Chesterton e a Beatificação do Palpiteiro

Como um amador genial ensinou o mundo a brincar com a verdade sem perder a seriedade

G. K. Chesterton jamais reivindicou para si o título de filósofo. E talvez esteja aí um dos seus maiores truques, desses que fazem o leitor suspeitar que a sabedoria, quando é sábia de verdade, prefere entrar na sala pela porta dos fundos, com o chapéu torto e o sorriso largo. Chesterton nunca aparentou estar construindo sistemas ou arquitetando teorias. Ele parecia mais interessado em brincar de pega-pega com as ideias, como uma criança que descobre que os conceitos também podem correr, tropeçar, rir e até fazer caretas quando ninguém está olhando.

Essa leveza, porém, não é um gesto de displicência. É coragem. A coragem rara de arriscar palpites gigantescos, desses que fazem críticos sisudos erguerem a sobrancelha. Palpites como “o cristianismo é a resposta para tudo”, “o progresso é um mito” ou “a família é a única anarquia que funciona”. São frases que, ditas por qualquer outra pessoa, talvez soassem como bravatas. Mas colocadas na pena de Chesterton, adquirem o brilho de uma lâmpada acesa num quarto escuro: de repente tudo se revela, irônico e iluminado ao mesmo tempo.

E quando o palpite dele acerta — porque às vezes acerta com uma precisão absurda — surgem aquelas sentenças que parecem ter sido sopradas por anjos bêbados, que tomaram vinho demais, mas continuam mais lúcidos do que todos nós juntos. A mais célebre delas afirma que os poetas não enlouquecem, que quem enlouquece são os matemáticos e os filósofos, esses pobres coitados que tentam enfiar o universo inteiro dentro de uma equação. Os poetas, esses sim, apenas se divertem. Chesterton também. Talvez seja por isso que ele nunca enlouqueceu.

O que mais encanta na sua obra não é o humor ou o brilho verbal, mas a dignidade que ele confere ao amador. Ele beatifica o palpiteiro, eleva o chutador ao status de alguém que voa. Não porque ignora a realidade, mas porque a enfrenta com a ousadia inocente de quem sabe que o mundo, no fundo, tem senso de humor e um coração grande o suficiente para acolher quem se aproxima dele sem medo. Chesterton assume o risco de tentar compreender o real como quem estende a mão a um animal selvagem: não para domá-lo, mas para brincar com ele.

E por isso o grande presente que ele deu ao mundo não foi a construção de uma filosofia, teologia ou ideologia política. O que ele ofereceu foi algo bem mais subversivo, e talvez por isso mais duradouro: a dissolução de todas elas num paradoxo cômico. Chesterton não destrói sistemas. Ele os dissolve, como quem coloca açúcar demais no café até que ele deixe de ser café e vire outra coisa, deliciosa e estranhamente doce demais para ser levada a sério.

É por isso que há algo quase caricatural, e portanto muito verdadeiro, no fato de Mário Ferreira dos Santos, um dos mais intensos nietzscheanos brasileiros, ter profundo apreço por Chesterton. Não é que o considerasse um adversário filosófico à altura de Nietzsche. Seria injusto exigir de Chesterton tal postura. Até porque ele jamais pegaria o martelo de Nietzsche para quebrar ídolos ou conceitos. Chesterton pegaria o martelo para construir uma casa na árvore, provavelmente para as crianças da vizinhança, e ainda chamaria Nietzsche para ajudá-lo a escolher a madeira mais bonita.

Do mesmo modo, é deliciosamente cômico que Gramsci o admirasse e que Žižek o cite com frequência e entusiasmo. O apologeta cristão que desperta fascínio em marxistas. O conservador alegre que encontra eco entre revolucionários melancólicos. Há, nessa comicidade, uma verdade universal: o mundo reconhece instintivamente quando algo é grande demais para caber nas fronteiras das ideologias.

Talvez seja por isso que tanta gente tão distinta encontra nele algo de precioso. Chesterton tem essa capacidade quase sacramental de tornar leve o que é pesado. De tornar brincadeira o que é sério. De tornar voo o que parecia apenas palpite.

E confesso: eu queria ter metade dessa vibe. Metade dessa coragem infantil. Metade dessa alegria metafísica que faz do mundo um parque de diversões moral, repleto de paradoxos que, quando bem observados, talvez estejam apenas nos convidando a rir.

Porque, se depender de Chesterton, a verdade nunca será um fardo. Será sempre uma piada boa demais para ser entendida de uma vez só.

 

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O podcast é apresentado por Gabriel Vince. Já foi estudante de filosofia, história, programação e jornalismo. Católico, latino e fã de Iron Maiden. Não dá pra ser mais aleatório que isso.

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