Na imagem, um altar doméstico.
Indiferença metafísica, pragmatismo ritual e a multiplicação das entidades divinas na estrutura social de Roma
Estou lendo História das Crenças e das Ideias Religiosas, de Mircea Eliade**, e tenho o hábito de registrar impressões detalhadas a cada fragmento de leitura. No trecho que acabei de estudar, fiquei particularmente atento à descrição da religiosidade romana, que Eliade caracteriza como marcada por uma indiferença metafísica e, ao mesmo tempo, por uma intensa sacralização do concreto.
O que isso significa, na prática? Que os romanos não estavam preocupados em construir uma teologia especulativa ou em investigar a essência última do divino. A religião não se organizava em torno de sistemas abstratos, mas da experiência imediata. A vontade divina se manifestava hic et nunc, aqui e agora, em sinais, prodígios e acontecimentos insólitos. Diante disso, a pergunta central não era “quem é Deus em sua natureza?”, mas “qual ritual deve ser realizado para responder corretamente a este sinal?”. A eficácia ritual ocupava o lugar que, em outras tradições, seria preenchido pela especulação metafísica.
Essa atenção quase obsessiva aos detalhes da ação divina gerou um processo complexo de personificação. Cada função, cada momento específico da vida, podia corresponder a uma entidade distinta. As múltiplas epifanias de uma mesma divindade, assim como suas diferentes atribuições, tendiam a se distinguir como entidades autônomas.
Eliade lembra, citando Santo Agostinho, exemplos que tornam isso muito concreto. Para que o bebê recém-nascido pudesse vagir e começar a falar, invocavam-se Vaticanus e Fabulinus. Quando chegava o momento de aprender a comer e beber, recorriam-se a Educa e Potina. Ao dar os primeiros passos, a criança era assistida por Abeona. E assim por diante. Havia, em princípio, uma divindade específica para cada fase e cada gesto relevante da existência. Essa multiplicação de entidades mostra como o romano tendia a divinizar todos os aspectos da vida cotidiana.
Ao refletir sobre isso, percebo que essa estrutura religiosa está intimamente ligada à organização social de Roma. O chamado “gênio religioso romano” se distingue pelo pragmatismo e pela sacralização das coletividades orgânicas: a família, a gens, a pátria. Virtudes como a disciplina, a fidelidade aos compromissos, a fides, a dedicação ao Estado e o respeito ao direito possuíam um prestígio religioso. O sagrado reforçava a ordem social.
Nesse contexto, a pessoa não era pensada como um valor absoluto em si mesma. Seu valor derivava do que fazia e da posição que ocupava na estrutura social. A religiosidade romana tinha, portanto, um caráter essencialmente social e relacional. O indivíduo existia como parte de um corpo maior, e era nesse pertencimento que sua dignidade religiosa se fundamentava.
Somente mais tarde, sob a influência grega e dos cultos orientais de salvação, os romanos começaram a deliberar sobre a importância religiosa da pessoa considerada independentemente de suas funções imediatas. Antes disso, a religião romana não possuía uma teologia sistemática, nem uma tradição especulativa forte, nem um sentido soteriológico claramente desenvolvido. O sagrado se revelava por meio de prodigia, auspícios e sinais extraordinários, não por tratados doutrinários.
Ao fazer essas anotações, também procuro evitar simplificações. A indiferença metafísica romana não deve ser entendida como negação do transcendente. Os romanos possuíam a noção de numen, isto é, de um poder divino ativo. O que ocorre é uma prioridade do funcional sobre o especulativo. Trata-se menos de negar a metafísica e mais de não fazer dela o centro da experiência religiosa.
Eliade ainda sugere que as religiões diferem muitas vezes mais em ênfase do que em natureza. Algumas, como a religião chinesa, também sacralizam a realidade comum por não separarem rigidamente o natural do sobrenatural. De certo modo, até o Cristianismo poderia ser lido assim, pois toda realidade, chamada natural ou sobrenatural, provém da mesma fonte, da mesma vontade criadora.
Esse trecho reforça para mim a imagem de uma Roma profundamente religiosa, mas de uma religiosidade voltada ao concreto, à ordem social e à eficácia ritual. Registrar esses pontos me ajuda a perceber como a estrutura da religião romana estava menos interessada em explicar o mundo e mais empenhada em mantê-lo ritualmente em equilíbrio.
