Lançado em 27 de outubro de 1997, Legendary Tales não foi o primeiro disco do Rhapsody que ouvi, mas o terceiro.

Meu contato inicial com a banda veio por Dawn of Victory, depois por Symphony of the Enchanted Lands, e só então cheguei a este. Fiz, portanto, o caminho inverso da saga proposta pela banda. Quando finalmente alcancei Legendary Tales, eu já estava completamente envolvido pelo universo do Rhapsody. Talvez por isso a reação tenha sido imediata: era um disco fácil de gostar.

As capas eram sensacionais, o som grandioso, e o conceito que atravessava os álbuns exercia uma força magnética difícil de ignorar. Mesmo naquela época, o que mais me chamou atenção foi o modo como o disco se comportava menos como um conjunto de músicas isoladas e mais como uma trilha sonora contínua, pensada como unidade.

Legendary Tales já nasce estruturado a partir de uma lógica cinematográfica. Guitarras, orquestrações, coros e teclados operam como elementos narrativos, criando uma sensação constante de movimento dramático, como se cada faixa acompanhasse cenas, paisagens e personagens. A noção de “Hollywood Metal” ou “Film Score Metal”, que o próprio Rhapsody adotaria mais tarde, não surge aqui como um rótulo extravagante, mas como uma definição precisa do som e da ambição estética da banda.

Ainda assim, eu evitava dizer aos meus amigos o quanto o Rhapsody me empolgava. Havia ali uma espécie de vergonha infantil. O universo fantástico e assumidamente escapista da banda parecia excessivo diante do gosto refinado que eu acreditava cultivar naquele momento. Eu já estava profundamente imerso no rock progressivo e no jazz, na densidade concretista do Van der Graaf Generator, nas letras poéticas e angustiadas de Peter Hammill, no drama político e introspectivo de Roger Waters. Genuinamente gostava disso, e ainda gosto.

Mas também gostava da fantasia, da fuga deliberada, da ideia de que a música podia funcionar como um portal para outro mundo, não como um espelho da realidade imediata. Aprendi isso com Alice Cooper, Iron Maiden, Queensrÿche e King Diamond. Sempre gostei dessa dimensão teatral e narrativa da música. Só mais tarde eu iria conhecer o Avantasia, mas o impulso já estava ali.

Legendary Tales inaugura a chamada Emerald Sword Saga, estabelecendo um universo de fantasia épica que seria desenvolvido ao longo dos quatro trabalhos seguintes da banda. A narrativa se passa no continente fictício de Alk-Morte e acompanha a jornada de um herói arquetípico em busca do poder necessário para restaurar o equilíbrio do reino de Algalord, ameaçado pelo tirano Dark Lord Dargor. Profecias antigas, magos, guerreiros, dragões e artefatos lendários compõem um imaginário diretamente inspirado pelas grandes sagas literárias de fantasia, especialmente Tolkien, mas também pelo espírito lúdico de Dungeons and Dragons.

As letras funcionam como capítulos dessa jornada. Faixas como “Warrior of Ice”, “Rage of the Winter” e “Forest of Unicorns” descrevem deslocamentos por paisagens geladas, florestas encantadas e territórios desconhecidos, sempre em direção a um objetivo maior. Ao final do álbum, a missão inicial é apenas parcialmente cumprida, com a obtenção dos livros de profecias, deixando a narrativa deliberadamente em aberto para ser continuada nos discos seguintes.

Musicalmente, o disco se constrói a partir da fusão entre power metal, elementos folk e música sinfônica. Cordas, coros e teclados não estão ali para embelezar riffs, mas para criar espaço, atmosfera e progressão narrativa. Há ecos evidentes da música barroca, do romantismo e das trilhas sonoras de fantasia, integrados a uma base de metal rápido e melódico que sustenta o senso épico sem diluir a energia.

A produção de Sascha Paeth e Miro, no Gate Studio, é decisiva para que essa ambição funcione. O som é limpo, encorpado e permite que cada camada dos arranjos seja percebida com clareza. A escolha por instrumentos reais, em vez de soluções puramente sintéticas, reforça a materialidade da sonoridade e aproxima o álbum ainda mais da lógica do cinema, como se estivéssemos diante de uma trilha orquestral atravessada por guitarras.

As performances individuais sustentam essa proposta estética com segurança. Os vocais de Fabio Lione carregam uma teatralidade narrativa, assumindo o papel de um contador de histórias. As guitarras neoclássicas de Luca Turilli dialogam diretamente com a tradição erudita europeia, enquanto os teclados de Alex Staropoli definem clima, espaço e tensão. A alternância entre faixas velozes e momentos mais contemplativos reforça a sensação de percurso contínuo, oscilando entre ação e descanso.

Na época, eu aceitava declarar publicamente meu amor pelo Iron Maiden, mas o Rhapsody parecia ir longe demais. O power metal, frequentemente reduzido de forma pejorativa ao rótulo de “metal espadinha”, encontra no Rhapsody sua expressão mais escancarada e assumida. Tudo o que é exageradamente caricatural tende a provocar certo constrangimento. Hoje, percebo que esse desconforto dizia menos sobre a banda e mais sobre a insegurança de assumir um gosto que não se escondia atrás da sobriedade ou da gravidade intelectual.

Com o distanciamento do tempo, Legendary Tales se revela não apenas como o ponto de partida do Rhapsody, mas como a fundação de um modelo estético coerente, no qual o metal opera conscientemente como cinema sonoro. Sinto falta disso. Muitas das bandas de power metal que eu admirava na época, como o Angra, migraram para o metal progressivo, talvez numa tentativa de soar mais adultas.

Eu sinto falta da fantasia assumidamente “cheesy” do power metal, do exagero, do escapismo, da reimaginação semi-cristã e semi-pagã da novela de cavalaria, do universo tolkeniano e do imaginário dos jogos de RPG. Não como excessos acidentais, mas como o próprio núcleo estético da proposta.

Hoje, mais maduro e confiante do meu gosto, digo sem hesitação que o Rhapsody está entre as grandes bandas do gênero, possivelmente a melhor banda de power metal da história. O escapismo não aparece como fuga covarde, mas como gesto estético legítimo e necessário.

Eu amo esse universo. Eu amo o Rhapsody.

Clique aqui para ouvir o disco.

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