A teogonia órfica como pavimento do cristianismo

A teogonia órfica é muito diferente da teogonia tradicional de Hesíodo. Suas feições são mais místicas, esotéricas e filosóficas, possuindo até mesmo um caráter disciplinador.

Diferentemente de Hesíodo, em que tudo começa com o Caos, na teogonia órfica as entidades primordiais podem ser comparadas a abstrações metafísicas.

Temos aqui o Tempo (Chronos) e a Necessidade (Ananke) como protagonistas da cosmogonia órfica.

No “começo primordial”, havia o Éter e o Caos.

Chronos, em meio a tudo isso, molda um Ovo Cósmico de prata, algo que, acredito, possui algum parentesco simbólico com o Hiranyagarbha, o “Embrião de Ouro” do Rig Veda.

Quando esse ovo se rompe, nasce a divindade primordial (protogenos) do orfismo: Fanes (ou Eros).

Fanes é o “deus da luz”, o “Primeiro Nascido”. É um ser andrógino, dotado de asas de ouro, que carrega em si as sementes de todas as coisas e dos deuses futuros.

Ao romper-se, a casca superior do ovo forma o Céu (Urano), enquanto a inferior forma a Terra (Gaia).

Fanes, depois de nascer, inicia o ciclo de procriação.

A manifestação da luz primeva de Fanes projeta, por consequência, a primeira grande sombra do universo: a Noite (Nyx).

Entende-se, então, que a Noite é filha de Fanes, quase como uma relação lógica. As sombras existem em razão da presença da luz.

Percebe-se aqui uma diferença radical em relação à mitologia grega tradicional, na qual Nyx nascia diretamente do Caos primordial.

Vemos, portanto, uma ideia mais direta de relação entre causas e consequências.

Veja que tudo na religião órfica parece obedecer a um caminho de ordem e hierarquia.

Na época em que essas ideias se desenvolveram, período que costumamos associar à chamada “Era Axial”, a humanidade passou a examinar as velhas tradições míticas em busca de explicações mais profundas sobre a existência, revisando muitas das convicções que até então possuía.

Quando disse, no começo, que a teogonia órfica tinha um caráter disciplinador, era disso que estava falando.

É interessante observar como isso se reflete no próprio culto.

No mundo grego, os órgia dionisíacos, muito mais antigos que os cultos órficos, buscavam uma união entre o divino e o humano por meio do enthousiasmos, isto é, da experiência de ter o deus Dionísio dentro de si, e do ekstasis, o “sair de si mesmo”.

O método, como sabemos, consistia em rituais noturnos, frequentemente realizados em ambientes naturais, acompanhados por danças frenéticas, música repetitiva, consumo de vinho e sacrifícios de animais.

A fusão com o divino acontecia pelo excesso, pela quebra temporária das barreiras entre o humano, a natureza e o deus.

Os órficos, por sua vez, embora aceitassem a dimensão báquica da experiência religiosa, substituíram a lógica do excesso pela kátharsis, uma técnica de purificação baseada em regras rígidas de ascetismo.

Eles rejeitaram a violência e o descontrole físico associados aos rituais dionisíacos tradicionais, valorizando a ordem, a harmonia, a pureza e a clareza mental.

Na perspectiva dionisíaca, se o universo nasceu do caos selvagem, a quebra das regras e o transe dionisíaco podem ser compreendidos como formas de retorno à “verdade primordial” da natureza.

Na perspectiva órfica, por outro lado, o homem deve viver em ascese, harmonia e pureza para refletir a ordem que se encontra no topo da hierarquia cósmica.

Isso teve um grande impacto, positivo e negativo, no pensamento ocidental e na própria origem da filosofia.

O orfismo foi um dos movimentos religiosos da Grécia que mais radicalmente questionaram a lógica tradicional dos sacrifícios cruentos.

Tal recusa traduzia também a decisão de se afastar de certos valores da cidade e, em última análise, de “renunciar ao mundo”.

Podemos arriscar dizer que o orfismo pavimentou, em alguma medida, o caminho do cristianismo no mundo greco-romano, sobretudo por meio da posterior mediação platônica.

A recusa em participar integralmente da religião oficial da cidade (pólis) e a opção pelo ascetismo criaram um modelo de espiritualidade que o cristianismo mais tarde absorveria e universalizaria.

Acredito que faz sentido pensar que o orfismo tenha pavimentado parte do caminho para o cristianismo especialmente por sua própria cosmogonia, marcada pela recusa de um “acaso cosmológico”: a ideia de que o caos seria capaz de gerar espontaneamente a ordem, de que dele brotariam entidades por uma espécie de parturição cega e aleatória.

No pensamento órfico, ao contrário, o cosmos parece obedecer desde sua origem a uma lógica de geração, hierarquia, ordenação e purificação. O universo não é apenas algo que acontece: ele se estrutura segundo uma ordem que, de alguma maneira, também deve ser refletida na própria vida humana.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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