Já ouviu falar de Four Tet: ʅ͡͡͡͡͡͡͡͡͡͡͡(̸̢̛̼̞̭͋ͅ)̸͚̰͛̔̾̀̿͒͂:̴͓̞̑̌̂̆̊͋̀:̸͎̟̯̂̓̌ ҉ ͡ ͞ ͞ ͞ ҉● ࿀ ● ࿀ ● ҉⃝ ⃝͢ ͞ ͘ ͞⃝̕ ͢ ̛ ⃝ ̸ ̡ ͢⃝̧ ͡ ͡ ̀ ̧ ̢⃝͜ ҉ ͞ ͞ ⃝͞ ͘ ͞ ͡⃝ ⃝҉҈҉҈҉҈҉҈҉҈҉ :̶̢͙͙͕̠̩͆(̷̮͍͚̫͚͂̍)̵̳̗̊( ̟̞̝̜̙̘̗̖҉̵̴̨̧̢̡̼̻̺̹̳̲̱̰̯̮̭̬̫̪̩̦̥̤̣̠҈͈͇͉͍͎͓͔͕͖͙͚͜͢͢͢͢͢͢͢͢͢͢͢͢͢͢ͅ l̡̡̡ ̡͌ Ɵʅ͡͡͡͡͡͡͡͡͡͡͡(̸ ….?
Esse emaranhado de símbolos e caracteres especiais é o título de um álbum lançado de surpresa pelo produtor musical britânico Kieran Hebden, mais conhecido como Four Tet.
O projeto utiliza uma espécie de pseudônimo ilegível, baseado em caracteres Unicode, Wingdings e outros símbolos que praticamente impossibilitam sua pronúncia ou digitação convencional. É uma escolha que se relaciona diretamente com a chamada cultura “anti-search”.
A ideia do anti-search é simples: criar obras que sejam deliberadamente difíceis de pesquisar, localizar, indexar ou compartilhar da maneira convencional. Para encontrar determinados lançamentos, não basta digitar o nome do artista e do álbum no Google ou em um serviço de streaming. É preciso salvar a sequência de caracteres em algum bloco de notas, guardar o link ou simplesmente receber a informação de outra pessoa.
É uma pequena sabotagem da lógica de conveniência da internet.
A escolha de nomes ilegíveis, caracteres baseados em Unicode e referências aos antigos Wingdings também recupera algo da cultura das raves e do underground. Antes dos algoritmos de recomendação, descobrir música dependia muito mais do boca a boca, de fitas cassete, flyers, lojas especializadas, transmissões piratas e gravações compartilhadas entre amigos.
Nesse sentido, dificultar o acesso também pode funcionar como uma forma de desacelerar o consumo.
Existe aí uma crítica interessante ao chamado “achatamento algorítmico”: a transformação de praticamente toda produção cultural em informação facilmente pesquisável, categorizável e recomendável. O algoritmo precisa identificar o artista, o álbum, a faixa, o gênero, o público e o contexto para poder encaixar tudo em algum lugar.
Uma música fácil de digitar é também uma música fácil de indexar, catalogar e empurrar para uma playlist automatizada de “Chill Vibes”, “Focus Lofi” ou qualquer outra categoria criada para transformar música em trilha sonora de alguma atividade.
Obviamente, o anti-search não escapa realmente da categorização, da indexação ou do próprio search. Um lançamento continua podendo ser identificado por bancos de dados, metadados e outras ferramentas. O que muda é a fricção. A intenção não é desaparecer completamente, mas dificultar deliberadamente o caminho até a obra.
Essa lógica também aparece em outras práticas: álbuns intitulados apenas com um ponto “.”, faixas chamadas simplesmente “Track 1”, “Track 2”, “Track 3”, ausência deliberada de metadados ou até mesmo múltiplos perfis de artista que dificultam a construção de uma identidade digital única.
Há ainda um efeito visual interessante. Quando um artista utiliza caracteres “quebrados” ou combinações incomuns de Unicode, plataformas e navegadores podem ter dificuldade para renderizá-los corretamente. O resultado são falhas tipográficas, símbolos estranhos e pequenos glitches na interface.
A própria linguagem do sistema passa a fazer parte da obra.
O movimento anti-search parte justamente dessa recusa à ideia de que toda produção cultural precisa estar imediatamente disponível, organizada e otimizada para o consumo. É uma maneira de introduzir ruído em um ambiente que tenta transformar tudo em dado.
E é exatamente nesse contexto que aparece o álbum de Four Tet: ʅ͡͡͡͡͡͡͡͡͡͡͡(̸̢̛̼̞̭͋ͅ)̸͚̰͛̔̾̀̿͒͂:̴͓̞̑̌̂̆̊͋̀:̸͎̟̯̂̓̌ ҉ ͡ ͞ ͞ ͞ ҉● ࿀ ● ࿀ ● ҉⃝ ⃝͢ ͞ ͘ ͞⃝̕ ͢ ̛ ⃝ ̸ ̡ ͢⃝̧ ͡ ͡ ̀ ̧ ̢⃝͜ ҉ ͞ ͞ ⃝͞ ͘ ͞ ͡⃝ ⃝҉҈҉҈҉҈҉҈҉҈҉ :̶̢͙͙͕̠̩͆(̷̮͍͚̫͚͂̍)̵̳̗̊( ̟̞̝̜̙̘̗̖҉̵̴̨̧̢̡̼̻̺̹̳̲̱̰̯̮̭̬̫̪̩̦̥̤̣̠҈͈͇͉͍͎͓͔͕͖͙͚͜͢͢͢͢͢͢͢͢͢͢͢͢͢͢ͅ l̡̡̡ ̡͌ Ɵʅ͡͡͡͡͡͡͡͡͡͡͡(̸
O lançamento aconteceu inicialmente de forma surpresa, em vinil, com apenas 2.000 cópias físicas, que se esgotaram quase instantaneamente. Não apenas o nome do álbum, mas também suas faixas são identificadas por esse emaranhado de símbolos.
Musicalmente, o disco se aproxima da estética da folktronica. É música eletrônica, especialmente house e techno acelerado, mas construída sobre texturas melódicas que evocam “paisagens bucólicas” e “pastorais” (não sei explicar de outra forma, desculpem).
Há uma combinação curiosa entre sintetização, programação e instrumentos tradicionais, como cítaras, flautas e harpas (do que eu identifiquei). Os pads são confortáveis e “aquosos” e, em alguns momentos, parece que estamos ouvindo um DJ tocando baixo dentro de uma caverna.
Em suma, é uma música eletrônica bastante física, mas que ao mesmo tempo transmite uma sensação orgânica e contemplativa. Não sei explicar, pare de ler e vá ouvir, vou deixar o link do disco abaixo.
