“My Back Was a Bridge for You to Cross” é o quinto álbum de estúdio de “Anohni and the Johnsons” e o primeiro que ouço.

Foi lançado em 2023 e co-produzido (também co-idealizado) por Jimmy Hogarth.

O álbum aborda diversos temas, como preconceito e convulsão social em “It Must Change”, conservacionismo em “There Wasn’t Enough” e memórias, como em “Sliver of Ice”, inspirada em uma conversa peculiar de Anohni com Lou Reed sobre “a beleza da água congelada”, semanas antes de sua morte em 2013.

O que torna este álbum tão bom é que ele evita experimentações excessivas em favor de um estilo soul mais clássico.

Não que o experimentalismo seja ruim, mas muitas vezes artistas alternativos como Anohni acabam sendo experimentais apenas para sinalizar uma afinidade pretensiosa com uma vanguarda vazia de sentido e efeito.

O soul tradicional, em sua fórmula consagrada, já oferece as ferramentas necessárias de expressão – o que importa para um artista.

Aqui, Anohni busca expressar, entre outras coisas, é sua admiração por Marsha P. Johnson, que figura a capa deste disco (e também o nome da banda).

Johnson foi uma figura proeminente na Rebelião de Stonewall em 1969 e é considerada um símbolo dos direitos LGBT. Foi presa diversas vezes e sua história foi o centro de discussões que buscavam decantar da sociedade americana (especialmente da polícia) onde se institucionalizava o preconceito e o que era, de fato, uma infração que precisava ser contida em favor da ordem e da segurança pública. Essa discussão é levantada porque se sabe que nem todas as prisões de Johnson foram justas, mas nem todas foram injustas. Ela foi diagnosticada com esquizofrenia, tratada com antipsicóticos pesados e era conhecida por ser violenta – inclusive por outras pessoas do seu meio.

A relação de Anohni com Johnson remonta ao tempo em que estudava teatro experimental na Universidade de Nova York e conheceu Johnson no verão de 1992, pouco antes de ela ser encontrada morta no rio Hudson. Desde então, Anohni considera Johnson um “guia espiritual” e nomeou sua banda em sua homenagem.

A sociedade americana é crua e constantemente testada em seus princípios e é justamente o lado sonoramente mais cru de Anohni onde ele consegue ser mais abrasivo, brutalmente honesto e significativo.

Sem efeitos de reverberação, processamento vocal ou floreios de produção, o disco se alinha com a tradição da música espiritual e de protesto americana, em um lugar muito específico no centro de uma encruzilhada entre o folk, o soul, o blues e o gospel.

Em suma, excelente disco.

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