Grounding in Numbers é o décimo primeiro álbum de estúdio do Van der Graaf Generator, lançado em 14 de março de 2011.

A data não foi escolhida por acaso. O 14 de março, ou 3/14 no formato americano, remete aos primeiros dígitos do número π e antecipa o eixo matemático que atravessa quase todo o álbum.

A matemática costuma ser associada à ordem, à clareza e à promessa de respostas definitivas. Grounding in Numbers parte dessa imagem para colocá-la em confronto com a experiência concreta da vida, que raramente segue a previsibilidade de uma equação simples.

Nas letras, todas assinadas por Peter Hammill, números e fórmulas aparecem como metáforas de controle. São tentativas de organizar sentimentos, conflitos internos e dilemas pessoais como se pudessem ser resolvidos por cálculo. Essa busca pela exatidão, no entanto, se mostra sempre insuficiente. Procura-se precisão, mas o que surge é o desvio, a falha, o imprevisível.

Essa visão dialoga de forma quase acidental com G. K. Chesterton em Ortodoxia, onde ele ironiza a idolatria da exatidão matemática. Chesterton observa que o mundo parece seguir padrões apenas até o ponto em que eles falham. Seu exemplo do corpo humano é revelador: braços, pernas, olhos e ouvidos surgem em pares quase perfeitos, conduzindo a uma dedução lógica. Justamente por isso, a matemática levaria à conclusão de que existem dois corações. É nesse momento, quando a certeza parece total, que ela se desfaz. No fim, há apenas um coração, deslocado à esquerda, rompendo por completo a expectativa de exatidão.

Esse paradoxo entre ordem e desvio, controle e liberdade, se conecta a outro tema recorrente do Van der Graaf Generator: o tempo. Quase todas as faixas do disco lidam, de alguma forma, com a passagem do tempo.

A música de abertura, Your Time Starts Now, deixa isso claro desde o início. O título sugere a existência de um ponto zero, um instante em que a contagem começa. A partir dali, cada segundo aproxima do fim, como se a vida pudesse ser reduzida a um cálculo com prazo definido.

Essa ideia dialoga diretamente com o momento da banda. Em 2011, o simples fato de o Van der Graaf Generator ainda estar ativo já carrega essa consciência. Eles sabem que não são mais os mesmos e não tentam disfarçar o peso dos anos.

Ao mesmo tempo, o título permite uma leitura menos fatalista. Your Time Starts Now também pode ser entendido como um gesto de recomeço. Depois de períodos de interrupção, dizer que “seu tempo começa agora” é reconhecer o desgaste sem se paralisar por ele. O passado não é apagado, mas deixa de ser refúgio. O tempo pesa, mas ainda abre espaço para seguir adiante.

Mathematics é o coração conceitual de Grounding in Numbers. De forma deliberadamente críptica, a faixa vai direto ao centro da proposta do álbum. A letra menciona a identidade de Euler, equação célebre que reúne constantes fundamentais da matemática e termina, de maneira desconcertante, em zero.

Não é preciso compreender a fórmula para captar sua força simbólica. Elementos absolutos, quando combinados de forma perfeita, não conduzem a uma revelação grandiosa, mas ao zero. Um resultado silencioso, que funciona como metáfora da finitude.

O tom de Mathematics não é de desespero, mas de aceitação. Essa serenidade conceitual, porém, não define o álbum inteiro. Grounding in Numbers alterna esse tipo de reflexão mais contida com momentos de forte tensão e intensidade dramática, nos quais a música se torna urgente, nervosa e até agressiva. É justamente esse contraste que dá peso ao disco e impede que ele se acomode em uma leitura única ou pacificada.

Musicalmente, o álbum é mais direto do que muitos trabalhos antigos da banda. As faixas são curtas, em geral abaixo de quatro minutos. A intensidade permanece, assim como a identidade sonora. Mesmo sem o saxofone de David Jackson, ausente desde Trisector, o som segue imediatamente reconhecível, frequentemente remetendo aos discos dos anos 1970.

O disco dá sequência ao caminho iniciado após a reunião em Present. Trata-se de um trabalho coeso, sem nostalgia gratuita. Participam Peter Hammill, nos vocais, piano, guitarra e baixo (na faixa Splink); Hugh Banton, nos teclados e instrumentos de corda; e Guy Evans, na bateria, percussão e guitarra (na faixa 5533).

Entre as faixas, Highly Strung, a terceira do disco, é a que eu mais gostei. Trata-se de uma composição progressiva tensa e angular, com a energia e a urgência de um punk e pós-punk.

O álbum conta com duas faixas instrumentais: Red Baron, a quarta do disco, e Splink, a sétima.

