Existem teorias surpreendentes na história — e uma delas é esta: o Hip Hop nasceu no Japão.

Não é uma tese minha, e nem digo que a defendo. Ninguém menos que o padrinho do gênero, Afrika Bambaataa — o primeiro a usar o termo e a estabelecer as bases técnicas e artísticas do Hip Hop — atribui ao Yellow Magic Orchestra um papel pioneiro na criação do movimento (ou de parte significativa dele). Ainda que essa percepção não tenha sido aceita pela comunidade — que queria estabelecer um elemento étnico puro, evocando as origens unicamente na periferia de Nova York e na cultura sound system da Jamaica.

É ponto pacífico, no entanto, que a cultura da mixagem só se tornou possível devido ao desenvolvimento dos sintetizadores e samplers no Japão ao longo da década de 1970 — e o Yellow Magic Orchestra foi um dos inauguradores dessa nova tecnologia. É fato também que eles fizeram muito sucesso nas periferias dos Estados Unidos e, em especial, na comunidade negra.

Há um artigo interessante sobre isso, escrito por Chuck Clenney para a Undermain Magazine, intitulado Did Japan Invent Hip-Hop?, em que essa comunicação entre Tóquio e Nova York é explicada com mais detalhes.

Há algo muito interessante nas comunidades negras dos Estados Unidos, especialmente nos anos 1980, que é um gosto orientalizado.

Essa mistura de cultura negra e asiática se manifestava tanto em músicas como Kung Fu Fighting, de Carl Douglas, quanto em desenhos infantis como As Tartarugas Ninja.

Normalmente, restaurantes chineses e arcades faziam parte da rotina das crianças do Bronx — e isso, obviamente, criou um imaginário asiático nessas pessoas.

Não citei os arcades à toa.

O Yellow Magic Orchestra foi fortemente influenciado pelas trilhas de videogames e, em contrapartida, influenciou profundamente a sonoridade dos próprios jogos.

No primeiro disco, lançado em 1978, há o uso experimental dos sons dos jogos Circus e Space Invaders em duas faixas intituladas Computer Game. Ambas foram concebidas para soar como se os dois jogos estivessem sendo jogados na mesma sala.

Além da criatividade, a quantidade de técnicas e equipamentos utilizados aqui é impressionante: sequenciadores, sintetizadores analógicos e polifônicos, monossintetizadores, baterias eletrônicas — além de piano elétrico e baixo. Todo esse arsenal de equipamentos e técnicas influenciou o som dos videogames nos anos seguintes.

Podemos dizer que o videogame e o Yellow Magic Orchestra tiveram uma influência recíproca — e que ambos influenciaram os guetos americanos, criando uma sinergia bastante curiosa.

O primeiro disco da banda foi concebido como um projeto único para o produtor e baixista Haruomi Hosono e os dois músicos de estúdio que ele havia contratado: o baterista Yukihiro Takahashi e o tecladista Ryuichi Sakamoto, que viria a se tornar uma das vozes mais proeminentes do grupo — e um dos caras mais legais e divertidos da história da música.

Há muitos comentários sobre o orientalismo na concepção do grupo, que vão desde o nome (o “Yellow” se refere jocosamente aos japoneses) até as composições.

Neste primeiro disco, há uma versão da melodia exótica de Martin Denny, Firecracker (1959), em uma releitura eletrônica que funciona como uma subversão da exotização exagerada presente na música original. Junto a ela, o álbum apresenta diversas composições autorais que também exploram temas como a asianidade — mas sob uma perspectiva japonesa.

Mas não ache que se trata de uma crítica amarga ou agressiva. Não é um choro. Ao contrário, há um tom de riso e deboche: em entrevistas, os integrantes descreviam sua música como alegre, libertadora, “fofinha”, levemente excêntrica e caricaturalmente étnica. Eles não apenas não se incomodavam com os estereótipos — como faziam questão de reforçá-los.

A explicação de Magical Orchestra é ainda mais interessante — especialmente para mim, que me interesso muito por temas místicos e religiosos.

Em entrevista ao The Guardian entituladaBack to the Future”, Sakamoto afirmou que o Yellow Magic Orchestra é, na verdade, mais tradicional do que parece.

Tanto ele quanto Haruomi Hosono sempre demonstraram uma obsessão pela identidade cultural japonesa.

Pode parecer estranho que uma banda com um som completamente eletrônico, repleto de blips e blops, seja tradicional — mas os argumentos deles me convenceram. Algo semelhante eu costumo comentar a respeito do álbum Autobahn, do Kraftwerk.

Segundo Sakamoto, o Japão era, originalmente, uma sociedade profundamente animista, antes da consolidação do “imperialismo xintoísta”, ou do chamado “xintoísmo moderno”.

E, embora esse sistema tenha alterado muitos aspectos da cultura, grande parte dos japoneses ainda preserva essa sensibilidade animista — algo perceptível na forma como se relacionam com ferramentas, inclusive as eletrônicas.

Para ele, o animismo japonês se manifesta como um intercâmbio sutil entre a alma e o objeto: ao compor, uma parte de si é transferida para aquilo que se cria — seja um teclado, uma música ou um sintetizador.

Ama-se o objeto não por sua utilidade, mas porque ele se torna um repositório de parte da alma.

Essa relação entre objeto e alma é, para Sakamoto, a essência original do xintoísmo — e o Yellow Magic Orchestra seria uma tentativa de reatar com essa ideia.

Em suma: experimental, criativo, divertido, importante e curiosamente místico — este é um disco obrigatório. Um daqueles que, sem protestos, deveria estar em qualquer lista de “Discos para ouvir antes de morrer”. Se você ainda não o colocou na sua playlist, você está errado.

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