenar o mundo.
O mito não é uma garantia de bondade.
Também não é, por si só, uma garantia de moral.
Sua função é outra. Ele revela modelos. Organiza o caos. Dá uma origem às coisas. Estabelece relações entre o homem e o cosmos. E, sobretudo, oferece uma significação para aquilo que, sem ele, poderia parecer apenas absurdo.
Talvez seja justamente aí que esteja a importância mais profunda da religião.
Ela não começou apenas respondendo de onde viemos ou para onde vamos. Antes disso, ela ensinou o homem a olhar ao redor e suspeitar que o mundo significava alguma coisa.
Uma pedra deixou de ser apenas uma pedra. Uma montanha passou a ter uma história. Uma árvore podia ser eixo, morada, símbolo. Uma noite podia ser passagem. Uma morte podia não ser simplesmente o fim. Um nascimento podia repetir a própria criação do mundo.
A religião transformou a existência em linguagem.
E talvez muito daquilo que chamamos de cultura tenha nascido desse primeiro aprendizado. A filosofia transformou algumas dessas intuições em conceitos. A arte, em imagens. A poesia, em palavras. A música, em sons. O direito, em princípios. A política, em instituições. Mesmo quando já não reconhecem sua origem, essas atividades parecem conservar alguma coisa daquele antigo desejo de encontrar, por trás da aparência mutável das coisas, uma ordem que não seja arbitrária.
No fundo, talvez a pergunta religiosa nunca tenha desaparecido.
Ela apenas mudou de forma.
O homem continua querendo saber se existe alguma coisa por trás do fluxo, se existe alguma permanência por trás da mudança, alguma verdade por trás da aparência, algum sentido capaz de justificar o fato de estarmos aqui.
Talvez tenha sido esse o grande acontecimento religioso: o momento em que o homem deixou de simplesmente estar no mundo e começou a percebê-lo como um mundo.
E talvez seja por isso que, mesmo depois de tantos séculos, ainda exista alguma coisa profundamente religiosa no ato de olhar para uma estrela, ouvir uma música, contemplar uma obra de arte ou simplesmente caminhar sozinho durante a noite e sentir, por um instante, que o universo não é uma coleção indiferente de coisas, mas alguma coisa que está tentando nos dizer aquilo que ainda não aprendemos a ouvir.