O progresso, a multiplicidade e a criatividade do pensamento budista parecem ter surgido, ao longo da história, justamente das tensões que já estavam presentes desde o início da tradição.
É interessante perceber que, normalmente, uma religião começa relativamente coesa e, com o passar do tempo, vai se fragmentando em diferentes escolas, interpretações e correntes.
Com o budismo, parece ter acontecido algo um pouco diferente. A tradição já nasceu marcada por disputas importantes sobre doutrina, autoridade e canonicidade. Essas divergências não surgiram apenas depois da morte do Buda. Algumas delas remontam aos primeiros anos da própria comunidade budista, quando o próprio Buda ainda estava vivo e podia ser consultado diretamente.
Temos, por exemplo, a tensão entre os chamados “especulativos” e os “iogues”.
Os especulativos valorizavam o estudo dos textos sagrados, da filosofia e dos debates intelectuais. Viviam principalmente em grandes mosteiros urbanos e centros de estudo e acreditavam que, para se libertar do sofrimento, era necessário compreender profundamente a mente e a realidade por meio da disciplina intelectual e do estudo, aquilo que no budismo é chamado de pariyatti.
Os iogues, por outro lado, privilegiavam a meditação, o isolamento e a experiência direta. Viviam em florestas, cavernas e montanhas e desconfiavam do excesso de livros e debates, que consideravam uma possível distração do objetivo fundamental da prática. Para eles, a iluminação não seria alcançada simplesmente acumulando conhecimento, mas sentando-se para observar a própria mente e experimentando diretamente aquilo que os textos descreviam. Essa dimensão prática é conhecida como paṭipatti.
Em princípio, não há nada na própria doutrina budista que coloque necessariamente uma dessas perspectivas acima da outra. A tendência ortodoxa foi procurar algum equilíbrio entre estudo e prática, algo coerente com a própria ideia do “caminho do meio”.
Na história, porém, a tensão entre essas duas tendências foi se intensificando. E nem sempre por razões propriamente filosóficas. Muitas vezes, havia também interesses bastante mundanos envolvidos.
Os grandes mosteiros dedicados ao estudo estavam nas cidades, acumulavam riqueza, prestígio e influência política. Para os iogues da floresta, isso podia parecer uma forma de corrupção do ensinamento original do Buda. O monge que vivia cercado de livros, patronos e autoridades estaria, nessa perspectiva, cada vez mais distante da experiência que deveria conduzir à libertação.
Os especulativos, por sua vez, podiam enxergar os iogues como ignorantes e pouco rigorosos. Sem uma sólida formação doutrinária, diziam, experiências meditativas poderiam ser confundidas com iluminação ou até mesmo com alucinações.
Essa tensão, entretanto, em vez de enfraquecer o budismo, acabou enriquecendo-o. Ela obrigou a tradição a se tornar objeto de um constante esforço de exegese, fazendo com que o budismo nunca pudesse se acomodar completamente em uma única forma de pensamento.
Os iogues impediram que o budismo se transformasse numa espécie de filosofia de gabinete, distante da experiência concreta da prática. Os especulativos, por outro lado, ajudaram a impedir que a experiência religiosa se dissolvesse em um misticismo vago, sem critérios doutrinários ou reflexão filosófica.
Essa flexibilidade foi fundamental para que o budismo pudesse se espalhar pela Ásia sem precisar assumir exatamente a mesma forma em todos os lugares. A tradição encontrou diferentes maneiras de dialogar com as disposições culturais, intelectuais e religiosas de cada sociedade.
É assim que podemos encontrar, por exemplo, tradições budistas profundamente associadas à filosofia, à erudição e à cultura letrada na China, enquanto no Tibete o budismo assumiu formas muito mais marcadamente devocionais e ritualísticas.
O budismo não precisou escolher definitivamente entre essas possibilidades. Sua própria história parece ter sido construída pela convivência, nem sempre pacífica, entre elas.
Talvez esteja aí uma das razões de sua extraordinária capacidade de sobrevivência e transformação. O budismo não se expandiu simplesmente levando uma doutrina pronta de um lugar para outro. Ele carregou consigo um conjunto de tensões que permitia novas interpretações, novas práticas e novas respostas para problemas que surgiam em contextos diferentes.
Nesse sentido, sua multiplicidade não representa necessariamente uma perda de unidade. Ela pode ser entendida como uma consequência da própria vitalidade da tradição.