As expressões faciais sempre exerceram um fascínio único no universo da arte — do sorriso enigmático da Mona Lisa ao incrível Cristo Pantocrator, cujo rosto de Nosso Senhor divide-se entre severidade e misericórdia.
Nenhuma parte do corpo possui uma capacidade metamórfica tão poderosa quanto o rosto.
Recorro aqui ao conceito lacaniano de pulsão escópica — o desejo de ver e ser visto — para explorar como as expressões faciais revelam, mas também dissimulam, o que somos.
Toda expressão facial é uma manifestação da pulsão escópica. O rosto funciona como nossa primeira “máscara” social, um palco onde tentamos controlar como somos percebidos: sorrimos para agradar, mas também sorrimos quando queremos realmente sorrir; assim como franzimos a testa para sinalizar desaprovação ou endurecemos o olhar para impor autoridade, de forma consciente ou não.
No Japão, existe o conceito de tatemae (建前), uma sofisticada arte de dissimulação em que a impassividade facial (ou o fingimento dos sorrisos) esconde sentimentos reais.
A cortesia superficial de um japonês pode, muitas vezes, ocultar uma profunda reprovação. Eles o fazem para não perturbar a ordem pública.
Já os latinos tendem ao oposto: suas expressões faciais são mais explícitas, deixando claro quando apreciam ou desdenham algo — e que se dane a ordem pública.
A obra do escultor Yoshitoshi Kanemaki parece capturar todas as pulsões escópicas reprimidas na cultura japonesa. Seus rostos esculpidos em madeira exibem múltiplas expressões simultâneas, como se todas as emoções contidas — aquelas que o tatemae obriga a ocultar — finalmente encontrassem uma forma de se revelar — e se revelam monstruosamente humanas.
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