Iaiá Garcia é geralmente considerado o último romance da chamada “fase romântica” de Machado de Assis — embora eu ache equivocada essa divisão rígida em fases dentro da obra do autor.
Publicado originalmente em forma de folhetim, entre 10 de janeiro e 2 de março de 1878, no recém-lançado jornal diário O Cruzeiro (onde Machado também escrevia as “Notas Semanais”), o livro não saía todos os dias, mas manteve presença marcante no periódico.
Costuma-se associar o romance à tradição romântica porque nele aparecem temas típicos do movimento: família, amor e casamento. Contudo, esses mesmos temas, presentes também em obras posteriores, ganham em Machado uma dimensão distinta, que considero de forte inspiração shakespeariana. Como escrevi em meu texto “Nada acontece, feijoada”:
“Machado de Assis tem em Shakespeare uma influência notória. Os temas do amor, do poder familiar, da ascensão social, da ambição, da dissimulação e do orgulho estão todos lá. Mas aparecem em chave ‘diurna’: sem fantasmas, sem reis, sem aparições, sem o out, damned spot de Lady Macbeth.”
A recepção crítica inicial, porém, foi morna — e, a meu ver, injusta. Na Revista da Sociedade Fênix Literária, Urbano Duarte de Oliveira escreveu que em Iaiá Garcia Machado “tentou, mas não conseguiu desenvolver uma tese”. Ora, que tipo de leitor espera encontrar num romance de Machado a defesa de uma tese?
Mais interessante é a análise posterior de João Luiz Lafetá, em A Dimensão da Noite e Outros Ensaios. Ele observa que o livro “ainda não tem a grande característica de Machado de Assis, aquela modulação de voz pausada e reticente que relativiza as afirmações, afasta a ênfase e dimensiona ironicamente o narrado. Entretanto, se não traz o tom maior do escritor, já trabalha com a mesma matéria que alimentará seus melhores romances: a pequena vida cotidiana das famílias cariocas do século XIX, envolvidas na trama dos casamentos arranjados por interesse, dos amores impedidos por sanções sociais, do dinheiro como poderoso agente motivador das ações humanas.”
Confesso que o que escrevi até aqui poderia se estender em um ensaio mais robusto — se eu não tivesse tanta falta de tempo e, sobretudo, de disposição. Para mim, Iaiá Garcia pertence a um gênero que nem tem nome: uma espécie de romantismo com humor quixotesco. O início é intenso: beijos roubados, uma campanha militar (a Guerra do Paraguai), episódios de ação. Mas, passada essa euforia, percebemos que tudo isso ocupa menos de um quinto da narrativa. Os quatro quintos restantes exploram o “pós”: o pós-romance, a pós-desilusão, o pós-trauma. A vida se reorganiza lentamente, agora na tranquilidade de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, enquanto se constrói uma intrincada tensão psicológica.
Se fosse preciso resumir o romance em uma palavra, eu escolheria esta: triângulo. Machado triangula personagens e temporalidades: Jorge, Iaiá e Estela; passado, presente e futuro. No passado, Jorge e Estela viveram uma relação intensa, mas não consumada, dissolvida pelo tempo e pelas circunstâncias. Ela desaparece, mas nunca por completo — e esse “não por completo” é o que dá densidade ao romance. O triângulo se fecha com a entrada de Iaiá, que dá nome ao livro e cujo vínculo com Jorge desperta em Estela um sentimento que julgava adormecido.
Esse despertar, porém, se recolhe em dissimulação, pudor e respeito, ao mesmo tempo em que gera uma tensão “pitagórica”: Iaiá percebe os sentimentos ocultos da madrasta pelo homem que agora ama. Nesse jogo, as cartas desempenham papel fundamental, pois cristalizam momentos do passado e projetam possíveis futuros. São linhas retas que conectam os vértices do triângulo, mas também os tempos da narrativa.
Se há alguma “tese” em Iaiá Garcia — como queria Urbano Duarte de Oliveira — talvez seja justamente esta: permitir que o passado permaneça no passado, para que o presente possa ser plenamente presente. Ou, em termos quase matemáticos, aprender a resolver a geometria afetiva que Machado constrói nesse romance.