Red Baron aposta em uma atmosfera densa e ameaçadora, construída a partir da base rítmica de Guy Evans e dos teclados de Hugh Banton. Já Splink segue por um caminho distinto. Curta e instrumental, a faixa tem um clima mais lúdico e quase onírico, marcado pelo uso de glockenspiel e percussões metálicas. O título funciona como uma onomatopeia, sugerindo o som rápido e agudo desses instrumentos.

A quinta faixa, Bunsho, traz um título japonês que significa “sentença”. É uma das letras mais interessantes do disco. A música aborda a luta interna do artista diante da recepção pública de sua obra, expondo o descompasso entre aquilo que o criador valoriza e aquilo que o público acolhe. Ao longo da letra, fica claro que esse julgamento final está fora do controle do artista. A interpretação vocal de Peter Hammill carrega uma raiva contida que intensifica esse conflito.

Snake Oil, faixa seguinte, faz referência às falsas curas vendidas por charlatães e, por extensão, às promessas vazias presentes na política, nos negócios, na mídia e nas relações pessoais. Musicalmente, a canção retoma de forma evidente a sonoridade da fase clássica do Van der Graaf Generator, evocando álbuns como H to He, Who Am the Only One e Pawn Hearts.

Mr. Sands segue pelo mesmo caminho. Assim como Snake Oil, a faixa dialoga diretamente com esse período clássico da banda, tanto na estrutura musical quanto no tom. Aqui, o foco lírico recai sobre o envelhecimento, a passagem do tempo e a mortalidade, reforçando a sensação de continuidade com o passado sem recorrer à repetição mecânica.

Embarrassing Kid, oitava faixa do disco, é a segunda mais pesada do álbum, atrás apenas de Highly Strung. A letra trata de arrependimento, vergonha e da dificuldade de lidar com escolhas passadas, funcionando como uma reflexão sobre crescimento pessoal e aceitação do próprio percurso.

Medusa, faixa seguinte, retoma um andamento mais sombrio. A performance vocal de Peter Hammill começa contida e cresce em intensidade ao longo da faixa, lembrando em alguns momentos interpretações mais densas de David Bowie. O mito da górgona é usado como metáfora do medo paralisante.

Smoke e 5533, a décima primeira e a décima segunda faixas do disco, estão entre os momentos mais incomuns do álbum.

Smoke se destaca por um groove funky, articulado com a linguagem progressiva característica do Van der Graaf Generator. A música cria um contraste pouco usual dentro da discografia da banda, enquanto a letra usa a metáfora da fumaça para tratar da transitoriedade da existência e da própria ideia de verdade.

5533, que se liga à faixa anterior, apresenta um andamento mais quebrado e fragmentado. A faixa retoma o imaginário numérico do álbum em uma letra enigmática, reforçando a sensação de instabilidade e descontinuidade que atravessa o disco.

O disco se encerra com All Over the Place, minha segunda faixa favorita. É uma composição de sonoridade sombria, atravessada por um elemento “circense”.

Chamam atenção as progressões harmônicas dissonantes, o peso da performance do trio e a intensidade que a banda sustenta ao longo da faixa. O caráter “circense” surge sobretudo da instrumentação e da forma como linhas melódicas e rítmicas se articulam. O uso proeminente do cravo, ou de um teclado com timbre percussivo semelhante, possivelmente combinado ao glockenspiel, cria uma atmosfera de “parada de circo”, evocando a sensação de um brinquedo quebrado ou de um vodevil distorcido.

Essa justaposição produz um clima ao mesmo tempo lúdico e ameaçador, que remete, ainda que de forma distante, à teatralidade de A Plague of Lighthouse Keepers.

No conjunto, Grounding in Numbers se afirma como um disco consciente de seus próprios limites e do tempo em que foi feito. Não há aqui a tentativa de recuperar uma juventude perdida nem de repetir fórmulas consagradas. O Van der Graaf Generator trabalha com o que tem em mãos: experiência, desgaste e uma lucidez rara para uma banda com uma trajetória tão longa.

Ao usar a matemática como metáfora central, o álbum não celebra a ordem absoluta, mas expõe suas fraturas. Números, fórmulas e equações aparecem como promessas de controle que inevitavelmente falham diante da complexidade da vida. O resultado não é cinismo nem desencanto ruidoso, mas uma aceitação calma de que o erro, o desvio e o imprevisível fazem parte do processo.

Musicalmente, essa postura se traduz em composições mais concisas, tensas e diretas, que preservam a identidade histórica da banda sem se apoiarem em nostalgia automática. Há continuidade, não repetição. O passado está presente como referência, não como muleta.

Grounding in Numbers talvez não seja um álbum de grandes gestos ou momentos épicos, mas é um trabalho de equilíbrio fino entre cálculo e experiência, ordem e descontrole, lucidez e inquietação. Justamente por isso, soa honesto, maduro e necessário dentro da discografia do Van der Graaf Generator, funcionando menos como um fechamento de ciclo e mais como a afirmação de que ainda há algo relevante a ser dito.

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