Da arianização ao budismo: a “descoberta” do sofrimento

Arianização, bramanismo, hindunização e, finalmente, budismo

Mircea Eliade aborda no segundo volume de História das Crenças e das Ideias Religiosas os processos de arianização e hindunização no subcontinente indiano como fenômenos culturais e religiosos profundos, ligados à dinâmica histórica e espiritual da Índia e regiões vizinhas.

Eliade entende a arianização como o processo de difusão e imposição dos valores culturais e religiosos dos indo-arianos, povos que migraram para o subcontinente indiano por volta do II milênio a.C., trazendo consigo elementos que formariam a base do Vedismo e, posteriormente, do Hinduísmo (através do bramanismo, que serviu de intermediação entre uma coisa e outra).

Arianização refere-se à assimilação das estruturas sociais (como o sistema de castas), linguísticas (sânscrito) e religiosas (cultos védicos a deuses como Indra, Varuna e Agni) pelos povos não-arianos do subcontinente.

Eliade destaca que esse processo não foi apenas uma conquista militar, mas uma transformação religiosa e cosmológica, em que os mitos e rituais védicos se fundiram com tradições locais (como as culturas dravídicas e harappanas).

A supremacia do deus védico Indra sobre divindades autóctones simbolizaria a vitória da ordem cósmica (Ṛta) sobre o caos.

O bramanismo surge quando os brâmanes (sacerdotes) ganham supremacia, transformando os rituais védicos em sistemas complexos e exclusivos, registrados nos Brahmanas (textos explicativos dos Vedas). O bramanismo absorveu elementos não-védicos (como ascetas shramanas e ideias do Jainismo e Budismo), preparando o terreno para a hindunização de cultos populares.

Já a hindunização, segundo Eliade, é um processo mais amplo e tardio, ligado à consolidação do Hinduísmo como síntese de diversas tradições (védicas, bramânicas, xamanísticas locais e cultos populares).

Representa a absorção de divindades, mitos e práticas regionais no grande sistema hindu, muitas vezes através do mecanismo de identificação de deuses locais com figuras do panteão hindu (ex.: a assimilação de deuses tribais como formas de Shiva ou Vishnu).

Eliade enfatiza a flexibilidade do Hinduísmo em incorporar cultos animistas, rituais de fertilidade e até tradições heterodoxas, reinterpretando-os dentro de uma estrutura cosmológica e filosófica unificada (como a noção de dharma e karma). A transformação de divindades agrícolas em avatares de Vishnu (como Krishna, originalmente uma figura tribal) ilustra esse processo.

Para Eliade, ambos os processos demonstram como a Índia sacralizou a história: transformou invasões, migrações e conflitos em narrativas religiosas (como os Purānas), onde até os deuses “estrangeiros” são integrados ao eterno retorno do sagrado.

Todo esse processo, segundo Eliade, é bastante complexo e, ao mesmo tempo, imperceptível. Segundo ele, certos elementos especificamente “hinduístas” já estavam presentes no seio da sociedade védica.

O processo de arianização e hindunização do subcontinente foi efetuado durante as profundas crises testemunhadas pelos ascetas e pelos contemplativos da época dos Upanishads e, sobretudo, pela pregação de Gautama Buda.

Buda

Para Eliade, Buda seria aquele que proclamaria que “tudo é dor, tudo é efêmero” e resumiria em uma espécie de leitmotiv todo pensamento religioso pós-upanixádico, um pensamento que deixaria de lado toda ânsia cosmológica de verdade para se concentrar no grande mistério da “dor” (e usamos essa palavra apenas como uma débil aproximação de algo que carrega em si mais significados do que aparenta).

As doutrinas e as especulações, bem como os métodos de meditação e as técnicas soteriológicas, encontram sua razão de ser nesse “sofrimento universal”, pois só têm valor na medida em que libertam o homem dessa “dor”.

A experiência humana, qualquer que seja sua natureza, gera o “sofrimento”. O corpo é dor porque é o lugar da dor; os sentidos, os objetos dos sentidos e as percepções são sofrimentos porque conduzem ao sofrimento; o próprio prazer é sofrimento porque é seguido de sofrimento. Isso é algo que seria redescoberto e deliberado na filosofia de Arthur Schopenhauer. Estamos oscilando entre a ânsia de ter e o tédio de possuir.

Isvara Krishna, autor do mais antigo tratado sāṃkhya, afirma que, na base dessa filosofia, está o desejo do homem de escapar à tortura dos três sofrimentos: a miséria celeste (provocada pelos deuses), a miséria terrestre (causada pela natureza) e a miséria interna ou orgânica.

No entanto, a descoberta dessa dor universal não leva ao pessimismo. Nenhuma filosofia e nenhuma mensagem religiosa da Índia se aproxima do desespero. A revelação da “dor” como lei da existência pode, ao contrário, ser considerada a condição sine qua non da libertação; esse sofrimento universal tem, portanto, intrinsecamente, um valor positivo e estimulante (por isso dissemos que a palavra “dor” é uma débil aproximação). A dor se torna uma necessidade cósmica.

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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