O quotidiano infinito, sombrio e mofado em Rabbits (2002, David Lynch)

David Lynch transforma a rotina, a repetição e a incomunicabilidade em um pesadelo doméstico onde o familiar lentamente perde o sentido.

Rabbits (2002) é uma série experimental de oito curtas-metragens escrita e dirigida por David Lynch. Se assistida como um único filme, a obra teria aproximadamente cinquenta minutos.

É muito difícil para mim resumir o que são esses cinquenta minutos, especialmente para alguém que não é iniciado no universo de David Lynch.

Bem, primeiro, o filme praticamente não tem um enredo, mas uma situação.

Temos Jack, Jane e Suzie, três personagens interpretados por Scott Coffey, Laura Elena Harring e Naomi Watts, que aparecem fantasiados de coelhos em uma sala escura, de aparência mofada.

Os personagens aparentemente conversam entre si, mas não existe diálogo. Há apenas monólogos que se cruzam. Enquanto um comenta sobre a chuva que cai lá fora, outro responde algo completamente desconexo. Um deles afirma: “Estou descobrindo uma coisa”; minutos depois, outro simplesmente diz: “Era meia-noite”.

Não há continuidade, reação ou desenvolvimento. As falas parecem peças de um quebra-cabeça espalhadas aleatoriamente sobre uma mesa.

Os personagens estão presos em uma dinâmica profundamente solipsista e são incapazes de estabelecer qualquer comunicação efetiva. Cada um parece existir em um universo próprio, voltado para as próprias frases, ignorando completamente a fala do outro.

Para quem está acostumado com Lynch, é possível identificar nessa situação uma semelhança com as falas crípticas e desencontradas da Red Room de Twin Peaks.

O que Twin Peaks e Rabbits apresentam em comum é a sensação claustrofóbica de estar preso em um lugar que vagamente lembra um cômodo de uma casa, ao mesmo tempo que vagamente lembra um palco de teatro ou um set de filmagem.

Essa desconexão é reforçada por toda a linguagem audiovisual, intencionalmente calibrada para causar uma sensação de ambiguidade. A iluminação baixa faz com que os corpos dos coelhos frequentemente se confundam com as sombras do ambiente, assim como a casa e o palco se confundem.

A ambiguidade também é reforçada pela trilha de risadas que invade as cenas. Essas risadas, típicas das sitcoms americanas, surgem, vez ou outra, em momentos completamente inadequados. Elas parecem não estar reagindo a piadas, pois não há piadas aqui, mas às perguntas sem resposta e às observações enigmáticas. Ou talvez sejam simplesmente demarcadores aleatórios mesmo.

Lynch transforma um dos formatos mais familiares da televisão em algo inquietante, produzindo uma sensação constante de deslocamento.

Para mim, a intenção é fazer o espectador passar a habitar uma espécie de vazio hermenêutico, um espaço onde nenhuma interpretação consegue se estabilizar. Talvez Rabbits seja uma das representações mais puras do chamado vale da estranheza.

Além de toda essa dimensão estética, Rabbits, para mim, também funciona como uma poderosa metáfora da rotina cotidiana e da distorção da normalidade, algo presente em David Lynch desde o seu primeiro filme, Eraserhead.

Vemos que o personagem Jack, aqui, assume a figura do trabalhador que sai e retorna para casa. Suzie, por sua vez, permanece o tempo inteiro passando roupa na mesma peça, como se estivesse aprisionada em um gesto infinito. Outra personagem passa quase todo o tempo no sofá, como se estivesse sempre esperando alguma coisa. O cenário minimalista e sufocante reforça essa sensação de repetição e até sugere uma espécie de eternidade.

Percebam o quão estranhamente familiar é ver que todos parecem condenados a desempenhar papéis cujo significado jamais é questionado, apenas repetido.

É justamente aí que reside, na minha opinião, uma das maiores forças da obra. Ao representar o cotidiano de forma absurda, Lynch não cria um universo estranho, mas revela a estranheza que já existe no próprio cotidiano. Aquilo que normalmente percebemos como banal passa a adquirir uma dimensão ameaçadora. O comum torna-se ominoso.

O absurdo em Rabbits parece nascer do confronto entre a necessidade humana de encontrar sentido e aquilo que Albert Camus, autor que considero interessante, embora tenha muitas ressalvas, chamou de “o silêncio irracional do mundo”.

Rabbits parece materializar esteticamente esse “silêncio irracional”, marcado pela percepção de que o mundo não oferece respostas definitivas às nossas perguntas.

A narrativa jamais produz momentum dramático. As perguntas permanecem sem resposta. As observações não levam a lugar algum. Os elementos teatrais da obra, como a cortina que se abre no início dos episódios, lembram constantemente ao espectador que ele está diante de uma representação.

No entanto, todos os personagens estão lá, atuando, repetindo seus gestos, indo e voltando.

A obra recusa qualquer resolução catártica ou explicação definitiva. Em vez disso, convida o espectador a permanecer dentro de sua estranheza, habitando um universo onde a lógica cotidiana se dissolve e  se confunde nas sombras e no mofo.

Não acredito que Lynch assuma exatamente a mesma posição de Camus, isto é, que veja o mundo como inerentemente destituído de sentido. Acredito que Lynch apenas mostre que nossa experiência da realidade é constantemente atravessada por lapsos de absurdo.

Rabbits não tenta explicar o absurdo, mas convida você a experimentá-lo durante cinquenta minutos.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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