Freud, Eliade, Beatitude da Infância e o Retorno ao Útero

Em Mito e Realidade, Mircea Eliade procura demonstrar que os mitos não pertencem apenas ao passado das sociedades tradicionais. Embora a modernidade costume associá-los à superstição ou à imaginação religiosa, o autor argumenta que determinadas estruturas míticas continuam presentes nas formas contemporâneas de compreender a existência humana. Entre essas estruturas, uma das mais persistentes é a busca pelas origens.

Para Eliade, o interesse pela origem das coisas não é uma característica exclusiva dos povos arcaicos. Nas sociedades tradicionais, conhecer a origem de um objeto, de uma prática ou de uma instituição significava acessar sua verdade profunda e seu poder criador. O mito narrava justamente esses acontecimentos primordiais, revelando como o mundo, os seres vivos, os costumes e as formas de organização humana vieram a existir. Entretanto, o desaparecimento das antigas cosmologias não eliminou esse impulso fundamental. A própria cultura ocidental moderna passou a dedicar enorme energia intelectual à investigação dos começos. A ciência, a história e a antropologia buscaram explicar a origem do universo, da vida, das espécies, da linguagem, das religiões e das instituições sociais. O objeto da pesquisa mudou, mas a fascinação pelas origens permaneceu a mesma.

É nesse contexto que Eliade encontra uma aproximação particularmente interessante entre o pensamento moderno e o imaginário mítico: a psicanálise de Freud. Em vez de procurar a origem do cosmos ou da sociedade, a psicanálise desloca a questão para a história individual. O verdadeiro tempo primordial passa a ser a primeira infância. Segundo Freud, os acontecimentos que marcam os primeiros anos de vida exercem influência decisiva sobre a personalidade adulta, permanecendo ativos no inconsciente mesmo quando são esquecidos pela consciência.

Eliade observa que essa concepção apresenta uma surpreendente afinidade estrutural com inúmeros mitos religiosos. Em muitas tradições, a origem é concebida como um estado de plenitude, perfeição e felicidade posteriormente perdido. O Paraíso bíblico, a Idade de Ouro das mitologias clássicas e diversos relatos cosmogônicos descrevem uma condição primordial privilegiada, interrompida por uma ruptura que inaugura a existência humana tal como a conhecemos. De maneira análoga, Freud atribui à primeira infância uma condição de beatitude anterior aos conflitos e frustrações que caracterizam a vida adulta. A passagem do desmame, da separação e dos primeiros traumas assume, nessa perspectiva, um papel semelhante ao da queda ou da expulsão do paraíso presentes em tantas narrativas religiosas.

Essa analogia não significa que a psicanálise seja uma forma disfarçada de religião ou que Freud tenha simplesmente reproduzido antigos temas míticos. O que interessa a Eliade é algo mais profundo: a permanência de certos esquemas fundamentais de interpretação da existência. O ser humano continua compreendendo seu presente a partir de acontecimentos primordiais que determinam sua condição atual. O que muda é a linguagem utilizada para formular essa compreensão.

A própria concepção freudiana do inconsciente reforça essa proximidade. Eliade sugere que o inconsciente pode ser entendido como uma espécie de mitologia privada. Nele sobrevivem imagens, símbolos e experiências que organizam a vida psíquica de maneira semelhante àquela pela qual os mitos organizavam a experiência coletiva nas sociedades tradicionais. Mais do que isso, alguns conteúdos do inconsciente expressariam processos fundamentais da própria vida, conservando uma ligação profunda com aquilo que Eliade chama de sacralidade cósmica. Em um mundo amplamente secularizado, os sonhos, a imaginação e as criações artísticas tornam-se alguns dos últimos espaços em que o homem moderno ainda mantém contato com essa dimensão simbólica primordial.

Outro aspecto que chama a atenção de Eliade é o método terapêutico da psicanálise. A cura proposta por Freud depende de um retorno às experiências decisivas da infância. Recordar, reviver e reinterpretar os acontecimentos que moldaram a personalidade constitui uma forma de regressão controlada ao tempo das origens. Para Eliade, esse procedimento possui paralelos evidentes com numerosos rituais tradicionais. Em diferentes culturas, acreditava-se que a regeneração da existência exigia um retorno simbólico ao princípio. Reatualizar os acontecimentos fundadores significava recuperar a força criadora presente no momento da origem.

Nas sociedades arcaicas, esse retorno geralmente possuía um caráter coletivo. Comunidades inteiras reviviam ritualmente os acontecimentos narrados pelos mitos, retornando simbolicamente ao tempo sagrado da criação. A psicanálise, por sua vez, realiza um movimento semelhante em escala individual. O paciente retorna não ao início do cosmos, mas ao início de sua própria história. Em ambos os casos, o passado primordial não é tratado como algo definitivamente encerrado. Ele permanece acessível e pode ser reatualizado para produzir transformação e renovação.

Essa lógica alcança sua expressão mais clara nos rituais iniciáticos estudados por Eliade. Muitas iniciações tradicionais envolvem símbolos de retorno ao ventre materno, conhecidos pela expressão latina regressus ad uterum. O iniciado passa por uma morte simbólica para depois renascer em uma condição superior. O objetivo não é repetir o nascimento biológico, mas realizar uma transformação espiritual. O retorno à origem torna-se, assim, condição para o acesso a uma nova forma de existência.

A partir dessas comparações, Eliade sustenta uma de suas teses mais importantes: a modernidade não aboliu as estruturas fundamentais do pensamento mítico. Mesmo quando se apresenta como científica, racional ou secular, ela continua recorrendo a modelos simbólicos que atribuem às origens um papel decisivo. A busca pelo começo, a crença em um estado primordial privilegiado e a esperança de renovação através de um retorno às fontes continuam presentes, ainda que sob formas distintas daquelas encontradas nas religiões tradicionais. O mito não desaparece; ele se transforma e reaparece em novas linguagens, revelando uma necessidade permanente da condição humana de encontrar sentido naquilo que veio primeiro.

Imagem: Retorno ao Útero, William Blake (Livro de Urizen)

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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